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O beijo do pai e a falta de inteligência ética

9 de setembro de 2009 | Publicado na Categoria Educação | 8 Comentários »

Um pai beija uma filha. Um gesto de carinho. Eu mesmo sempre beijei tanto meu pai como minha mãe.

As otoridades acham errado. Prendem o pai em território estrangeiro. Agora ele está no hospital. A filha sente-se culpada por tudo o que está acontecendo.

<ironia>Certamente, as otoridades estão protegendo a criança, agora muito menos traumatizada.</ironia>

Devem estar orgulhosas do bom serviço prestado à moral, aos bons costumes e à lei.

Isso lembra muito uma história que reproduzi aqui no blog e ilustra bem a falta de inteligência ética daqueles que supostamente são responsáveis pela nossa segurança:

É uma história sobre limonada. Um pai e seu filho de sete anos estavam assistindo um jogo dos Detroit Tigers no estádio. O filho pediu uma limonada ao pai e o pai foi ao quiosque comprá-la.

No quiosque eles só tinham a “Limonada Forte do Mike”. Que tem 5% de álcool. O pai, sendo um professor universitário, não tinha a menor ideia de que a “Limonada Forte do Mike” continha álcool. Portanto ele a comprou e trouxe ao filho.

O garoto estava tomando-a quando um guarda o viu. E chamou a polícia. Que chamou uma ambulância, que correu até o estádio. E carregou o garoto para o hospital. Na sala de emergência constatou-se que o garoto não tinha álcool no sangue.

Ufs, fez o pai. Que bom! E eles estavam prontos para liberar o garoto. Mas não tão rápido. O Serviço de Proteção ao Bem-Estar Infantil do Condado de Waine disse “não”. E a criança foi enviada a uma família que acolhe crianças com problemas por três dias. Neste ponto, será que a criança poderia ir para casa?

Bom, um juiz disse que sim, mas somente se o pai deixasse a casa e fosse para um hotel. Após duas semanas, fico contente de lhes contar, a família foi reunida. Mas os assistentes sociais e o pessoal da ambulância e o juiz, todos disseram a mesma coisa:

- Nós detestamos fazer estas coisas, mas precisamos seguir as regras.

Veja a palestra completa e o final desta história neste vídeo:

Finalmente, a conclusão é a seguinte:

A habilidade ética acaba sendo desgastada pela confiança excessiva em regras, que nos privam da oportunidade de improvisar e aprender com nossas improvisações. E aí, a vontade moral é minada por um apelo incessante a incentivos que destroem a nossa vontade de fazer as coisas corretamente.

E sem intenção que isto ocorra, ao apelar para regras e incentivos, nós estamos nos engajando numa guerra contra a sabedoria.

As pessoas deixam de fazer coisas boas porque basicamente elas são boas e coisas ruins porque basicamente elas são ruins. Fazem coisas boas para conseguir recompensas e deixam de fazer coisas ruins para não serem punidas.

Basicamente, o que quero dizer é que o que está acontecendo nessa história é o contrário da inteligência e o contrário da sabedoria que você e eu sabemos o que são.

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8 Comentários para “O beijo do pai e a falta de inteligência ética”

  1. Eu vi o começo dessa história num programa chamado “Domingo Espetacular”. É, pois é… mas enfim, eu já comecei a ter medo. A menção aos beijos eu já achei que era exagero, e não entendi o que estavam chamando de “gestos libidinosos”, pela imagem das câmeras não deu pra sacar nada. Mas o estrago já estava feito, o rumor já foi solto.

    Agora ele está no hospital, a causa é aparentemente linchamento. O medo agora é certo. Se havia dúvida se essa menina estaria traumatizada pelo “abuso”, bem, agora é de certeza.

    Mas o pior é que não importa mais nenhuma apuração ou retratação, o estrago já foi feito: a história chegou ao povo e a justiça popular é cruel e o veredito é rápido, mesmo quando errado. Está difícil ver um final feliz nessa história…

  2. marilena sousa dos reis - 10 9 2009 às 7:51

    hoje em dia as pessoas preoucupam com as relações entre pais e filhos, quando agem com carinho claro, e não vê o que os “colarins ” de brasília fazem, com o$ público, fora outras coisas erradas, vamos lá gente, abram suas mentes para a realidade, os pais não são iguais, não agem iguais, cada nível tem sua forma de educar os filhos, agir com eles. abraços, essa é minha opinião.

  3. Carla Martins - 10 9 2009 às 10:02

    Gente, que absurdo, né?

    Vai prender ladrão ao invés de ficar se metendo na família dos outros. Afe!

  4. MARISTELA SOUSA DOS REIS - 10 9 2009 às 10:16

    Eu acredito na inocencia das pessoas ate que prove o contrario, porque a justica nao faça um exame pra saber se a crianca, foi ou nao foi tocada ou abusada antes de acusar uma pessoa e coloca-la em alvo perigoso e que pode morrer numa cadeia sendo linchada?

    Não gostei do que li, dou selinhos na minha boneca e nao vejo nada de errado nisso, porem de onde eu vim é bem diferente o pensamento das pessoas; nao poderia fazer o que faço, mas vivo numa sociedade que se eu nao ter intimidades com a minha filha, os outros de fora teram e eu prefiro ser a mais transparente possivel com ela.

    De onde eu vim, é o mesmo raciocinio de pensamento que este casal que denunciou tem e de mente fechada.

    Gostaria de deixar bem claro que nem um pedofelo faz algo a luz do dia, mas pessoas de mente fechada estraga o mundo e nossa sociedade. Porque nao vai cuidar da sua propria historia e deixe o casal em paz, mas o estrago foi feito e agora estao marcados pelo resto de suas vidas, isso sim pode ser o começo de uma desgraça na familia Italiana, tenho pena dessa familia..

  5. Helana Gurgel - 12 9 2009 às 10:23

    Alessandro,

    Moro em Fortaleza e acompanhei o caso no noticiário local, o qual deu bem mais destaque do que a imprensa nacional. Acho que você poderia rever a frase “as otoridades acharam errado”, pois, na verdade, quem achou errado a atitude do pai foi um casal de turistas de brasília, que fez a denúncia à Polícia.

    O Delegado cumpriu apenas o seu dever de apurar o caso. A prisão se deu em razão de ele ter considerado flagrante (que depois a juíza do caso desconsiderou, tendo em vista que a prisão se realizou mais de duas horas depois do fato), mas acredito que principalmente pelo fato de ele ser estrangeiro, sem domicílio fixo no país (aumentando as chances de evasão).

    O inquérito foi célere, finalizado em nove dias (a autoridade policial dispõe de 10 dias, podendo ainda ser prorrogado esse período).

    Quando um Delegado recebe uma queixa, tem o dever de investigá-la. Neste caso em específico, o Delegado disse que o testemunho do casal de turistas brasilienses foi muito veemente. Eu mesma vi na TV uma entrevista com uma das testemunhas e ela falava com uma certeza muito grande que aqueles gestos “não eram de pai e filha, mas de marido e mulher”.

    Quando uma autoridade policial recepciona um testemunho de um suposto crime, uma das coisas que ele analisa é justamente a qualidade do depoimento (se a pessoa titubeia, se não descreve o fato com acuidade, etc) e, nesse caso, eu vi na TV que a testemunha (a mulher brasiliense) falava de maneira muito contundente, afirmando que haviam atos libidinosos, além dos selinhos.

    Neste momento, deve o delegado agir em prol da sociedade e não do investigado (observando no que der a presunção de inocência, claro). O problema foi que a imprensa fez um circo, por se tratar de estrangeiro, principalmente. Em nenhum momento, a polícia agiu com abuso, mas sim com precaução. A criança precisava, sim, passar por uma avaliação por psicólogos e assistentes sociais, pois o que se sobrepõe é a proteção da infância em detrimento de qualquer outro direito.

    Inclusive, o italiano já teve a prisão relaxada e o MP já informou que vai pedir arquivamento do caso. Aliás, ressalte-se que ontem o italiano já retornava ao seu país e deu uma entrevista pelo telefone. Quando perguntado se ele poderia repensar as atitudes que tinha com a filha, ele mesmo respondeu “sim, isso poderá ser feito”.

    Lembre-se que existe muita discussão entre os especialistas sobre essa conduta do selinho, tendo em vista que a boca é uma zona erógena, não há consenso entre os psicólogos do que poderia ser permitido ou não.

    Acho que o tom jocoso que você utilizou em “otoridade” poderia ser repensado, Alessandro. É muito fácil culpar as “otoridades”, quando a culpa é da sociedade (lembre-se que a queixa partiu de turistas brasilienses que freqüentavam a barraca, os funcionários da barraca de praia testemunharam em favor do italiano). O delegado cumpriu seu dever e, repito, sem abusos.

    Quanto a comparação com o caso da limonada, acho que não pertine ao caso, até porque a realidade e leis brasileiras são diferentes das norte-americanas (que muitas vezes é burrocrata). Achei que a comparação não foi adequada, o problema não foi da autoridade, mas da sociedade.

    Gosto bastante do seu blog (leio sempre) e a crítica não é pessoal. Não defendo política criminal de tolerância zero, acho que houve exagero (DA IMPRENSA) sobre o caso, bem como dos turistas que testemunharam o evento. Um grande abraço para você!

  6. Alessandro Martins - 12 9 2009 às 10:38

    Helena,

    estou certo de que as autoridades estão agindo com o mesmo vigor e zelo acerca das denúncias de prostituição de menores, feitas por turistas brasilienses ou não.

    Quanto à culpa ser da sociedade, concordo. De fato, as autoridades e a ação das autoridades é um reflexo maio ou menos fiel daquilo que a sociedade, na qual me incluo, espera delas.

    Abraços!

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