Se acontece um terremoto basta-me saber se ele foi fraco, médio, forte ou muito forte. Como leigo, não preciso saber as filigranas da Escala de Richter. As grandes perguntas são: como estão as pessoas, como elas agiram?
E, se o repórter está onde se deu o fato, como ele percebe os acontecimentos sem se isentar, como se fosse um mero observador ou um espírito que sobrevoa o acontecimento.
Fico imaginando se hoje uma matéria como a que li em Dicas Úteis Para Uma Vida Fútil, de Mark Twain, seria publicada. De jeito nenhum, o editor-chefe, do alto de sua sabedoria, diria que Mark Twain era incompetente e incapaz de escrever: em seu texto sobre o grande terremoto de San Francisco, em 1865, não consta o número de mortos, a intensidade do tremor, a vastidão da área atingida.
No entanto, há o seguinte trecho:
O chefe da Escola Dominical da Congregação, também Oakland, tinha acabado de distribuir o texto “E a terra balançou e tremeu” quando o terremoto começou, tomou conta do texto e fez o sermão para ele”
Se não fosse Twain, jamais saberíamos desse fato irrelevante, mas pitoresco. Eu o considero importante, mas posso ver a caneta do editor a excluí-lo.
Mas o principal do texto é o passeio que Twain faz pela cidade destruída, as rápidas pinceladas trágicas, dramáticas e até cômicas sobre os personagens que encontra em seu caminho, dando uma panorama que só um humano poderia dar – e de que qualquer repórter é capaz com maior ou menor talento -, mas que o gesso do estilo jornalístico geralmente impede.
O que mais me chamou a atenção é a descrição que ele faz do tremor, coisa que a precisão das escalas sempre me fez pensar, enganosamente, como algo semelhante a uma britadeira.
Passei por muitos terremotos aqui, de diversos tipos: os que vieram como um tremor imenso; os que deram duas ou três súbitas elevações; os que balançaram de um lado para outro com força e intenção e os que vieram rolando e ondulando sob nossos pés como uma grande onda do mar. Mas o de hoje fazia parte de um novo tipo de terremoto e, espero, bem raro de ocorrer. Primeiro, houve um abalo rápido e pesado; dois ou três segundos depois, a cidade e o condado de San Francisco foram violentamente sacudidos cinco vezes, de noroeste para sudeste e de sudeste para noroeste, com enorme força e rapidez. Eu disse que foram sacudidos porque é a palavra que descreve melhor o que houve.
Deve ser uma sensação estranha. De repente tudo aquilo que julgamos de mais sólido sob nós, o chão, nos falta. Literalmente. Isso é mais forte do que a quebra de qualquer sistema de crenças, por ser físico.
Nem se compara ao fato de, depois de ter lido tantas notícias sobre terremotos contemporaneamente, eu ter entendido o que é um, ainda que em teoria, em um texto de quase 150 anos.
Espero que eu nunca precise entender na prática.











