O humorista Jerry Seinfeld já disse que o boxe não faz muito sentido. Os caras começam a brigar sem um motivo. Teria muito mais lógica se eles dirigissem seus carros em torno do ringue, trombassem e só então começassem a trocar socos.
Mas isso é humor.
Na verdade, acho o boxe muito mais civilizado que o trânsito, por exemplo. Nenhum dos dois sobre a lona está ali obrigado. Há regras, árbitros, médicos, garotas com pouca roupa para segurar os cartazes com os números dos rounds e ninguém perder a conta. E, no caso do pugilismo, o intercâmbio de murros é algo até mesmo eticamente esperado.
No trânsito, você está sujeito – mesmo sem desejar isso com ardor – a xingamentos ou até a agressões físicas por coisas tão ofensivas como demorar um pouco mais para arrancar quando o semáforo fica verde.
Toda essa enrolação sobre boxe e trânsito é pra dizer que acabei de receber pelo correio – adoro comprar livros pela internet porque você não enfrenta a ansiedade das prateleiras e além disso recebe em casa, como se fosse um presente – quatro livros do jornalista Hunter S. Thompson, todos editados pela Conrad Editora.
Uma coisa que me deixa triste em relação a Thompson – retratado por Johnny Deep no filme Medo e Delírio em Las Vegas – é a excessiva valorização às quantidades nababescas de drogas por ele consumidas, como se isso tivesse sido importante para seu modo de fazer jornalismo ou para o fato de ter dado um tiro na cabeça enquanto conversava com a mulher ao telefone.
Mas isso é algo para ser conversado em outra hora.
Um dos quatro livros, A Grande Caçada aos Tubarões, traz o texto em que ele conta como conseguiu uma entrevista exclusiva com Muhammad Ali. Quase todas as matérias de Thompson eram sobre isso: como ele conseguiu fazer a matéria. Ele fazia de si o principal personagem de suas reportagens e é isso que o torna tão interessante, justamente porque ainda assim ele consegue dar ao leitor todas as informações importantes sem entediá-lo.
Mas o assunto é Ali. Ou Cassius Clay, seu nome antes de se converter ao islamismo. Ou como queiram.
Depois que eu parar, o boxe voltará a não ser coisa alguma. Os fãs, com seus charutos e seus chapéus abaixados, estarão lá, mas não haverá mais esposas nem homenzinhos nas ruas ou presidentes estrangeiros. Voltemos àquilo do lutador que vem para a cidade, cheira uma flor, visita um hospital, toca uma corneta e diz que está em forma. A velha história. Eu fui o único boxeador da história a quem as pessoas faziam perguntas como se eu fosse um senador.
A declaração dada por Ali em 1967, cheia de verdade, e usada por Thompson como epígrafe de sua reportagem, só demonstra que nunca na história a eloqüência andou tão de mãos dadas com a força bruta e a excelência desportiva.
Não fosse ele ter ganho o título mundial de Sonny Liston, em uma luta de sete assaltos, em 1964, seria considerado até hoje o maior falastrão da história e teria ficado por isso mesmo. Mas depois disso, quando tornou-se campeão pela primeira vez, aos 22 anos, as vitórias seguidas só vinham a confirmar o tagarelar quase profético de Ali, enquanto ele adivinhava até mesmo em que round seus adversários iriam cair.
Tudo na carreira dele é muito cinematográfico.
Na primeira luta com Liston – em que consagrou sua técnica com a guarda baixa aliada a esquivas privilegiadas para um peso pesado -, no quarto assalto, ele foi cegado por alguma substância que pode ter saído das luvas do adversário e teve que recuperar a visão aos poucos nos assaltos seguintes. No sétimo assalto, Liston – um sujeito considerado tão mau no ringue que até a mãe de Mike Tyson poderia ficar contrariada de seu filho andar com ele – desistiu alegando um ombro machucado. Sua cara parecia um bife de rodoviária e a de Ali estava ainda imaculada.
Os elementos trágicos e heróicos do boxe jamais serão transmitidos com suficiente dignidade pela tevê. Talvez pelo cinema, mas ainda assim, creio serão pobres. Basta ver o que diz Thompson em seu livro:
Nenhuma câmara de tevê ou de qualquer outro tipo jamais conseguirá transmitir precisamente a sensação quase quadrimensional de violência total e frenética que alguém sente ao ver, ouvir e quase sentir a repentina PANCADA do punho finamente acolchoado de Leon Spinks contra o osso da face de Muhammad Ali tão na frente da sua própria cara que é difícil não se encolher e tentar se esquivar.
Ali foi o único cara no mundo a lutar nove rounds de um combate que durou dez com a mandíbula quebrada. Mas isso foi em 1973, contra Ken Norton, combate que perdeu.
Aquela história de 1964 não estava bem contada. Afinal, se Liston estava com o ombro machucado e sobreviveu, bem que poderia dar conta de Ali em uma nova luta em 1965.
Logo no primeiro round, Ali acertou um soco fraco, quase sem querer e que, na hora, quase ninguém viu. Um murro tão débil que ninguém acreditou que poderia ter causado alguma coisa. O episódio ficou conhecido como The Phantom Punch, aqui registrado em vídeo, e até hoje tem gente que duvida da validade da luta, achando que Liston estava devendo para a máfia ou algo assim, como é o caso do editor da revista New Yorker, David Remnick, em seu livro O Rei do Mundo.
O fato é que, mais uma vez, a coisa tinha rendido história. E boas fotografias. Uma de Neil Leifer, por exemplo, e a minha prerida, da qual não consegui descobrir a autoria infelizmente. Talvez também seja de Leifer também.
Nas duas, Ali chama o adversário de volta à luta, mas, na segunda, com o braço abaixado, encarna com maior força o papel de semi-divindade impávida e inatingível que lhe cabe até hoje, mesmo quando, trêmulo, sob o efeito da síndrome parksoniana – não confundir com a Doença de Parkinson – acendeu a tocha olímpica em Atlanta, em 1996.
Ali, além de dizer que no ringue flutuava como uma borboleta e ferroava como uma abelha, costumava afirmar que era tão rápido que desligava a luz do quarto e chegava à cama antes que o aposento escurecesse. Ele era rápido com as palavras também e isso fazia dele uma forte figura do ponto de vista político. Seu posicionamento em relação à invasão dos Estados Unidos ao Vietnã – recusou-se a se alistar, perdendo o título – faz querer saber o que ele pensa da invasão ao Iraque.
Outro momento importante, além das duas lutas contra Liston e a contra Joe Frazier – considerada a luta do século – é aquela em que enfrentou George Foreman, no Zaire, hoje Congo, recuperando seu título em 1974. Com fundo altamente político, o combate foi retratado no livro A Luta, de Norman Mailer, e no documentário Quando Éramos Reis.
Que, aliás, depois de escrever tudo isso, pretendo pegar ainda hoje na locadora para rever. É um filme que dá uma pálida idéia da dimensão desse personagem e de sua verborragia tão assustadora quanto seus golpes.
Ainda não cheguei ao final da matéria do Thompson mas já vi que, nas últimas páginas, está a entrevista propriamente dita. Vou dar mais uma olhada no livro agora.
Ah, sim! Se você tiver uns R$ 16 mil sobrando também vale a pena comprar o livro Goat, a Tribute to Muhammad Ali, com 780 páginas e 35 quilogramas. Tudo digno de um peso pesado, editado pela Taschen.









