Não pude deixar de reproduzir este trecho de Dom Casmurro, que por si só, é engraçado:
Em caminho, encontramos o Imperador, que vinha da Escola de Medicina. O ônibus em que íamos parou, como todos os veículos; os passageiros desceram à rua e tiraram o chapéu, até que o coche imperial passasse. Quando tornei ao meu lugar, trazia uma idéia fantástica, a idéia de ir ter com o Imperador, contar-lhe tudo e pedir-lhe a intervenção. Não confiaria esta idéia a Capitu. “Sua Majestade pedindo, mamãe cede”, pensei comigo.
Não pude deixar de rir à imagem de um Bentinho, ainda moleque, pedindo ao Imperador para que interviesse perante sua mãe, na esperança de que não precisasse se tornar padre e que, assim, pudesse namorar Capitu.
Ainda mais assim: “Sua majestade pedindo, mamãe cede”…
Creio que não estarei mentindo se disser que cada um de nós já não sonhou com um momento em que alguém, supostamente mais poderoso, fala por nós aquilo que nós mesmos deveríamos.
Adoro a forma como Machado de Assis olha com riso para as peculiaridades humanas.
O resto do trecho é ainda mais delirante, com o imperador entrando na casa de Bentinho, com direito a “batedores e piquete de cavalaria”.
Depois de todo esse idílio, relata o personagem ao final do capítulo:
Tudo isso vi e ouvi. Não, a imaginação de Ariosto não é mais fértil que a das crianças e dos namorados, nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus. Consolei-me por instantes, digamos minutos, até destruir-se o plano e voltar-me para as caras sem sonhos dos meus companheiros.
Nossa imaginação, de fato, por vezes faz das soluções mais delirantes as mais simples. Somos uns bentinhos.









