Ninguém se banha no mesmo livro duas vezes
20 de fevereiro de 2009 | Publicado na Categoria Trechos de livros comentados | 15 Comentários »Eu pensava sobre como é interessante reler um livro e como, realmente, passado algum tempo, percebe-se que trata-se de um outro livro. Não foram as palavras ali dispostas que mudaram, mas você.
No último post, eu me referi a um trecho em que o escritor argentino Jorge Luis Borges dizia algo sobre isso.
Na ocasião (ou seja, dez minutos atrás), acabei por divagar, mas finalmente encontrei o que procurava:
Heráclito disse (demasiadas vezes o tenho repetido) que ninguém se banha duas vezes nas mesmas águas de um rio. Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio porque as águas mudam, mas o que é mais terrível é que nós não somos menos fluidos do que o rio. De cada vez que lemos um livro, o livro não é o mesmo, a conotação das palavras é outra. Além disso, os livros estão carregados de passado.
(…)
Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito.
Reler um livro, assim, não é uma forma de recordar o passado. Quando releio um livro, portanto, não estou tentando reviver a história que um dia li. Mas, talvez inconscientemente, tento medir como estou em relação àquele que um dia fui enquanto lia o mesmo livro. Se progredi, se regredi, para onde minhas águas correram.
Reler um livro é, em verdade, reler-se.

Nossa, que profundo esse assunto de reler livros, infelizmente esse é um hábito que eu não tenho, porque existem tantos livros a serem lidos… Existe um do Aldous Haxley que eu gostaria de reler (Admirável Mundo Novo), pois a história é simplesmente fantástica, mas não tenho como pega-lo e ler
porque tem outros a serem lidos e compreendidos, existem uma infinidade de livros maravilhosos a serem descobertos, que podem tirar mais e mais vendas dos meus olhos e me fazer enxergar melhor.
Será que eu estou errada?, me questiono agora…
Achei fantástico esse assunto sobre reler livros. Atualmente eu leio vários por mês. Todos os dias eu lembro de várias “cenas”dos antigos livros e tento lembrar a história, o nome e autor e quase sempre eu lembro um pouco da história. Eu já comprei um montão de livros para ler e sei que não lerei os antigos tão cedo, mas tenho saudade dos personagens. Já li trilogias só para rever os personagens em outras histórias, mas não é o mesmo que reler os livros.
Elizabeth,
sugiro que, de vez em quando, releia seus livros favoritos. Verá que são novos livros.
Abraços do Alessandro.
Olyvia,
como eu disse à Elizabeth, sugiro que, de vez em quando, releia os velhos livros favoritos. Verá que eles se renovaram.
Abraços do Alessandro.
Alessandro:
Acabei de comprar “A Buxinha Atrapalhada” de Eva Furnari. Surpresa! O livro ficou menor e muito menos interessante do que era na minha imaginação.
Sabe, reli 100 anos de Solidão e não gostei. Então talvez não seja tão bom reler. Se a lembrança do livro foi boa, melhor guardá-la assim. A não ser que goste de deixar tudo em pratos limpos.
Os únicos livros que gosto de reler são os de crônicas. As histórias são sempre frescas, não importam a datas em que foram escritas.
Alessandro:
Adorei o novo visual. Parabéns!
Eva Furnari! Taí uma autora que marcou a minha infância e voltar a ela seria me reler quase uma vida inteira depois!
Nelson Rodrigues dizia que devíamos ler pouco e reler muito. Outro dia o Rogério Pereira do Rascunho me contou que todo ano relê “Um copo de cólera”, do Raduan Nassar. Grande livro pra ser relido e, sobretudo, para reler-se. Acho que o meu é Rayuela, mas já percorri as cidades invisíveis de Calvino tantas vezes que quase poderia desenhar um mapa de memória – não fosse o fato de cada viagem ter sido diferente.
Vou confesar que nunca tive muita paciência para reler. Mas é uma boa, principalmente para rever aqueles detalhes que passam na primeira leitura.
O problemas é que eu sou preguiso para segundas leituras. Fico pensando que poderia estar lendo outro. E isso não ajuda muito.
É engraçado. Esta semana fiz um post sobre “O Livro da Minha Vida”. E cada vez que o leio, tenho novas impressões. E cada vez mais a certeza de que ele é o livro que mais combina comigo.
Beijos e sucesso!!!
Com certeza verdadeiro, mudamos o tempo todo, logo um livro que teve grande significado para nós há algum tempo, pode parecer menor que nossas expectativas ao relê-lo.
Como ainda existem infinitos livros a serem lidos dou prioridade a eles, mas não resisto ao Pequeno Príncipe, que em cada fase da vida muda completamente, mas continuo amando o que pressupõe que a minha essência permanece…
Concordo com tudo o que você escreveu! Eu não gosto muito de reler livros justamente por causa dessa sensação… prefiro guardar o que senti quando li pela primeira vez. Eventualmente, se sinto saudade dos personagens ou se gostei muito, mas muito mesmo da história, releio trechos aleatoriamente pra ‘matar’ essa saudade. Parece loucura, mas quem é apaixonado por livros sabe como funciona isso de saudade das histórias! :)
Parece-me uma regra sem exceção ninguém banhar-se no mesmo livro duas vezes, porque aqueles que correriam esse risco estariam parados no tempo e a inércia temporal não combina com leituras e muito menos com releituras.
A releitura sempre é deliciosamente reveladora, para o “bem” ou para o “mal”; de duas uma, ou aprofundamos e descobrimos outros conteúdos e paixões (não estamos parados no tempo!) ou constatamos a limitação da obra nessa releitura em nosso tempo presente, que é a única morada do ser (não estamos parados no tempo!).
Muito legal isso, na primeira vez que li A Metamorfose do Kafka eu tinha 14 anos. Recentemente eu li novamente e parecia mesmo outro livro, mais claro e mais fácil de enxergar.