Como as palavras soam e o que elas são de verdade, por Luís Fernando Verísimo

Sempre que eu escutava que uma pessoa era cheia de escrúpulos, imaginava que ela devia ter sérios problemas de pele e feridas por toda parte.

Mas, segundo o dicionário:

s. m.,
dúvida, hesitação de consciência sobre a bondade ou ruindade de um acto, inquietação de consciência;
remorso;
cuidado extremo, muita atenção;
meticulosidade;
grande susceptibilidade.

Do que se conclui que dizer que uma pessoa tem escrúpulos significa atribuir a ela dilemas éticos sobre os seus menores atos.

A Língua Portuguesa está cheia dessas palavras, que olham para um lado, mas fazem o cruzamento para o outro. Tipo Ronaldinho Gaúcho.

Um dos melhores textos que se aproveita dessa característica está no livro O Analista de Bagé, de Luís Fernando Veríssimo.

O nome é Palavreado, do qual cito um trecho:

Um dia chega a Cântaro um jovem trovador, Lipídio de Albornoz. Ele cruza a Ponte de Safena e entra na cidade montado em seu cavalo Escarcéu. Avista uma mulher vestindo uma bandalheira preta que lhe lança um olhar cheio de betume e cabriolé. Segue-a através dos becos de Cântaro até um sumário – uma espécie de jardim enclausurado – onde ela deixa cair a bandalheira. É Lascívia. Ela sobe por um escrutínio, pequena escada estreita, e desaparece por uma porciúncula. Lipídio a segue. Vê-se num longo conluio que leva a uma prótese entreaberta. Ele entra. Lascívia está sentada num trunfo em frente ao seu pinochet, penteando-se. Lipídio, que sempre carrega consigo um fanfarrão (instrumento primitivo de sete cordas), começa a cantar uma balada. Lascívia bate palmas e chama:

- Cisterna! Vanglória!

São suas escravas que vêm prepará-la para os ritos do amor. Lipídio desfaz-se de suas roupas – o sátrapa, o lumpen, os dois fátuos – até ficar só de reles. Dirige-se para a cama cantando uma antiga minarete. Lascívia diz:

- Cala-te, sândalo. Quero sentir o seu vespúcio junto ao meu passe-partout.

Atrás de uma cortina, Muxoxo, o algoz, prepara seu longo cadastro para cortar a cabeça do trovador.

A história só não acaba mal porque o cavalo de Lipídio, Escarcéu, espia pela janela na hora em que Muxoxo vai decapitar seu dono, no momento entregue ao sassafrás, e dá o alarme. Lipídio pula da cama, veste seu reles rapidamente e sai pela janela, onde Escarcéu o espera.

Lascívia manda levantarem a Ponte de Safena, mas tarde demais. Lipídio já galopam por motins e valiums, longe da vingança de Lascívia.

Há duas mandrágoras – antiga medida de tempo – que eu procurava este texto. Como diziam, é um trabalho para se imprimir e guardar na bujarrona a sete chaves. Se quiser, mande para seu ciclorama de amigos ou esconda nas coxias mais escondidas de seu bolso.

E você? Conhece alguma palavra que sugere outro siginificado que não o verdadeiro? Estou certo que é possível fazer uma lista que ocuparia pantagruéis e pantagruéis de papel. Fique à vontade para defenestrar seu comentário na caixinha abaixo. Eu ficarei lourival da vida.

Postado em Minhas leituras.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

Deixe seu comentário