Made in Brazil: Clarice para americanos

Há escritores (criadores ou criaturas?!) que ousam dizer tudo aquilo que é impossível ser dito, causam estranheza aos olhos de quem os lê e transcendem o seu olhar para o mundo, alguns deles alcançam reconhecimento internacional e ganham inúmeras traduções ao redor do planeta. Recentemente Clarice Lispector (1925-1977) conquistou o mercado norte-americano, que mesmo tardiamente abriu espaço e virou consumidor da sua obra.

Com uma projeção internacional bastante rica, Clarice já teve seus livros publicados em diversos países como Alemanha, Dinamarca, Espanha, França, Israel, Holanda, Inglaterra, Itália, Noruega, Polônia, Rússia, Suécia, República Tcheca e Turquia, mas nada comparado ao seu atual sucesso nas livrarias norte-americanas (há traduções mais antigas no país).

Banca de Revista dos EUA

Clarice encontra-se no seu melhor momento em exportação e para provar isso, neste mês a revista especializada Bookforun, estampa a escritora brasileira na capa. O artigo da revista foi assinado pela crítica literária Rachel Kushner, que explica a empatia do público americano com as obras da autora que são carregadas de filosofia e vai além, quando compara Lispector a Franz Kafka (1883-1924), uma vez que usam como símbolo um inseto para mostrar ou evidenciar a natureza humana.

Trecho de A Paixão Segundo G.H:

Entendia eu que aquilo que eu experimentara, aquele núcleo de rapacidade infernal, era o que se chama de amor? Mas – amor neutro?Amor neutro. O neutro soprava. Eu estava atingindo o que havia procurado a vida toda: aquilo que é a identidade mais última e que eu havia chamado de inexpressivo. Fora isso o que sempre estivera nos meus olhos no retrato: uma alegria inexpressiva, um prazer que não sabe que é prazer – um prazer delicado demais para a minha grossa humanidade que sempre fora feita de conceitos grossos. (…).

 

Homenagem de Luis Fabiano Teixeira a Clarice Lispector em evento 2011

Há em suas obras a presença recorrente do drama existencial. Suas personagens geralmente refletem as angústias, frustrações e anseios do homem do século XX. O fluxo de consciência, a epifania e o monólogo interior são algumas das características que levam Clarice a ser Clarice. O primeiro é uma das maiores descobertas literárias de todos os tempos, o chamado fluxo de consciência que consiste em abordar a temática psicológica, retratando fielmente a imaginação da personagem; o segundo é o monólogo interior quando o personagem não se dirige a ninguém, simplesmente pensa, sendo este uma ferramenta do fluxo de consciência e por último a epifania, na qual acontece a compreensão da essência de algo.

Em maio deste ano, quatro obras de Clarice foram novamente transpassados para língua inglesa pela editora New Directions, de Nova York, dessa vez com a editoria e supervisão de Benjamin Moser, o mesmo que escreveu a biografia Clarice, em 2009, pela Cosac Naify. Os títulos foram estes: Perto do Coração Selvagem (1943), Água Viva (1973), A Paixão Segundo G.H. (1964) e Um Sopro de Vida (1978). A Hora da Estrela (1977) foi traduzida em 2010 e desde então, seus textos ganharam visibilidade significativa nas livrarias americanas. No Brasil, estes títulos foram lançados pela Editora Rocco.

Livros de Clarice pela New Directions

 

Trecho de A Hora da Estrela:

Pois na hora da morte a pessoa se torna brilhante estrela de cinema, é o instante de glória de cada um e é quando como no canto coral se ouvem agudos sibilantes.

Moser descobriu Clarice na universidade e afirma que a maneira com que ela aborda os grandes temas (Deus, a morte e a vida), é a característica que mais desperta a atenção do leitor americano e anteriormente só não foi mais bem reconhecida por causa das más traduções. Os livros atuais chegam com um projeto gráfico diferente no qual as capas juntas reproduzem uma foto de Clarice jovem e são apresentados elogios de personalidades literárias, como o vencedor do Nobel Orthan Parmuk: “Uma das mais misteriosas autoras do século XX.” E uma citação do jornal The New York Times: “A principal escritora latino-americana de prosa do século.”.

Trecho da carta de Pedro Almodóvar a Benjamin Moser

Esse livro (Um Sopro de Vida) provocou em mim um efeito similar ao dos primeiros romances que li do sul-africano J. M. Coetzee. Cada frase acumula tal quantidade de significados, é tão densa, rotunda e rica que eu preciso parar antes de sentir um impacto semelhante a trombar com uma parede (…)

O romance é recheado de frases memoráveis sobre a criação literária e a passagem do tempo, o desespero e a multiplicidade humana, incluindo a necessidade de se falar de si mesmo, a procura por um interlocutor e o fato de se encontrar isso dentro de si mesmo. Quero citar frases dela na edição em livro do roteiro de A Pele Que Habito.

Assinatura de Clarice Lispector – Site da Editora Rocco

Este ano, mas precisamente no dia 09 de dezembro, serão 35 anos sem Clarice Lispector no mundo e se ela estivesse viva, completaria 92 anos no dia seguinte (10) . Essa redescoberta da autora pelos americanos reafirma o quanto ela continua mais viva do que nunca, com suas personagens que possuem vida própria e invadem o imaginário das pessoas, mostra ainda que ela não mais pertence apenas à literatura brasileira, mas agora também a literatura universal. Tudo no mundo começa com um sim e o Estados Unidos da América deram um uníssono sim às obras de uma das autora mais brilhante do século XX.

(No silêncio do meu quarto, geralmente é assim que se descobre o mundo de Clarice Lispector e todas as suas personagens que invadem a mente e nunca mais nos libertam.  BC)



Em breve uma jornalista(com diploma). Cursou Letras na Universidade Federal do Amazonas(UFAM). Possui a síndrome da “Era de Ouro” e é apaixonada por filmes clássicos, cinema francês, Literatura e rock and roll. Adora Teatro, Ópera, Arquitetura, Artes plásticas, Moda, Dança e, acima de tudo, ama escrever. Atua em produção cultural e jornalística. É colunista e proprietária do Primeiras Impressões e do site Viva Cultura! Foi colaboradora do Blog 7em1 e Colunista no CineSplendor. Atualmente é Produtora Executiva na Tv Amazonas.


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