O beijo do pai, as autoridades e a sociedade

A leitora Helena Gurgel enviou o seguinte comentário ao post O Beijo do Pai e a Falta de Inteligência Ética, a respeito do suposto assédio do pai à filha pequena em Fortaleza. Peço a sua apreciação:

Alessandro,

Moro em Fortaleza e acompanhei o caso no noticiário local, que deu bem mais destaque do que a imprensa nacional. Acho que você poderia rever a frase “as otoridades acharam errado”, pois, na verdade, quem achou errado a atitude do pai foi um casal de turistas de Brasília, que fez a denúncia à Polícia.

O delegado cumpriu apenas o seu dever de apurar o caso. A prisão se deu em razão de ele ter considerado flagrante (que depois a juíza do caso desconsiderou, tendo em vista que a prisão se realizou mais de duas horas depois do fato), mas acredito que principalmente pelo fato de ele ser estrangeiro, sem domicílio fixo no país (aumentando as chances de evasão).

O inquérito foi célere, finalizado em nove dias (a autoridade policial dispõe de 10 dias, podendo ainda ser prorrogado esse período).

Quando um delegado recebe uma queixa, tem o dever de investigá-la. Neste caso específico, o delegado disse que o testemunho do casal de turistas brasilienses foi muito veemente. Eu mesma vi na TV uma entrevista com uma das testemunhas e ela falava com uma certeza muito grande que aqueles gestos “não eram de pai e filha, mas de marido e mulher”.

Quando uma autoridade policial recepciona um testemunho de um suposto crime, uma das coisas que ele analisa é justamente a qualidade do depoimento (se a pessoa titubeia, se não descreve o fato com acuidade, etc) e, nesse caso, eu vi na TV que a testemunha (a mulher brasiliense) falava de maneira muito contundente, afirmando que havia atos libidinosos, além dos selinhos.

Neste momento, deve o delegado agir em prol da sociedade e não do investigado (observando no que der a presunção de inocência, claro). O problema foi que a imprensa fez um circo, por se tratar de estrangeiro, principalmente. Em nenhum momento, a polícia agiu com abuso, mas sim com precaução. A criança precisava, sim, passar por uma avaliação por psicólogos e assistentes sociais, pois o que se sobrepõe é a proteção da infância em detrimento de qualquer outro direito.

Inclusive, o italiano já teve a prisão relaxada e o Ministério Público já informou que vai pedir arquivamento do caso. Aliás, ressalte-se que ontem o italiano já retornava ao seu país e deu uma entrevista pelo telefone. Quando perguntado se ele poderia repensar as atitudes que tinha com a filha, ele mesmo respondeu “sim, isso poderá ser feito”.

Lembre-se que existe muita discussão entre os especialistas sobre essa conduta do selinho, tendo em vista que a boca é uma zona erógena, não há consenso entre os psicólogos do que poderia ser permitido ou não.

Acho que o tom jocoso que você utilizou em “otoridade” poderia ser repensado, Alessandro. É muito fácil culpar as “otoridades”, quando a culpa é da sociedade (lembre-se que a queixa partiu de turistas brasilienses que freqüentavam a barraca, os funcionários da barraca de praia testemunharam em favor do italiano). O delegado cumpriu seu dever e, repito, sem abusos.

Quanto a comparação com o caso da limonada (nota do editor: para saber qual é o caso da limonada, leia o post que originou o comentário), acho que não diz respeito ao caso, até porque a realidade e as leis brasileiras são diferentes das norte-americanas (que muitas vezes é burrocrata). Achei que a comparação não foi adequada, o problema não foi da autoridade, mas da sociedade.

Gosto bastante do seu blog (leio sempre) e a crítica não é pessoal. Não defendo política criminal de tolerância zero, acho que houve exagero (DA IMPRENSA) sobre o caso, bem como dos turistas que testemunharam o evento.

E você? O que acha?

Postado em Educação.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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