Ninguém se banha no mesmo livro duas vezes

Eu pensava sobre como é interessante reler um livro e como, realmente, passado algum tempo, percebe-se que trata-se de um outro livro. Não foram as palavras ali dispostas que mudaram, mas você.

No último post, eu me referi a um trecho em que o escritor argentino Jorge Luis Borges dizia algo sobre isso.

Na ocasião (ou seja, dez minutos atrás), acabei por divagar, mas finalmente encontrei o que procurava:

Heráclito disse (demasiadas vezes o tenho repetido) que ninguém se banha duas vezes nas mesmas águas de um rio. Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio porque as águas mudam, mas o que é mais terrível é que nós não somos menos fluidos do que o rio. De cada vez que lemos um livro, o livro não é o mesmo, a conotação das palavras é outra. Além disso, os livros estão carregados de passado.

(…)

Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito.

Reler um livro, assim, não é uma forma de recordar o passado. Quando releio um livro, portanto, não estou tentando reviver a história que um dia li. Mas, talvez inconscientemente, tento medir como estou em relação àquele que um dia fui enquanto lia o mesmo livro. Se progredi, se regredi, para onde minhas águas correram.

Reler um livro é, em verdade, reler-se.

Postado em Minhas leituras.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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