Apressado, saiu do cupê. Estava ansioso, afinal de contas era tarde, já deveria estar ali há algum tempo. Pôs-se a andar rápido, como que se isso viesse a fazer qualquer diferença, mas vá lá entender. Quiçá para ele fazia.
Chegou ao portão, que era baixo, mas único com seus ferros retorcidos, demonstrando ser a casa de alguém com excelente bom gosto. Não podia ser diferente, ali morava seu amigo Palha e a esposa, Sofia. Tão logo pensa em bater palma, aparece-lhe uma criada convidando-o a entrar.
O convite que Sofia fizera dizia: “Rubião, venha jantar conosco”. Mas lá dentro surpreende-se; varias pessoas riam e se divertiam. Esperava algo diferente, queria algo recatado. Se bem que não ligou muito, alegrou-se logo ao entrar. Pois…
As senhoras casadas eram bonitas; a mesma solteira não devia ter sido feia, aos vinte cinco anos; mas Sofia primava entre todas elas.
Não seria tudo o que nosso amigo sentia, mas era muito. Era daquela casta de mulheres que o tempo, como um escultor vagaroso, não acaba logo, e vai polindo ao passar dos longos dias. Essas esculturas lentas são miraculosas; Sofia rastejava aos vinte e oito anos; estava mais bela que aos vinte e sete; era de supor que só aos trinta desse o escultor os últimos retoques, se não quisesse prolongar ainda o trabalho, por dois ou três anos.
Os olhos, por exemplo, não são os mesmos da estrada de ferro, quando Rubião falava com Palha, e eles iam sublinhando a conversação… Agora parecem mais negros, e já não sublinhavam mais nada; compõem logo as coisas, por si mesmos, em letra vistosa e gorda, e não é uma linha nem duas, são capítulos inteiros. A boca parece mais fresca. Ombros, mãos, braços são melhores, e ela ainda os faz ótimos por meio de atitudes e gestos escolhidos. Uma feição que a dona nunca pode suportar, – coisa que o próprio Rubião achou a principio que destoava do resto da cara, – o excesso de sobrancelhas, – isso mesmo, sem ter diminuído, como que dá ao todo um aspecto mui particular.
Traja bem, comprime a cintura e o tronco no corpinho de lã fina cor castanha, obra simples, e traz nas orelhas duas pérolas verdadeiras, – mimo que Rubião lhe deu na Páscoa. (…)
A parte acima destacada em itálico faz parte da atemporal obra Quincas Borba, de Machado de Assis, publicada pela primeira vez em 1891. Perceba a riqueza da descrição. Tantos detalhes em tão poucas linhas. O apurado e irônico senso de humor. A forma como brinca com as palavras.
A narração de uma linda e apaixonante mulher continua bastante atual. Afinal de contas, paixão não tem época. Mas a maestria machadiana extrapola o tempo não pela atemporalidade do tema, mas pela capacidade que tinha de descrever mantendo o leitor antenado, curioso.
Enfim, ele sabia quantas voltas podia dar sem cansar os olhos e mente de seus leitores. Portanto, vale a pena a observação: caso conheça alguém que não queira lê-lo e você não entenda as razões, tenha paciência.
O tempo é um escultor vagaroso. Para convencer, temos que saber como sublinhar a conversação, para futuramente compor logo as coisas e, então, construir capítulos inteiros. Assim, aquele aspecto mui particular do seu interlocutor, o pré-conceito*, irá vazar pelo ralo.
Se mesmo assim não adiantar, envie ao pré-conceituoso o link: 10 motivos para ler livros clássicos.
*pré – aquilo que vem antes.









