Minha irmã não é normal

Hoje – ou ontem, não importa – um blogueiro utilizou uma fotografia de uma criança com síndrome de Down para ilustrar o que ele julga ser uma pessoa estúpida.

O texto, assim, fala de pessoas que por algum motivo são consideradas estúpidas. De fato, o texto é bem escrito e tem mais ou menos razão no ponto que aborda.

Mas não entendo o motivo que leva alguém supostamente inteligente a associar pessoas estúpidas a um portador de síndrome de Down e a propagar essa noção em seu blog.

Tive um chefe que costumava chamar de mongolóides seus subordinados que, porventura, cometessem algum erro. Aqueles subordinados que, por acaso, ele – um tanto intolerante aos erros – julgava permanente ou momentaneamente estúpidos.

No entanto, no que diz respeito a relacionamento humano talvez os seus comandados o julgassem, da mesma forma, estúpido. Muito embora eu não lembre de ninguém chamá-lo de mongolóide.

Vício inevitável, julgar nunca é bom. Pois estúpidos, incompetentes, mal relacionados todos somos em algum momento.

Mongolóide, porém, é um termo usado por quem costuma de alguma forma associar portadores de síndrome de Down a pessoas estúpidas. Não necessariamente. Às vezes, o uso do termo vem apenas por ignorância, sem a obrigadoriedade da ligação com a estupidez.

Outra história curta.

Minha irmã, devido a um trauma no nascimento, tem lesão cerebral severa. A mesma pessoa que chamaria um portador de síndrome de Down de mongolóide muito provavelmente a designaria como retardada mental.

Admito que para certas coisas para as quais as pessoas não estão preparadas não existem nomes suaves. Especial, excepcional e outros termos são maneiras de rotular para que as outras pessoas entendam, pois as outras pessoas precisam classificar o que consideram diferente.

Eu não lembro exatamente do que eu a chamei desde sempre.

Pelo seguinte.

Eu sempre a chamei de Melissa. Minha irmã. Qualquer outra palavra parece-me errada. Admito. Acabo dizendo-as, como se tivesse um nó na boca, pois as outras pessoas costumam precisar ouvi-las.

Hoje ela tem 33 anos, aparência de uns 15 e idade mental de no máximo um ano e meio. Anda, balbucia e, de um jeito meio oblíquo, de vez em quando nos autoriza a entrar no mundo dela. Se comunica de um modo muito próprio.

Para mim ela, desde que eu era criança, foi um determinado padrão de normalidade. Para mim, anormais eram as outras famílias, que não tinham uma criança como ela.

Dificilmente poderemos dizer o que é normal, anormal, estúpido ou mongolóide com precisão.

No entanto, cada vez mais estou certo de que minha irmã não é normal.

Considerando que uma das possíveis vertentes da normalidade dos seres humanos – raça à beira da extinção na qual me incluo – é hostilizar, propagar a ignorância, tripudiar sobre as limitações alheias e eu nunca a vi fazendo isso (e creio que tais coisas nem estão a seu alcance): ela definitivamente não é normal.

Quanto aos portadores de síndrome de Down -  que realmente tem suas limitações intelectuais -, creio que há muito a aprender com essas pessoas. Mas no que diz respeito a suas ilimitações emocionais.

A racionalidade e o domínio de novidades tecno-sociais são apenas algumas facetas do todo humano. Que por acaso, neste momento fugaz de nossa história, são valorizadas. O fato de que algo vale grana também é apenas uma forma de valorizar.

Tenho certeza de que a sociedade tem muito mais a ganhar se passar a prestar mais atenção no que essas pessoas tem a oferecer. Valores que, momentaneamente, não tem tanto destaque quanto, por exemplo, um iPhone.

De qualquer forma, incomodaria-me muito ver a foto de minha irmã – uma pessoa, que existe, que sente e interage com o mundo – sendo usada para ilustrar um artigo, associada a pessoas julgadas estúpidas. Provavelmente o número de seguidos ou seguidores no Twitter, por exemplo, também não é um bom critério de julgamento.

Tenho certeza que tudo não passou de um engano, pois se é para julgar, tento julgar apenas o fato. Julgo como um terrível engano de uma pessoa inteligente momentaneamente insensível.

Tampouco associarei esse meu lamento à pessoa e ao texto em si: não interessa quem foi. Interessa que isso acontece, ainda é admissível por alguns e outras pessoas também consideradas inteligentes defendem o fato como… liberdade de expressão? Ou outra coisa. Tenho notado ultimamente que a Liberdade de Expressão tem sido invocada em momentos em que a Liberdade de Ficar Calado deveria ser exercida com mais avidez e sabedoria.

Admira-me o fato ter ocorrido em um ano em que o livro O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, que versa sobre o tema, ganhou tantos prêmios e tanto reconhecimento. O que prova que a ilustração e o texto de que falo andaram por acaso  juntos, mas é como se fossem de épocas diferentes.

É a esse tipo de insensibilidade que pessoas como minha irmã, como o menino da foto, e demais, tem algo a oferecer.

Postado em Variedades.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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