Minha irmã não é normal
01/04/2009Hoje – ou ontem, não importa – um blogueiro utilizou uma fotografia de uma criança com síndrome de Down para ilustrar o que ele julga ser uma pessoa estúpida.
O texto, assim, fala de pessoas que por algum motivo são consideradas estúpidas. De fato, o texto é bem escrito e tem mais ou menos razão no ponto que aborda.
Mas não entendo o motivo que leva alguém supostamente inteligente a associar pessoas estúpidas a um portador de síndrome de Down e a propagar essa noção em seu blog.
Tive um chefe que costumava chamar de mongolóides seus subordinados que, porventura, cometessem algum erro. Aqueles subordinados que, por acaso, ele – um tanto intolerante aos erros – julgava permanente ou momentaneamente estúpidos.
No entanto, no que diz respeito a relacionamento humano talvez os seus comandados o julgassem, da mesma forma, estúpido. Muito embora eu não lembre de ninguém chamá-lo de mongolóide.
Vício inevitável, julgar nunca é bom. Pois estúpidos, incompetentes, mal relacionados todos somos em algum momento.
Mongolóide, porém, é um termo usado por quem costuma de alguma forma associar portadores de síndrome de Down a pessoas estúpidas. Não necessariamente. Às vezes, o uso do termo vem apenas por ignorância, sem a obrigadoriedade da ligação com a estupidez.
Outra história curta.
Minha irmã, devido a um trauma no nascimento, tem lesão cerebral severa. A mesma pessoa que chamaria um portador de síndrome de Down de mongolóide muito provavelmente a designaria como retardada mental.
Admito que para certas coisas para as quais as pessoas não estão preparadas não existem nomes suaves. Especial, excepcional e outros termos são maneiras de rotular para que as outras pessoas entendam, pois as outras pessoas precisam classificar o que consideram diferente.
Eu não lembro exatamente do que eu a chamei desde sempre.
Pelo seguinte.
Eu sempre a chamei de Melissa. Minha irmã. Qualquer outra palavra parece-me errada. Admito. Acabo dizendo-as, como se tivesse um nó na boca, pois as outras pessoas costumam precisar ouvi-las.
Hoje ela tem 33 anos, aparência de uns 15 e idade mental de no máximo um ano e meio. Anda, balbucia e, de um jeito meio oblíquo, de vez em quando nos autoriza a entrar no mundo dela. Se comunica de um modo muito próprio.
Para mim ela, desde que eu era criança, foi um determinado padrão de normalidade. Para mim, anormais eram as outras famílias, que não tinham uma criança como ela.
Dificilmente poderemos dizer o que é normal, anormal, estúpido ou mongolóide com precisão.
No entanto, cada vez mais estou certo de que minha irmã não é normal.
Considerando que uma das possíveis vertentes da normalidade dos seres humanos – raça à beira da extinção na qual me incluo – é hostilizar, propagar a ignorância, tripudiar sobre as limitações alheias e eu nunca a vi fazendo isso (e creio que tais coisas nem estão a seu alcance): ela definitivamente não é normal.
Quanto aos portadores de síndrome de Down - que realmente tem suas limitações intelectuais -, creio que há muito a aprender com essas pessoas. Mas no que diz respeito a suas ilimitações emocionais.
A racionalidade e o domínio de novidades tecno-sociais são apenas algumas facetas do todo humano. Que por acaso, neste momento fugaz de nossa história, são valorizadas. O fato de que algo vale grana também é apenas uma forma de valorizar.
Tenho certeza de que a sociedade tem muito mais a ganhar se passar a prestar mais atenção no que essas pessoas tem a oferecer. Valores que, momentaneamente, não tem tanto destaque quanto, por exemplo, um iPhone.
De qualquer forma, incomodaria-me muito ver a foto de minha irmã – uma pessoa, que existe, que sente e interage com o mundo – sendo usada para ilustrar um artigo, associada a pessoas julgadas estúpidas. Provavelmente o número de seguidos ou seguidores no Twitter, por exemplo, também não é um bom critério de julgamento.
Tenho certeza que tudo não passou de um engano, pois se é para julgar, tento julgar apenas o fato. Julgo como um terrível engano de uma pessoa inteligente momentaneamente insensível.
Tampouco associarei esse meu lamento à pessoa e ao texto em si: não interessa quem foi. Interessa que isso acontece, ainda é admissível por alguns e outras pessoas também consideradas inteligentes defendem o fato como… liberdade de expressão? Ou outra coisa. Tenho notado ultimamente que a Liberdade de Expressão tem sido invocada em momentos em que a Liberdade de Ficar Calado deveria ser exercida com mais avidez e sabedoria.
Admira-me o fato ter ocorrido em um ano em que o livro O Filho Eterno, de Cristóvão Tezza, que versa sobre o tema, ganhou tantos prêmios e tanto reconhecimento. O que prova que a ilustração e o texto de que falo andaram por acaso juntos, mas é como se fossem de épocas diferentes.
É a esse tipo de insensibilidade que pessoas como minha irmã, como o menino da foto, e demais, tem algo a oferecer.





26 comentários
Vou falar claramente, mas anonimamente, pela PRIMEIRA vez na vida: Se a ******, filha do *****, tivesse nascido com o mesmo “probleminha” da Melissa, posso estar MUITO enganada, mas eu tenho quase certeza de que ele não usaria aquela foto. Mas enfim, como eu disse, eu posso estar enganada.
(nota do editor: o comentário, por ser anônimo, e por ainda assim citar os nomes foi editado)
É por isso que eu acho que a onda do politicamente incorreto não é de todo ruim. Porque a proibição de usar alguns termos mostra, pelo menos, a sensibilidade de algumas pessoas com relação a tais termos. Não que chamar de “portador de necessidades educativas especiais”, por si só, diminua o preconceito. Mas pelo menos mostra que na época que nós vivemos, temos o ideal de não discriminar as pessoas com expressões pejorativas.
Por isso, nem que fosse apenas pela onda do politicamente correto, o blogueiro errou muito em colocar a foto. E mostra que estúpido é ele, por ter uma visão tão limitada de mundo.
Lamentável,o fato de agumas pessoas não perceberem que muitas das coisas que fazem ou dizem afetam outras.Essas certamente,tem que aprender um pouco mais sobre,o que é ter sabedoria,razão e consciência.
Concordo com tudo o que você citou no texto e a cada dia percebo que as pessoas se preocupam em julgar mais e entender menos, só o fato de usar determinadas palavras para rotular alguém dessa forma já é uma forma selvagem e cruel de preconceito, algumas pessoas (felizmente não todas) rotulam o que prá elas não é convencional, esquecendo que tratando-se de seres humanos, sentimentos estão envolvidos. Por isso prezo tanto pelas pessoas que sabem se fazer valer da sabedoria, lamentável equívoco.
Você tocou num ponto fundamental. O nosso costume, vício ou hábito de espalhar pesticida por aí. Denegrir, de qualquer forma diminuir ou menoscabar as pessoas diferentes. Uma boa solução seria conviver com elas – as diferentes – para aprender. Quem quer? Quem dispõe de um tempo para isso? Todos corremos em busca da morte mais rápida. Como também mencionou, parece – cada vez mais – que o nosso projeto precisa de reparos urgentes. Recomendo a todos, um filme em DVD: O agente da estação. (Thomas McCarthy) É uma boa tentativa. Abraços.
Concordo com você, Ale. E é fato que você tem uma visão completamente diferente, pois tem uma irmã com uma lesão cerebral grave. Também achei infeliz a idéia de ilustrar a foto com um portador de síndrome de down, há outras imagens que podem demonstrar a idéia de idiota, até mesmo as do failblog.
O fato de não convivermos com o diferente nos torna insensíveis e demasiadamente preconceituosos. Senti isso na pele quando na faculdade fui trabalhar com portadores de síndrome de down, eu os considerava incapazes, tentava fazer as coisas por eles o tempo todo. À medida que a convivência foi aumentando percebi que eram pessoas com algumas limitações, mas não tão diferentes de mim e que poderiam realizar várias tarefas.
No entanto, por ter sido criada desde pequena com vários gays e lésbicas, sempre achei super natural as pessoas serem homossexuais ou não. É uma questão de convivência e de falta de sensibilidade grave.
Esse blogueiro pode ser processado e virar a Geni das entidades de apoio e de direitos humanos. Mas ele já deve ter apagado o post ou pelo menos tirado a foto, se ele se deu conta da m… que fez e das consequências que pode sofrer.
Passo meses sem ler esse blogueiro, quando me mandam um link pra algo que ele escreveu, vejo uma coisa assim. Adorei ler sua opinião e você está totalmente certo, mas como sempre tem o lado da população que vê humor naquela foto.
p.s.: e sou sincero o suficiente pra dizer que o texto dele não chamou minha atenção, por isso nem comentei.
Seu ponto de vista foi inteligente, maduro e sincero. Sem precisar atacar ou atingir ninguém. Parabéns pelo post, Ale. Tenho certeza que você transmitiu essa mensagem muito bem.
Abraços;
Miss.
É sempre muito bom saber que há quem avalie com cautela uma situação delicada como essa, apesar do fulgor com que surgem as críticas mais maníacas (também compreensíveis, já que frutos de indignação).
Atirar pedras é tão fácil como o oposto (sempre há os defensores inconseqüentes, que são tantos quanto os detratores, fato); complicado, mesmo, é tentar tirar algo de positivo da situação sem crucificar alguém por um erro. Erro grande, diga-se, mas ainda um erro, que é bem distinto de um ato de crueldade consciente (e já constatou-se não ser o caso).
Seu ponto de vista (que, sob o meu, é peculiar, dado que não partilho da mesma experiência familiar que você), Alessandro, é bastante equilibrado e suas conclusões só nos têm a adicionar e aprimorar o trato social para com aqueles a quem não compreendemos com clareza, seja por falta de contato usual, pela escassez de informações ou mesmo pela eventual falta de interesse nas mesmas.
Aprendamos todos com esse episódio sem torná-lo mais trágico do que realmente foi. Que daqui por diante não se confunda tão facilmente “liberdade de expressão” com “liberdade de agressão”…
Grande abraço e obrigado por acrescentar ao invés de corromper.
Cordialmente,
Fellipe Vernon.
Pois é. Não importa quem seja, embora todos saibamos quem foi. Eu acho que o que a pessoa fez não foi politicamente incorreto. Aliás eu acho que essa coisa de rótulos é uma grande perda de tempo.Se todos nós nos pautássemos puramente pelo RESPEITO, muitos erros não seriam cometidos.
Esse povo precisa parar de achar que a Internet é a coisa mais importante da sua vida. Que relevância vai ter daqui a algum tempo quantas pessoas me seguiam e eu seguia no Twitter? Quantos amigos eu tinha no orkut? Deixa cada um na sua. Quando a pessoa me incomodar de algum modo, tenho várias saídas pra me livrar dela: fechar a página da internet que ela fez, dar unfollow, bloqueá-la no orkut, me afastar dela. Simples assim.
Já briguei muito na Internet por pouca coisa, já me afastei daqui por pouca coisa. E aqui estou eu de novo. E minha regrinha pra sobreviver aqui – e no mundo aqui fora, tanto quanto possível: afaste-se de tudo aquilo que te faz mal. E tem dado certo.
Agora, respeito, por favor. Eu não vou dar uma de santa e dizer que aceito tudo que é diferente de mim. Mas eu RESPEITO. Mais do que como ser humano, como ser vivo, tenho direito a isso, assim como todo mundo.
Embora tivesse lá sua razão, a tal pessoa foi extremamente infeliz nesse episódio. E concordo: precisamos aprender a usar o direito de ficarmos calados.
Alessandro:
A única coisa que nos faz aprender é a diferença. Seja ela qual for. Se for igual é uma repetição e não uma aprendizagem. Uma aprendizagem com o diferente. Que nos faz prestar atenção e nos surpreeender.
Uma pena que tenha pessoas que ainda não comprenderam isto.
Anny.
Sem dúvidas uma das visões mais centradas que li pela blogosfera.
Fato é que o Twitter é uma grande farsa, independente de quantas pessoas você siga ou que lhe sigam.
Criar polêmicas sobre ele é algo ridículo, mais ridículo ainda mexer com pessoas que nada tem a ver com isso para criar mais polêmica ainda no tema.
Infelizmente ainda temos pessoas assim, que agem de acordo com os conceitos sociais pré-definidos ao invés de agir com o bom senso e com a educação.
Parabéns pelo ótimo texto!
ótimo texto. eu infelizmente não tive tua serenidade e presenteei o blogueiro com um unfollow. :) terminei no final de semana o ‘filho eterno’ e realmente reforço a indicação, puta livro.
abração,
Carol.
Que texto bonito, Alessandro
Confesso que não dei muita bola quando vi o tal post. O pessoal parece fazer questão de ser politicamente incorreto ultimamente, como se isso os tornasse pessoas melhores, e a gente se acostumou a ter essas piadinhas como normais. Mas não são. Preconceito não é normal.
Um grande beijo pra ti e para a Melissa!
A foto foi de muito mal gosto, quando vi a foto nem li mais o artigo com o interesse que tinha me levado até lá, deprimente.
Lindo texto! Brilhante! Por diversos motivos mas, entre eles, por nos fazer pensar. E não só nesse epísodio ou nesse tema específico, mas o quão repugnante e vergonhosa é a nossa existência. A gente se orgulha do nosso julgamento. Como ler esse texto e julgar que o que o ato infeliz do blogueiro em questão é errado. E a gente se sente orgulhoso por perceber que a gente conseguiu perceber isso! Por isso eu acho que julgar o ato de julgar é errado. É uma capacidade incrível e, se bem usada, nos leva pra frente. A gente consegue aprender com os erros dos outros.
Não estou, de maneira alguma, defendendo a ignorância e a falta de sensibilidade do blogueiro infeliz, mas sim tentando colocar meu ponto de vista de que a gente tem muito, mas muito mesmo a aprender sobre tudo. E concordo plenamente com o fato de que “estúpidos, incompetentes, mal relacionados todos somos em algum momento”, mas discordo que julgar “nunca” seja bom. Julgar ações, tentando entender, nos faz aprender. Julgar pessoas, pela simples necessidades de melhorar nossa autoestima, é repugnante. E é por isso que acho que a nossa existência é tão vergonhosa: isso tudo vem naturalmente para nós. Precisamos sempre nos policiar pra usar as palavras certas, pra não sermos injustos, pra não termos preconceitos… Porque isso tudo faz parte da nossa normalidade ridícula. Talvez consigamos aprender a viver direito com com os “anormais”, quando começarmos a “prestar mais atenção no que essas pessoas tem a oferecer”.
Seu texto mudou minha vida de alguma forma!
Muito obrigado por isso!
muito bonito.
A melhor resposta é esta aqui.
Tive um colega de trabalho, que dizia ter uma irmã com síndrome de down e que seus pais a escondia de todos, inclusive dos própios irmãos. É triste não saber lidar com o diferente e o que é pior, não aceitar conviver, quer seja por motivos de saúde, ideologia ou opção sexual. Acho que, para SER HUMANO, é preciso primeiramente respeitar o próximo e a natureza. Este, seria o princípio básico, para vivermos em harmonia, neste planeta chamado terra e que o homem, pela sua insensatez, já o estragou, fazendo com que os primeiros sintomas, já sejam sentidos por todos nós, pois o calor vem aumento a cada ano que passa. Um abraço, Armando.
“A Liberdade de Expressão tem sido invocada em momentos em que a Liberdade de Ficar Calado deveria ser exercida com mais avidez e sabedoria.
Excelente frase. Também se pode dizer que a liberdade de expressão tem sido invocada para justificar o desrespeito.
Não ofender as pessoas, hoje, é sinônimo de ser “politicamente correto” – e dizem isso com ar de deboche. Deveria ser, simplesmente, sinônimo de respeito.
Eu nunca vi sorriso mais sincero do que os de portadores de Down. Eles são alegres sem interesse algum, regozijam-se com as menores alegrias da vida.
Não li o texto citado, e não tenho interesse em ler.
Bravo! Belíssimo texto. Parabéns! Ao meu ver, é necessário ter sensibilidade suficiente para entender aquilo que não vê com os olhos, mas sim, com o coração. E, infelizmente, o mundo está cheio de pessoas incapazes de ir além do superficial.
Abraço. Betty
Texto cinco estrelas.
Cara esse livro até que é legal mas tem coisa que não tem sentido ! eu até estranhei porque ele tá assim todo sem sentido !
eu retiro tudo que eu disse
3 Trackbacks
[...] O Alessando Martins escreveu esse post maravilhoso intitulado “Minha irmã não é normal” que vale a leitura e a [...]
[...] Escrevi sobre a irmã no texto Minha Irmã Não é Normal. [...]
[...] me levou às lágrimas em Minha irmã não é normal. Neste caso, a única coisa “normal” no sentido de recorrente é o Ale conseguir, [...]