O amor – o verdadeiro amor – pela cidade

detroit

O amor por uma cidade – aquela em que se nasceu ou em que se criou -, o amor pela terra natal é algo muito mais complexo, simples, completo, terno e decepcionante que querem nos fazer crer os inventores dos amores oficiais.

A ponto de ser rejeitado onde os amores oficiais imperam e ser comum a resposta com o discurso do ódio a qualquer manifestação de decepção.

A decepção pode fazer parte de um amor, pois quem ama com ímpeto e dedicação é capaz de amar mesmo com elas, as decepções. Mas elas, as decepções, não são aceitas pelos amores oficiais.

Falo de uma cidade, mas poderia falar de um país.

Toco nesse assunto porque recentemente, lendo o livro Desperta e Lê, de Fernando Savater, lembrei de longas e saudosas conversas que tinha com meu amigo Paulo e algumas delas tratavam do tema Curitiba.

Falo de Curitiba, mas poderia falar de qualquer outra cidade.

Acontece que aqui existe uma tendência aos extremos no que se refere a ela, a cidade.

Os que a idolatram, com o amor oficial que a tudo cega, tendem a rechaçar os que a odeiam.

Os que a odeiam com o ódio oficial, que também a tudo obscurece, tendem a desdenhar aqueles que a idolatram.

Os que a amam ficam no meio e, quando apontam uma decepção ou então apontam algo mimoso, são rechaçados pelos primeiros e desdenhados pelos segundos respectivamente. Fogo cruzado.

Isso é desnecessário. Os extremos são coisas inventadas. Os extremos costumam ser úteis só às lanças, essas armas fora de moda. Na vida das pessoas, são o que pode ser chamado de mentiras.

Mas volto ao trecho de Savater que me despertou para essas conversas já um tanto antigas e, no entanto, claras na memória.

Ele fala de um quadro de Vermeer. Nele, o pintor holandês retrata a cidade em que nasceu, Delft.

Seria ridiculamente pretensioso de minha parte (…) oferecer uma nova chave conjectural da tranqüila maravilha que nos fascina nessa tela. Certas coisas é preciso ver. E basta vê-las. Apesar de que, se algum amável impertinente me perguntar, sussurrarei que Vermeer soube pintar a terra natal. Não simplesmente sua terra natal, mas a emoção da terra natal em si mesma, a dele, a minha, a de todos. O cenário da infância, o rincão insubstituível em que a vida se manifestou para nós. Algo simples, terrível como a fatalidade, feito de gozo, de rotina e de lágrimas.

Veja a pintura de que ele fala:

E, pouco mais adiante, está onde quero chegar: a apreensão relativa ao comportamento que se testemunha nos amores e ódios oficiais, que tentei expressar em palavras, e creio que o meu amigo também em um ou dois artigos. Mas Savater só precisou da observação atenta a um quadro e de alguns parágrafos.

A habilidade do artista não se contenta em reproduzir uma paisagem, mas o suave carinho que sua contemplação desperta em nós (…). E essa emoção nada tem a ver com as contendas políticas nem com o orgulho pratiótico. O ruim do nacionalismo – uma das coisas ruins, porque ele tem muitas – é que ele transforma a melancólica afeição pela terra natal em justificação de um projeto institucional que não sabe se justificar de outro modo. Quer degradar uma forma de amor a documento nacional de identidade.

Não digo que a coisa chegue a tal ponto por aqui ou em outras cidades. Savater porém continua.

Pior ainda: a visão nacionalista não aceita a terra natal tal como ela é, em sua limitação e sua impureza reais, mas exige seu referendo a partir de um ideal passado ou futuro que extirpe dela o que não se ajusta ao plano preconcebido. O nacionalista não vê nem ama o que há, mas calcula o que sobra ou o que falta ao que de fato existe.

Creio que minha apreensão – que antes eu tinha e que hoje, confesso, nem me preocupa mais -, derivava de imaginar que minha cidade pudesse sequer se tornar terreno fértil para qualquer projeto do gênero. Exagero meu, meu caro.

Posso amar andar no calçadão da Rua 15 de Novembro e ao mesmo tempo falar mal daquilo que foi permitido que o comércio dali se tornasse sem que, para isso, precise abandonar a cidade.

Posso passar em frente do Savoy, onde meu pai me levava para tomar sorvete de chocolate naqueles que são os momentos mais mágicos da minha infância, e suspirar um pouco chateado. Pois as pessoas ali em torno talvez jamais compreendam isso. Mas sem desejar que, por tal motivo – tão individual – elas saiam dali.

Falo de amor, mas poderia falar de qualquer outro sentimento nobre.




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