O acesso ao processo criativo
9 de novembro de 2009 | Publicado na Categoria Artes, design e arquitetura | 2 Comentários »Lembro certa vez ter ouvido Tom Jobim dizer que sentia como se Águas de Março não tivessem sido feitas por ele, como se só tivesse captado aquela melodia e aquela letra de algum lugar. Ele é um de nossos maiores artistas e acho que ele não falou isso apenas por modéstia.
No vídeo a seguir, compartilhado por minha amiga Lara Mota Pinto, lá do Porto, vemos a escritora Elizabeth Gilbert falar sobre como encara o processo criativo. E, da maneira como ela o vê, o peso da criação é retirado um tanto dos ombros do artista.
Ela fala, entre outras coisas, dos “daemons” ou “gênios” dos gregos antigos, entidades que então eram consideradas as verdadeiras responsáveis pela obra artística.
Claro que se trata-se apenas de uma metáfora. Eu também não sou místico ou crente a ponto de acreditar em fadinhas, deuses ou outras entidades mágicas que nos ajudam a escrever, pintar ou esculpir coisas. Cada época tem seus recursos para entender e explicar determinados fenômenos, como o raio e o trovão ou mesmo a criatividade humana.
Porém, sinto que qualquer um que desenvolva uma atividade criativa, em determinado momento acessa um tipo de fonte que o conecta com seu tempo e com seus semelhantes, desta e de outras épocas. E, talvez seja ilusão crer que, para isso, os veículos do pensamento e do raciocínio são suficientes. Entendo que, nessas horas, o sujeito muda a frequência do seu rádio dos kilohertz para os megahertz.
Falando em outro nível, para facilitar a compreensão do que estou explicando: entender a criatividade como um processo meramente mental, a meu ver, é como acreditar que a resolução de uma equação do segundo grau depende apenas de flexões abdominais.
Ao acessar tais fontes, o artista mais e mais consegue estabelecer um diálogo com ela. Como amigos que, no início, são meio calados e trocam poucas palavras porque se conhecem pouco ainda, embora queiram se conhecer. E que, depois de árdua dedicação a esse relacionamento, às técnicas de diálogo, conversam facilmente e, finalmente, não se sentem desconfortáveis mesmo durante longos silêncios.
No entanto, esse acesso não é privilégio dos que se dizem artistas – e muitos apenas se dizem. Qualquer um de nós pode e tem direito a isso. Basta querer, permitir-se a esse direito e estreitar os laços com o processo criativo, na medida do interesse.

Sabe que o computador foi (sem querer) um grande prejuízo nos estudos dos processos criativos? Antes dele, tínhamos muitas páginas manuscritas e datilografadas, onde era possível ver a maneira do autor trabalhar, os trechos mais reescritos, as primeiras versões, as mudanças graduais no texto. Hoje em dia, graças ao cursos e crtl+c crtl+v, quase só imprimimos a versão acabada…
Verdade, caminhante. Um interessante ponto de vista o seu.
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Alessandro, uma dica de “leitura” – Having a Poem, Skinner. Ele pode ser ouvido neste link: http://folk.uio.no/roffe/files/Having_a_Poem.mp3
um abraço