A gente lia O Cortiço. E daí?

Para quem não leu o post anterior, o Governo de Santa Catarina adquiriu 130 mil exemplares do livro Aventuras Provisórias, de Cristóvão Tezza, para usar no currículo de suas escolas, mas voltou atrás pois o livro teria pelo menos um trecho considerado pouco pudico.

A Simone Campos, em seu comentário, lembrou muito bem do livro O Cortiço, de Aluisio Azevedo, que fazia parte do currículo de muitas escolas.

Eu mesmo tive de lê-lo:

O Cortiço foi leitura obrigatória no segundo ano do meu Ensino Médio. Os professores até ficam felizes, porque sabem que os alunos finalmente vão ler o livro todo, afinal, ele é coalhado de sacanagens… você vê os meninos se cutucando e perguntando se os outros já chegaram na cena lésbica. É raro ver tanto entusiasmo pela literatura.

Quanto a mim, fiquei meio chocada, mas entendi a função das cenas no romance, especialmente com a explicação do professor sobre o naturalismo e os nomes das personagens.

Na mesma época (aliás, durante essa aula), eu li Lolita — e achei bem melhor que “O cortiço”, porque se preocupava menos em chocar do que mostrar a complexidade da situação de Humbert.

A educação sexual costuma ser ministrada na 6a série; no Ensino Médio, certamente alguma aluna já deve ter aparecido grávida; o Tezza escreve bem; então por que a hipocrisia?

Proíbam os livros mesmo, digam que é “perigoso”, que aí todo mundo vai correndo ler. É melhor acreditar que tudo isso se trata de uma estratégia inteligente pra estimular a leitura no Brasil…

E olha que isso de ler O Cortiço, pelo menos para mim, foi no começo da década de 1990, uma época em que as mulheres ainda usavam anágua, não deixavam a canela aparecer, e os homens não saíam de casa sem chapéu.

Bons e puritanos tempos.

Sou de opinião similar: tal cancelamento da compra dos livros é, antes de tudo, uma grande propaganda. Tudo o que é proibido gera mais interesse. Quanto mais se bate em um sino, mais ele chama a atenção para si.

No fundo, foi bom para o Tezza.

Postado em Educação.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

Deixe seu comentário