A transição entre entre tecnologias pode causar perdas preciosas de informação. Creio que os biblioteconomistas – sei que muitos de vocês lêem este blog – precisam ficar atentos a isto a fim de bolarem metodologias para melhor conservação de dados.
Leia este trecho de um capítulo de O Relógio do Longo Agora, de Stewart Brand e perceba a curiosa situação que o avanço tecnológico proporcionou:
Danny Hillis observa que as épocas passadas nos deixaram informações em estado bruto gravadas em argila, pedra, pergaminho e papel, mas da década de 1950 até o presente as informações registradas vêm desaparecendo progressivamente num abismo digital. Os historiadores considerarão esta época uma época sombria. “Por exemplo”, lembra Hillis, “quando finalmente desativaram o velho PDP-10 [pioneiro dos microcomputadores] no Laboratório de Inteligência Artificial no MIT, não havia onde guardar os arquivos a não ser em fitas magnéticas que hoje são ilegíveis. Perdemos, então, o primeiro editor de texto, os primeiros programas de linguagem e imagem do mundo, junto com a correspondência mantida entre os criadores da inteligência artificial.” Os historiadores de ciência podem ler a correspondência técnica de Galileu, de 1590, mas não a de Marvin Minsky, da década de 1960.
Considerando que a transição do meio físico para o meio magnético foi apenas uma das transições possíveis – não se sabe o que nos reserva o futuro -, talvez seja importante haver métodos ou normas que garantam a conservação dos dados não importa qual o meio de armazenagem. Ao mesmo tempo, é necessário pensar em maneiras de recuperar dados não importa a linguagem em que foram escritos, a cem, duzentos ou mil anos. Não importa qual a linguagem da época em que o dado se originou e a linguagem usada então.
Os arquivistas digitais, portanto, estão associados a uma antiga linhagem de copistas e tradutores, que inclui desde os estudiosos da Biblioteca de Alexandria, na era helenística, até os escribas dos mosteiros europeus. O processo, tanto naquela época como agora, pode levar à introdução de erros e “correções” espúrias, provocando a perda do equivalente a volumes de Aristóteles. Mesmo assim, essa prática também lança pontes sobre eras de línguas diferentes, do grego ao latim, do inglês ao que vem por aí. Para diminuir nossos temores a respeito da descontinuidade digital – termos certeza de que nosso futuro permanecerá conectado ao nosso passado, de que a idade das trevas digital está chegando ao fim -, precisaremos de uma estrutura para um sistema universal de tradução.









