O concreto e as nuvens – livro impresso x livro digital

Começo este texto com um “apesar de”, e me lembro de Clarice – em Uma Aprendizagem ou o livro dos prazeres. Apesar de, resisto. Apesar de, não cedo. Apesar do risco do antiquado e retrógrado, apesar do melhor manuseio, transporte, armazenamento e de todos os outros motivos possíveis: prefiro o livro físico ao virtual – ainda.

Com uma dependência cada vez maior da tecnologia, da internet móvel, do acesso rápido e com as facilidades provenientes da digitalização e informatização do mundo, natural seria eleger as páginas passadas ao leve toque na tela como prediletas. Um acervo enorme dentro de um pequeno dispositivo, “conectável” em qualquer lugar. Dez, cem, trezentos livros ali à disposição, com você aonde quer que se vá. A fila do banco está grande? O médico está atrasado? A viagem é interminável? Liga-se o aparelhinho e escolhe-se um livro para ler. Simples, fácil, cômodo. Downloads em poucos minutos. Um catatau de 1200 páginas pesando menos de 50g. Dom Quixote, Os Maias, a Bíblia: levados no bolso, e em edições sem cortes.

A César o que é de César: a tecnologia veio ajudar, trazer mais conforto e opções, sim. Não me ponho em oposição.

Mas sou dessas que gostam do toque, da aspereza ou maciez do papel. De ver as letras impressas em tinta, sentir o alto relevo, a capa dura (ou não). Descobrir a idade do livro pelo cheiro, saber se esteve guardado por muito tempo em alguma estante – esquecido – ou se é cria nova e fresca. Virar as folhas, que – às vezes – colam umas às outras e ter que lamber de leve as pontas dos dedos para auxiliar na empreitada (apesar dos protestos de arquivologistas e bibliotecários). Prefiro o contato à distância. Ver a pilha aumentando em casa de tempos em tempos: os lidos e os “para ler”, divididos em montes que podem ser grandes ou pequenos. Ou tê-los organizados numa estante limpa e bem cuidada. Há quem chame egoísmo cultivar exemplares numa – mesmo pequena – biblioteca particular. Lamento.

Livros são presença , como pessoas queridas: conversas através de programas que encurtam distâncias jamais substituirão o estar delas conosco frente a frente. Poder experimentá-los com todos os sentidos possíveis é inigualável. Parece-me que ter o livro nas mãos faz dele mais Livro, mais gente, mais humano, numa categoria superior aos outros sem papel.

Talvez um dia eu me convença de que o apesar de deve ser esquecido. Ou ao menos reavaliado. Talvez um dia eu compreenda sensivelmente os passos que o mundo deu e me adapte. Mas cresci colecionando gibis e livros em caixas e as acompanhava diminuírem de tamanho com o tempo. Retirava os exemplares dali semanalmente para limpá-los de um por um, até escolher o que seria lido, como num ritual místico. Difícil acostumar a vê-los independentes, impessoais e sempre limpos.

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Sobre o autor

Deanna Ribeiro

Graduada e Licenciada em Letras pela UFPE, Deanna Ribeiro é de Olinda-PE, professora por formação e revisora de textos de maneira autônoma. Lê por opção. É autora do livro “As mulheres que não cabem em mim (ao meu redor)”, publicado em novembro de 2012 pela editora Multifoco (RJ); edita o blog Caixa Chinesa; participa como autora convidada da Comunidade Literária Benfazeja; colabora com o projeto de um portal voltado para escritores na internet (O Escritor); tem textos publicados nas revistas virtuais Babel e Varal do Brasil.; participa da antologia “TOC140 – poesias do twitter” (2011)

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