No Yôga Sútra, de Pátañjali, há uma das definições mais poéticas, belas e corretas para a memória que conheço: “A memória é a não extinção das experiências passadas.”
Para o autor desse livro que é a codificação do Yôga Clássico (que não é o mais antigo), a memória é um dos muitos obstáculos no caminho da plenitude da consciência.
De fato, se por um lado precisamos da memória para convivermos e interagirmos com o mundo racional, como uma ferramenta útil, por outro lado ela é um entrave para formas de interação mais sutis e, muito provavelmente, mais eficientes, embora não tão frequentemente acessíveis para nós humanos. Talvez, para alguns estados de consciência, ela nem seja necessária.
No entanto, a arte age – dependendo do autor – nos planos físicos, emocionais, racionais e em outros, ainda menos densos, em diferentes graus. Assim, a memória sempre será fonte de inspiração ou mesmo sendo o próprio tema de uma obra, pois ela se liga intimamente à emoção e à razão. E até mesmo ao corpo.
O Gabriel Gómez, enviou-me o seu mais recente livro, Borges e Outras Ficções. Em uma das crônicas ele relembra do Livro dos Seres Imaginários, do escritor argentino, particularmente do Goofus Bird:
“Não esqueçamos o Goofus Bird, pássaro que constrói o ninho ao contrário e que voa para trás, porque não lhe importa aonde vai, mas sim onde esteve.”
Como seria construir o ninho ao contrário? E voar para trás, parecendo importar-lhe apenas o passado? Vendo as coisas regressarem e não se perdendo de vista… Como ir a algum lugar se só se volta deles? Pássaros com velhas fraquezas humanas, que apenas sentem o vento de frente passar pelas costas. E não conseguir virar a página, ainda que a vida ajude a empurrar.
Essa descrição lembrou-me do Anjo da História, descrito por Benjamin, igualmente bela, mas de teor mais trágico.
Sobre seu livro, Gómez explica:
(…) além de falar diversos temas sobre o autor, dou continuidade, assim como ele fez com o “Martin Fierro”, ao incrível e profético conto “O livro de areia”. Sem dúvida, sua literatura é inesgotável. E continua em inúmeras biografias, especulações, estudos, interpretações, tributos… O escritor cego de visão futurista. Um cânone da literatura universal que venceu e conquistou o tempo, imortal. A morte continua sendo uma falácia. A única verdade, neste caso, parece ser sua inesgotável ficção. E, então, tudo recomeça e volta a ser o outro, o mesmo.
É inegável que aquele que começou a escrever este artigo sobre memória, arte e livros morreu para dar lugar àquele que agora o encerra. Assim como morreu Borges e o Gómez que escreveu sobre ele, para dar lugar a outros que contemplam, de uma maneira ou de outra, aqueles que faleceram.
Somos todos, de certo modo, pássaros Goofus a voar de costas, voltados para de onde viemos e tentando construir, seja lá qual for, nossa obra, feita de tijolos que já não existem.
Wolverine
Uma referência pop sobre a memória da qual talvez você goste. Numa das graphic novels com o personagem Wolverine há uma explicação muito interessante sobre a amnésia do super-herói. Como se sabe, ele tem o que se chama de recuperação alígera, suas feridas se curam rapidamente como se nada tivesse acontecido. Embora sinta dor, ele se recupera de qualquer ferimento.
Nessa narrativa específica, o leitor descobre que o organismo do herói interpreta os ferimentos emocionais do personagem como ferimentos físicos e, em pouco tempo, eles desparecem como se nunca tivessem existido. Assim, ele esquece diversas coisas importantes de sua vida. Sem dúvida que isso o perturba.
Talvez um homem precise de cicatrizes para viver confortavelmente, afinal.
Fico curioso da possibilidade de existir um homem cujas memórias más simplesmente deixem de existir e como seria, de fato, sua vida, em contraposição a um Funes (também personagem de Borges), que lembra de tudo (até mesmo a disposição das nuvens de uma certa tarde de 1923 em Buenos Aires, por exemplo).
Infelizmente, não sei em que graphic novel do Wolverine há essa explicação para sua amnésia.
Talvez eu tenha esquecido.









