Livros e afins

Procure no Blog

Submarino.com.br

Morte

30 de setembro de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins | 5 Comentários »

Para quem morre, a morte nunca vem tarde. E para aqueles que são próximos de quem morre também não.

Ainda que ela represente alívio às vezes, sempre chega cedo demais. Seja aos dois meses ou aos cem anos de idade.

Porém, com tecnologias que cada vez mais prolongam a vida – ou a suposta vida -, morrer vem se tornando motivo de vergonha. Morrer antes de uma certa faixa etária é quase como ter falhado. Foge-se de morrer, afastando-se do viver.

A morte vem sendo escondida sob os mesmos relatórios científicos e quartos assépticos de hospitais que servem para evitá-la. Porque temos acanhamento e medo diante dela e porque podemos. Porque sempre é cedo demais para enfrentá-la como protagonista ou como coadjuvante. E, como coadjuvantes, não tendo ela grudada em nossos couros, fugimos ritualisticamente.

A despeito do que se vê na violência dos noticiários, a morte é cada vez menos banal. A morte que se conhece é a de filme e a morte estatística que, eventualmente, provoca a revolta popular. Não a morte que você pode tocar com as mãos e que espeta os dedos no seu peito.

O único que não pode evitar o contato diário com ela é quem de fato vai morrer. No entanto, o afastamento contínuo que temos dessas pessoas à beira dela, próximas ou não de nós, nos priva de um aprendizado que há algum tempo era tão comum.

Ninguém sabe morrer.

Mas considerando o quanto era comum que pessoas condenadas o fizessem em suas próprias casas, sob seus tetos e em suas camas, ao menos – antes – se estava um pouco mais próximo desse conhecimento.

Ter a chance de conviver com alguém amado que morrerá é também ter a consciência da própria morte. Afinal, deixar a vida daqui a dez minutos ou daqui a quarenta anos sempre será algo que poderia ser adiado. Muito embora no íntimo se acredite que conosco não, é algo que acontecerá para todos.

O problema é que não se costuma lembrar disso e segue-se vivendo, adiando as coisas como se o viver fosse eterno.

Na última semana circulou na internet um vídeo de um professor condenado por um tipo incurável de câncer no pâncreas, em sua última aula.

Inspirado por ele, o Paulo Polzonoff Jr. comentou sobre o significado da proximidade da morte e o André falou sobre A Morte e o Morrer.

Considerando que uma experiência como essa é incompartilhável, não sei afirmar se ele está em negação – como diz o Paulo – ou se, em um momento de solidão, ele sinta um peso maior da situação – como diz o André. Talvez quando a debilitação causada pelo câncer lhe cobrar um preço maior – que ele não possa fazer as flexões que fez em sua aula – talvez mais de seu ânimo seja exigido.

É que o engraçado da morte é que todos morrem, mas todos morrem sozinhos. Não importa a situação. E não importa o quanto já se tenha feito – como no caso dele -, sempre restará algo a se fazer.

Creio mesmo que, se você tem um tempo específico para passar entre os seus, deve escolher a melhor maneira de passá-lo. Rindo ou chorando, você escolhe. E nesse caso, a única coisa que posso afirmar com certeza, é que até o ponto em que ele tem uma escolha ele fez uma boa opção.

O que quero dizer é que é difícil avaliar o caso desse professor. A questão não aparece mais avassaladora quando a morte está à vista no horizonte à frente: mas quando a vida já está sumindo no horizonte que ficou para trás. Quando se depende de outras pessoas para arrumar o travesseiro, para se virar na cama, para as necessidades fisiológicas básicas, para beber um copo d’água, para erguer o braço.

Aí é que está a morte de fato. Aí é que será cobrada verdadeiramente a coragem.

Estou lendo o livro Sobre a Morte e o Morrer, de Elizabeth Kubler-Ross, obra inteiramente baseada em depoimentos de pacientes terminais. Um grupo de pessoas que diferentemente do professor em sua aula, não conseguiria mais fazer flexões.

Até o ponto em que estou lendo, a autora tem algumas conclusões interessantes:

Quanto mais avançamos na ciência, mais parece que tememos e negamos a realidade da morte. Como é possível?

Recorremos aos eufemismos; fazemos com que o morto pareça adormecido; mandamos que as crianças saiam, para protegê-las da ansiedade e do tumulto reinantes na casa, isto quando o paciente tem a felicidade de morrer em seu lar; impedimos que as crianças visitem seus pais que se encontram à beira da morte nos hospitais; sustentamos discussões longas e controvertidas sobre dizer ou não a verdade ao paciente, dúvida que raramente surge quando é atendido pelo médico da família que o acompanhou desde o parto até a morte e que está a par das fraquezas e forças de cada membro da família.

(…)

O fato de nos concentrarmos em equipamentos e em pressão sangüínea não será uma tentativa desesperada de rejeitar a morte iminente, tão apavorante e incômoda, que nos faz concentrar nossas atenções nas máquinas, já que elas estão menos próximas de nós do que o rosto amargurado de outro ser humano a nos lembrar, uma vez mais, nossa falta de onipotência, nossas limitações, nossas falhas e, por último mas não menos importante, nossa própria mortalidade?

O livro se destina a médicos, mas a linguagem é clara. Ele pode e deve ser lido por qualquer pessoa que vá morrer um dia e que vá encarar a morte de alguém próximo antes disso. Um dos objetivos dele é ensinar como tornar mais fácil esse instante para pessoas com algum mal incurável.

Um dos meus avôs teve a felicidade de que a autora fala, morrendo sob o teto de um lar e próximo de alguns de seus muitos filhos. Tive a honra e a alegria de conviver diariamente com ele nesses meses. De fato, embora sofresse visivelmente, não reclamava de nada. Só tinha um medo: estar sozinho na hora.

Creio que se o professor retratado no vídeo tiver a mesma sorte, embora já não possa mais fazer suas flexões na ocasião, talvez consiga manter o mesmo ânimo até o último momento.

No mais, para as pessoas que o viram e o ouviram, aquilo tudo foi apenas palavras e a máscara da realização em vida. Realização que para ele, o protagonista da cena e do apagar das luzes, talvez signifique um grande nada depois de tudo.

Posts relacionados

Tags:, , , , , , ,

5 Comentários para “Morte”

  1. Andre - 30 9 2007 às 19:54

    Alessandro, ótimo texto sobre o assunto. A leitura desse livro que você comentou deve ser muito dura. Não é fácil lidar com isso. Lembrei logo da Morte de Ivan Ilitch, do Tolstói, que é muito importante para tratar desse tema e ainda não vi sendo mobilizado. Não lembro muito claramente e não conseguiria recuperar agora, pois já li há muito tempo, mas recordo que foi muito aflitivo para mim, na época, ver a degradação do personagem, a decadência física e mental, o abandono, a solidão. Enfim, a morte, como tudo, é sempre pessoal, mas poder contar com os outros, como seu avô contou, sem dúvida deve atenuar e trazer alguma felicidade.

  2. Anna - 30 9 2007 às 20:59

    Oi Alessandro:
    Que presente, para um dia de domingo!
    Não sabemos mesmo lidar com a morte.Ponto final.Perda é um assunto difícil e doloroso e até fazer um comentário sobre o assunto,temos restrição.Daí, a exclamação do início.
    Fala sério!Tive uma perda,que só pude lidar com
    ela,10 anos depois.E não adianta fazer brincadeira,para criar um distanciamento que não temos.O jeito é ler livros como o que vc
    citou,conversar,ler post como o seu,de Paulo Polzonoff Jr.,do André ajudam bastante.
    Gostei muito do que vcs disseram e não vi
    o video.Não hoje.
    Beijos

  3. Lady Cronopio - 2 10 2007 às 9:19

    Sem dúvida, um belo e bem escrito texto, sobre um assunto que no mais das vezes faz a gente cair no melodrama ou na dureza desnecessária.
    Aqui, Ale, você conduziu bem as palavras, sendo objetivo e terno a um só tempo.
    Li este livro há pouco, tentando fazer uma catarse de coisas que me ocorreram há tempos e que desdizem um pouco uma das suas afirmativas:
    ” O único que não pode evitar o contato diário com ela é quem de fato vai morrer”.
    Trabalhei por 14 anos como pediatra intensivista em uma UTI de grande porte, e o convívio diário com a “indesejada das gentes” levou-me a recantos da mente ainda para mim desconhecidos.
    Adoeci e tive que me afastar da especialidade.
    Hoje trabalho em emergências e ambulatórios . Ela ainda me ronda, mas com menos frequência. Sei que não posso vencê-la, mas não costumo deixar barato.
    E assim minha pendenga com a desdita um dia terá fim, mas só quando for a minha vez.
    Até lá nos olhamos através dos sofrimentos dos petizes em emergências deste mundo véio sem porteira…
    Beijos e aquela coisa toda.

  4. J@de - 2 10 2007 às 9:51

    Gosto muito do jeito que vc escreve, mas, desculpe, eu sofro de tanatofobia, não li…
    Beijos!!!

  5. _Maga - 4 10 2007 às 0:46

    Falei um pouco sobre morte (sob uma outra perspectiva) neste post:
    http://metamorfosepensante.wordpress.com/2007/07/01/o-que-e-morte/

    “”Pois bem, então morrerei.” Mais cedo do que os outros, evidentemente. Mas todos sabem que a vida não vale a pena ser vivida. No fundo, não ignorava que tanto faz morrer aos trinta ou aos setenta anos, pois, em qualquer dos casos, outros homens e outras mulhres viverão, e isso durante milhares de anos. Afinal, nada mais claro. Hoje, ou daqui a vinte anos, era sempre eu quem morria. Neste momento, o que me pertubava um pouco no meu raciocínio era essa frêmito terrível que sentia em mim ao pensar nesses vinte anos que faltavam para viver. O que tinha a fazer era sufocar esta sensação, imaginando o que seriam os meus pensamentos daqui a vinte anos, quando, apesar de tudo, chegasse a hora. A partir do momento em que se morre, é evidente que não importa como nem quando.” p. 117-118, Albert Camus, O Estrangeiro.

    “Pela primeira vez, em muito tempo, pensei em mamãe. Pareceu-me compreender por que, ao fim de uma vida, arrajara um “noivo”, porque recomeçara. Lá, também lá, ao redor daquele asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma trégua melancólica. Tão perto da morte, mamãe deve ter sentido liberada e pronta a reviver tudo. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar por ela. Também eu me senti pronto a reviver tudo.” p. 126, Albert Camus, O Estrangeiro.

    “Descobri o amor agora. E amar é a maior emoção de um homem pode sentir na vida. Não quero morrer; quero viver muito. Quero ser eterno. Pra você, que não ficou sabendo o que é amar, a morte não é uma dor, nem uma perda.” p. 38, Alcione Araújo, Urgente é a Vida

    “O certo é que vivemos adiando todo o adiável; talvez todos saibamos profundamente que somos imortais e que, tarde ou cedo, todo homem realizará todas as coisas e saberá tudo.” p. 115, Jorge Luís Borges, Ficções

    “O mais importante na vida é não ter morrido. Amo a vida, mesmo quando a odeio. Se tivesse sido consultado, não teria desejado vir ao mundo, mas, já que aqui estou, vou demorar-me tanto quanto possível. Viver é nascer lentamente. O homem procura a sua densidade, e não a sua felicidade. A consciência é uma doença. Ter um corpo é uma grande ameaça ao espírito.” Paulo Mendes Campos, Cronica: Como disso o homem, Livro: O Amor Acaba: crônicas líricas e existencialistas.

    Ótimo post do Robson:
    http://www.robsonfaggiani.com/blog/morte-e-vida-na-perspectiva-de-um-cetico/

    Memento Morri

Deixe seu Comentário

ASSINE O FEED

... ou receba meus posts por e-mail

Destaque

Arquivos por mês

Direitos autorais

Comentários recentes

Artigos recentes

Categorias