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A memória sempre terá poesia e onde Wolverine entra nessa história

7 de maio de 2009 | Publicado na Categoria Lançamento de livros | 12 Comentários »

No Yôga Sútra, de Pátañjali, há uma das definições mais poéticas, belas e corretas para a memória que conheço: “A memória é a não extinção das experiências passadas.”

Para o autor desse livro que é a codificação do Yôga Clássico (que não é o mais antigo), a memória é um dos muitos obstáculos no caminho da plenitude da consciência.

De fato, se por um lado precisamos da memória para convivermos e interagirmos com o mundo racional, como uma ferramenta útil, por outro lado ela é um entrave para formas de interação mais sutis e, muito provavelmente, mais eficientes, embora não tão frequentemente acessíveis para nós humanos. Talvez, para alguns estados de consciência, ela nem seja necessária.

No entanto, a arte age – dependendo do autor – nos planos físicos, emocionais, racionais e em outros, ainda menos densos, em diferentes graus. Assim, a memória sempre será fonte de inspiração ou mesmo sendo o próprio tema de uma obra, pois ela se liga intimamente à emoção e à razão. E até mesmo ao corpo.

O Gabriel Gómez, enviou-me o seu mais recente livro, Borges e Outras Ficções. Em uma das crônicas ele relembra do Livro dos Seres Imaginários, do escritor argentino, particularmente do Goofus Bird:

“Não esqueçamos o Goofus Bird, pássaro que constrói o ninho ao contrário e que voa para trás, porque não lhe importa aonde vai, mas sim onde esteve.”

Como seria construir o ninho ao contrário? E voar para trás, parecendo importar-lhe apenas o passado? Vendo as coisas regressarem e não se perdendo de vista… Como ir a algum lugar se só se volta deles? Pássaros com velhas fraquezas humanas, que apenas sentem o vento de frente passar pelas costas. E não conseguir virar a página, ainda que a vida ajude a empurrar.

Essa descrição lembrou-me do Anjo da História, descrito por Benjamin, igualmente bela, mas de teor mais trágico.

Sobre seu livro, Gómez explica:

(…) além de falar diversos temas sobre o autor, dou continuidade, assim como ele fez com o “Martin Fierro”, ao incrível e profético conto “O livro de areia”. Sem dúvida, sua literatura é inesgotável. E continua em inúmeras biografias, especulações, estudos, interpretações, tributos… O escritor cego de visão futurista. Um cânone da literatura universal que venceu e conquistou o tempo, imortal. A morte continua sendo uma falácia. A única verdade, neste caso, parece ser sua inesgotável ficção. E, então, tudo recomeça e volta a ser o outro, o mesmo.

É inegável que aquele que começou a escrever este artigo sobre memória, arte e livros morreu para dar lugar àquele que agora o encerra. Assim como morreu Borges e o Gómez que escreveu sobre ele, para dar lugar a outros que contemplam, de uma maneira ou de outra, aqueles que faleceram.

Somos todos, de certo modo, pássaros Goofus a voar de costas, voltados para de onde viemos e tentando construir, seja lá qual for, nossa obra, feita de tijolos que já não existem.

Wolverine

Uma referência pop sobre a memória da qual talvez você goste. Numa das graphic novels com o personagem Wolverine há uma explicação muito interessante sobre a amnésia do super-herói. Como se sabe, ele tem o que se chama de recuperação alígera, suas feridas se curam rapidamente como se nada tivesse acontecido. Embora sinta dor, ele se recupera de qualquer ferimento.

Nessa narrativa específica, o leitor descobre que o organismo do herói interpreta os ferimentos emocionais do personagem como ferimentos físicos e, em pouco tempo, eles desparecem como se nunca tivessem existido. Assim, ele esquece diversas coisas importantes de sua vida. Sem dúvida que isso o perturba.

Talvez um homem precise de cicatrizes para viver confortavelmente, afinal.

Fico curioso da possibilidade de existir um homem cujas memórias más simplesmente deixem de existir e como seria, de fato, sua vida, em contraposição a um Funes (também personagem de Borges), que lembra de tudo (até mesmo a disposição das nuvens de uma certa tarde de 1923 em Buenos Aires, por exemplo).

Infelizmente, não sei em que graphic novel do Wolverine há essa explicação para sua amnésia.

Talvez eu tenha esquecido.

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12 Comentários para “A memória sempre terá poesia e onde Wolverine entra nessa história”

  1. Josafá Crisóstomo - 7 5 2009 às 11:50

    Post inspiradíssimo !
    A questão da memória em matéria de reflexão, como diria minha avó, dá sempre “pano pra manga”
    Particularmente, adorei saber que essa filosofia confirma (o que eu já desconfiava) que a memória pode também ser “um entrave para formas de interação mais sutis e, muito provavelmente, mais eficientes, embora não tão frequentemente acessíveis para nós humanos. Talvez, para alguns estados de consciência, ela nem seja necessária.”
    Parabéns :D

  2. tina - 7 5 2009 às 13:54

    quando li esse post me lembrei de um post que tinha lido, não faz muito tempo, no blog de saramago.
    http://caderno.josesaramago.org/2009/04/28/recordacoes/

  3. Alessandro Martins - 7 5 2009 às 15:02

    Josafá,

    já pensei sobre isso e, talvez, a memória só seja útil para a racionalidade e para consciências mais densas mesmo, como a emocionalidade e o corpo. Acima disso, talvez haja outras ferramentas para interagir com o mundo. Acho que você iria gostar de estudar o Yôga.

    Abraços!

  4. Alessandro Martins - 7 5 2009 às 15:03

    Tina,

    lembra, ainda que de longe, um artigo do Saramago é algo que tomarei como um elogio…

    Beijos do Ale.

  5. Garota Verde - 7 5 2009 às 17:18

    Acho que como você disse sobre a memoria lembrar de tudo não deve ser muito ‘agradavel’ e sim precisamos de recordações para termos ao menos base sobre como prosseguir a vida.
    Adorei o post!
    bj

  6. Carla Martins - 7 5 2009 às 17:21

    Por falar em Wolverine, ganhei dois ingressos para o filme, mas vou deixar para ir semana que vem. Ontem, fui ao cinema para ver Divã e ouvi o povo falando que a sala de Wolverine estava lotada! Afe!!!

  7. Gabriel Gómez - 7 5 2009 às 18:33

    Alessandro no conto que da continuidade ao “Livro de areia” de Borges, ele justamente trata desta memôria… “Hoje a Internet é a nova fronteira sem contorno.
    Acaso não representa um único livro que contém todos os outros? Não guarda todos os volumes de todos que já foram escritos, que serão escritos, e inclusive, os que nunca serão? Textos que se reproduzem, que se recriam, que nada criam e se perdem. A história nunca contada e a última.
    O que hoje está disponível pode não estar amanhã.
    Um espaço caótico com o qual poderia afirmar que não significa que “tudo” esteja enfim acessível, mas sim definitivamente fora de alcance.
    Acredito que procura adulterar todos os livros existentes, modificando autorias e conteúdos. Sabemos que o processo já começou… Afinal, que importa o nome do autor, passados três mil anos? Restarão obras célebres de autores anônimos ou autores notáveis dos quais não se conhecerá nenhuma obra. E possivelmente alguém atribuirá este crédito ao espírito que, em definitivo, é o verdadeiro autor de qualquer livro que mereça ser lido. Ou a este grande livro que é o mundo, cujos autores somos todos nós.”

    Teu novo texto alcança um outro voo e visão literária… Parabéns.

  8. Lady Cronopio - 8 5 2009 às 11:19

    Simplesmente fantástico, este post, Alessandro!
    E, como sempre, os links vão nos levando pelas estradas vicinais e… Que beleza!
    Mais coisas bacaníssimas!
    Sempre fã.
    Beijos
    ps: os comentários que você inspira são um show à parte, e já
    fazem parte do conteúdo do seu site.

  9. Teresa - 9 5 2009 às 0:07

    Gostei dessa definição de memória. Isso da necessidade de memória me lembrou aquele filme Johnny Mnemonic, em que ele tem a memória pessoal apagada para “alugar” seu cérebro para novas memórias. Mas ele era angustiado por não se lembrar de sua história.
    Do Wolverine, já procurou algum fanático por HQs pra tentar descobrir?

  10. Nina - 11 5 2009 às 1:16

    “O que foi duro de sofrer é doce de recordar”. (Provérbio italiano)

    Publiquei este e outros provérbios em meu blog recentemente.
    A interpretação que faço deste provérbio é que o valor do passado decorre do aprendizado e experiência que adquirimos e que nos prepara para a continuidade, para o enfrentamento.
    Se entendemos que nossas interações e vivências, inerentes a nossa existência, fazem parte de nossa evolução, as lembranças se transformam em sabedoria e porque não dizer, em fontes de inspiração.
    Excelente post, Alessandro.

    Abraço,
    Nina.

  11. Sonia - 11 5 2009 às 3:44

    Gostei do texto, gostei do filme… Agora só falta ler o referido livro do Gabriel sobre Borges que pelos comentários, também irei gostar.
    Sempre leio o Blog, embora seja a primeira vez que opino. Ótimo.

  1. [...] palavras e detalhes de acordo com uma lógica própria ainda não compreendida. Agora pense: se “a memória é a não extinção das experiências passadas”, do que, afinal, estamos nos lembrando? Se em nossas lembranças continuamos a viver o que já [...]

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