Moby Dick: que tal uma próclise no começo de um livro?

A ênclise – quando o pronome oblíquo aparece depois do verbo – cabe bem para o sotaque português. Nele, as sílabas átonas quase desaparecem.

Os mes, nos, lhes e demais sumiriam no início de frases.

Mas, para o sotaque brasileiro, a regra que impede que se coloque o pronome no começo de sentenças não faz o menor sentido.

Elas são perfeitamente pronunciadas.

Os modernistas brasileiros já sabiam disso desde a década de 20. Porém ainda hoje é preciso enfrentar os gramáticos mais sisudos.

Me corrija se quiser perder seu tempo.

Sérgio Rodrigues, do blog Todoprosa, propôs então uma tradução interessante para o primeiro parágrafo de Moby Dick, de Herman Melville:

Me chamem de Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo.

Rodrigues propõe então que se comece não uma oração com um pronome oblíquo. Mas um livro inteiro.

Normalmente, os tradutores iniciam a narrativa com coisas como “Chamai-me Ismael…” e quetais. Numa inspiração um tanto bíblica talvez.

Só achei que o termo aquoso, teria ficado melhor como líquido. Já que é para simplificar.

Mas não me meto, pois pouco entendo de tradução e ele deve ter tido seus motivos.

Postado em Livros e Afins.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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