Ir ao cinema não é mais a mesma coisa que há alguns anos, mas eu continuo a gostar de ir.
Com o tempo aprendi a abstrair coisas como:
- conversas: tanto sobre o filme quanto por assuntos importantes como o último jogo do campeonato
- gente que atende o celular: das que falam baixinho achando que assim não incomodarão ou aquelas que nem se importam
- gente que faz ligações (sim, já vi isso): talvez precise contar para mãe que está vendo um filme incrível
- gente que chega depois da sessão começada: é o caso menos grave, mas também atrapalha o processo de imersão que é o cinema
A questão é que eu não gosto apenas do filme. Gosto de ir ao cinema.
Gosto dos cinco minutos antes do filme que, desde que ia ao cinema com meu pai, aprendi que eram os cinco minutos mais demorados da vida.
Gosto do noticiário (que não existe mais), gosto dos curtas (que não existem mais) gosto do Canal 100 (que não existe mais), gosto dos trailers.
Eu até aprendo aquelas musiquinhas instrutivas de segurança que vem antes de tudo isso.
É uma espécie de liturgia que prepara para o mergulho naquela história e naquelas imagens que virão a seguir. Mesmo um filme ruim se salva com tudo isso.
Uma música de José Miguel Wisnik expressa bem tudo isso:
A primeira vez, mamãe, que fui ao cinema
A primeira vez, mamãe, que eu fui ao cimena
Mergulhei de cabeça em toda aquela cena
Até mesmo você nunca mais foi a mesma
Mergulhei de cabeça e quase
Antes mesmo que as luzes todas se apagassemEu já estava assistindo um filme e nem sabia
Que era bem a visão que o tempo me daria
Uma tela enorme e vazia
Eu tive medo
Do que enxergaria ali mais tarde
Ou mais cedo
As poltronas frente à cena nua
Igreja sem deus
Adoravam as imagens numa
Arena cruel
Será que eu pensava assim
Que alguém seria imolado em sacrifício ali
Quem sabe eu?A primeira vez, mamãe, que eu fui ao cimena
Alterou totalmente o meu sistema
Embaralhou a solução e o problema
Alterou totalmente o quase
Me levou a fugir num vôo de kamikazeTinha em mim coisas que você nem imagina
Coisas muito mais baixo e muito mais pra cimaUma tela enorme e vazia
Eu tive medo
Do que enxergaria ali mais tarde
Ou mais cedo
As poltronas frente à cena nua
Igreja sem deus
Adoravam as imagens numa
Arena cruelSerá que eu pensava assim
Que alguém seria imolado em sacrifício ali
Quem sabe eu?
A balbúrdia do cinema é diferente até mesmo daquela retratada tão bem em Cinema Paradiso.
Eu desafio você a assistir esse filme sem chorar ou, pelo menos se emocionar, duas ou três vezes até a cena final.
Não é apenas uma história de amor, como o trailer tenta vender, mas é a história de amizade entre um menino e um velho e uma história de paixão pelo cinema, não pelo seu fazer mas também pelo seu assistir.
Cinema Paradiso mostra como todo barulho feito pelo público era porque ele se deixava envolver pelas histórias e pelos personagens, participando da história.
Hoje todo o mundo precisa de óculos 3D para que isso aconteça. Mas sem efeito. O óculos 3D é só uma maneira engenhosa de simular miopia, pois sem ele tudo fica embaçado e você só pode assistir a uma história (não poucas vezes chata) se o estiver usando.
A visão ficou 3D, mas a imaginação ficou 1D.
Eu ia contar aqui como fui aplaudido ao final da sessão de Moulin Rouge ao repreender algumas meninas que conversaram em voz alta o tempo inteiro ou como quase comprei uma briga com um engraçadinho que imitava o jeito chinês de falar dos personagens de O Clã das Adagas Voadoras, mas essas coisas não valem a pena. Como disse, aprendi a ignorá-las e passei a me divertir muito mais.
O importante é isso: eu ainda tive a chance de assistir a Indiana Jones com as pessoas torcendo pelo personagem de Harrisson Ford, como se ele, da tela, pudesse ouvir.
Acho até que ele ouvia. Agora não ouve mais.
Só escuta campainhas de celulares.









