Há dois anos passei a procurar por uma estante de livros para comprar.

Dois anos.

Não, caro leitor, eu não procurei todos os dias, também não devo ter procurado em todas as lojas da minha cidade, mas procurei com frequência nas maiores lojas.

Nas lojas de movéis populares não havia nenhum modelo para livros.

Em uma loja de móveis mais sofisticados encontrei uma estante de estilo moderno que serviria para por livros, mas não os meus livros. Isso por dois motivos:

  • era grande demais para a minha sala;
  • era grande demais para o meu orçamento (algo em torno de R$ 3.000).

Pensei também em mandar fazer uma estante, mas se ressolvesse contar as dificuldades que encontrei ao tentar tal alternativa vocês não acreditariam. Então, vou poupá-los do relato dos meus aborrecimentos.

Uns dias atrás finalmente achei uma estante para livros. Não é o modelo mais bonito, nem o mais forte, e entre a compra e a montagem foram doze dias de espera, mas é uma estante para livros – e isso já é muito.

Dois dias depois de eu ter adquirido a dita, recebi uma ligação da minha irmã falando que um colunista da revista semanal Veja havia escrito um artigo sobre a sua histórica dificuldade em comprar estantes para livros.

O colunista Claudio de Moura Castro fez uma análise de como o fato de não existirem estantes para livros sendo vendidas nas grandes lojas de móveis esta diretamente ligado a falta de hábito de leitura do brasileiro.

Como os donos dessas empresas não são tontos, é inevitável concluir que, se não oferecem boas estantes, é porque não há compradores. Ou seja, o brasileiro frequentador dessas lojas não possui o volume de livros que provocaria a demanda por elas. Os poucos que precisam de estantes mais avantajadas se entendem com seu marceneiro e pagam as comas, também mais avantajadas. Triste constatação, pois não? E como será no mundo mais rico? Apenas para ter gosto. Digitando a palavra bookcase, aparecem 725 itens. Há um número para cada cor, aparecendo também acessórios e modelos menos apropriados para livros. Por seguro, digamos que existem mais de 300 modelos de estantes para livros. A comparação é escandalosa.

Guardar livros em casa por si só não quer dizer muita coisa, afinal livro parado na estante não acrescenta nada na vida de alguém. Bem, talvez acrescente poeira.

O colunista continua seu relato:

Falando de estantes de livros, em uma área rural da Islândia, uma casa de camponeses modestíssimos foi transformada em um museu sobre os hábitos e os estilos de vida locais. Mostra a casa como estaria por volta de 1920, austera e espartana, como tudo no país. Chamou atenção a biblioteca do dono. A estante, mais alta do que eu e com um bom metro e meio de largura, estava repleta de livros, com o desgaste que corresponde ao uso frequente. (grifo meu)

Ter livros em casa e lê-los, consulta-los, empresta-los, enfim: todas essas atividades que diferenciam um amontoado de papel de um livro propriamente dito. É disso que o colunista esta falando, e não de quem compra livros a metro para enfeitar a sala.

E ai vem o golpe de misericordia: Castro passa a analisar as vantagens da leitura freqüente e compara com os hábitos de leitura do brasileiro médio:

Como serão os hábitos de leitura dos brasileiros? Os resultados não são nada lisonjeiros. A média brasileira é de 1,8 livro lido por habitante/ ano. Isso se compara com 2,4 para nossos vizinhos colombianos, cinco para os americanos e sete para os franceses.

Diriam os cínicos, e daí? Um passatempo como outro qualquer. Infelizmente, não é assim. Uma pesquisa em 27 países mostrou que a biblioteca familiar se correlaciona mais com bons resultados na educação do que a própria escolaridade dos pais.

Uma biblioteca de 500 livros se associa a acréscimos de escolaridade que vão de três a sete anos. Segundo os autores, “uma casa onde os livros são valorizados fornece às crianças ferramentas que são diretamente úteis no aprendizado escolar…”. E tem mais, leitores mais assíduos visitam mais museus, fotografam mais e, surpresa, praticam mais esportes.

Nunca tive dúvidas que a leitura possui outras vantagens, além de ser um passatempo delicioso. Agora tenho também alguns argumentos. E uma estante de livros.

Sobre o autor: Marcela Ortolan

Andarilha convicta, leitora apaixonada, behaviorista radical. Acredita que o mundo é grande demais para que apenas uma arte tenha o seu monopólio.