LUTO

Para quem morre, a morte nunca vem tarde. E para aqueles que são próximos de quem morre também não.

Ainda que ela represente alívio às vezes, sempre chega cedo demais. Seja aos dois meses ou aos cem anos de idade.

Porém, com tecnologias que cada vez mais prolongam a vida – ou a suposta vida -, morrer vem se tornando motivo de vergonha. Morrer antes de uma certa faixa etária é quase como ter falhado. Foge-se de morrer, afastando-se do viver.

A morte vem sendo escondida sob os mesmos relatórios científicos e quartos assépticos de hospitais que servem para evitá-la. Porque temos acanhamento e medo diante dela e porque podemos. Porque sempre é cedo demais para enfrentá-la como protagonista ou como coadjuvante. E, como coadjuvantes, não tendo ela grudada em nossos couros, fugimos ritualisticamente.

A despeito do que se vê na violência dos noticiários, a morte é cada vez menos banal. A morte que se conhece é a de filme e a morte estatística que, eventualmente, provoca a revolta popular. Não a morte que você pode tocar com as mãos e que espeta os dedos no seu peito.

O único que não pode evitar o contato diário com ela é quem de fato vai morrer. No entanto, o afastamento contínuo que temos dessas pessoas à beira dela, próximas ou não de nós, nos priva de um aprendizado que há algum tempo era tão comum.

Ninguém sabe morrer.

Mas considerando o quanto era comum que pessoas condenadas o fizessem em suas próprias casas, sob seus tetos e em suas camas, ao menos – antes – se estava um pouco mais próximo desse conhecimento.

Ter a chance de conviver com alguém amado que morrerá é também ter a consciência da própria morte. Afinal, deixar a vida daqui a dez minutos ou daqui a quarenta anos sempre será algo que poderia ser adiado. Muito embora no íntimo se acredite que conosco não, é algo que acontecerá para todos.

O problema é que não se costuma lembrar disso e segue-se vivendo, adiando as coisas como se o viver fosse eterno.

O engraçado da morte é que todos morrem. É algo que, como destino, é coletivo. Mas todos morrem sozinhos. Não importa a situação. E não importa o quanto já se tenha feito, sempre restará algo a se fazer.

Creio mesmo que, se você tem um tempo específico para passar entre os seus, deve escolher a melhor maneira de passá-lo. Rindo ou chorando, você escolhe. E nesse caso, a única coisa que posso afirmar com certeza, é que até o ponto em que se tem uma escolha deve-se fazer uma boa opção.

A questão não aparece mais avassaladora quando a morte está à vista no horizonte à frente: mas quando a vida já está sumindo no horizonte que ficou para trás. Quando se depende de outras pessoas para arrumar o travesseiro, para se virar na cama, para as necessidades fisiológicas básicas, para beber um copo d’água, para erguer o braço.

Aí é que está a morte de fato. Aí é que será cobrada verdadeiramente a coragem.

Estive lendo o livro Sobre a Morte e o Morrer, de Elizabeth Kubler-Ross, obra inteiramente baseada em depoimentos de pacientes terminais.

Até o ponto em que estou lendo, a autora tem algumas conclusões interessantes:

Quanto mais avançamos na ciência, mais parece que tememos e negamos a realidade da morte. Como é possível?

Recorremos aos eufemismos; fazemos com que o morto pareça adormecido; mandamos que as crianças saiam, para protegê-las da ansiedade e do tumulto reinantes na casa, isto quando o paciente tem a felicidade de morrer em seu lar; impedimos que as crianças visitem seus pais que se encontram à beira da morte nos hospitais; sustentamos discussões longas e controvertidas sobre dizer ou não a verdade ao paciente, dúvida que raramente surge quando é atendido pelo médico da família que o acompanhou desde o parto até a morte e que está a par das fraquezas e forças de cada membro da família.

(…)

O fato de nos concentrarmos em equipamentos e em pressão sangüínea não será uma tentativa desesperada de rejeitar a morte iminente, tão apavorante e incômoda, que nos faz concentrar nossas atenções nas máquinas, já que elas estão menos próximas de nós do que o rosto amargurado de outro ser humano a nos lembrar, uma vez mais, nossa falta de onipotência, nossas limitações, nossas falhas e, por último mas não menos importante, nossa própria mortalidade?

O livro se destina a médicos, mas a linguagem é clara. Ele pode e deve ser lido por qualquer pessoa que vá morrer um dia e que vá encarar a morte de alguém próximo antes disso. Um dos objetivos dele é ensinar como tornar mais fácil esse instante para pessoas com algum mal incurável.

Um dos meus avôs teve a felicidade de que a autora fala, morrendo sob o teto de um lar e próximo de alguns de seus muitos filhos. Tive a honra e a alegria de conviver diariamente com ele nesses meses. De fato, embora sofresse visivelmente, não reclamava de nada. Só tinha um medo: estar sozinho na hora.

No mais, para as pessoas que nos viram e nos ouviram, tudo o que dissermos são apenas palavras. Tudo o que dissermos, em verdade, é a máscara da realização em vida. Realização que, para nós, enquanto protagonistas da cena final e do apagar das luzes, talvez signifique um grande nada depois de tudo.

(este texto foi escrito em setembro de 2007, quando meu pai foi diagnosticado em estágio avançado de um câncer tremendamente agressivo; ele morreu em meados de 2008)

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!