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Como as palavras soam e o que elas são de verdade, por Luís Fernando Verísimo

7 de agosto de 2008 | Publicado na Categoria Trechos de livros comentados | 10 Comentários »

Sempre que eu escutava que uma pessoa era cheia de escrúpulos, imaginava que ela devia ter sérios problemas de pele e feridas por toda parte.

Mas, segundo o dicionário:

s. m.,
dúvida, hesitação de consciência sobre a bondade ou ruindade de um acto, inquietação de consciência;
remorso;
cuidado extremo, muita atenção;
meticulosidade;
grande susceptibilidade.

Do que se conclui que dizer que uma pessoa tem escrúpulos significa atribuir a ela dilemas éticos sobre os seus menores atos.

A Língua Portuguesa está cheia dessas palavras, que olham para um lado, mas fazem o cruzamento para o outro. Tipo Ronaldinho Gaúcho.

Um dos melhores textos que se aproveita dessa característica está no livro O Analista de Bagé, de Luís Fernando Veríssimo.

O nome é Palavreado, do qual cito um trecho:

Um dia chega a Cântaro um jovem trovador, Lipídio de Albornoz. Ele cruza a Ponte de Safena e entra na cidade montado em seu cavalo Escarcéu. Avista uma mulher vestindo uma bandalheira preta que lhe lança um olhar cheio de betume e cabriolé. Segue-a através dos becos de Cântaro até um sumário – uma espécie de jardim enclausurado – onde ela deixa cair a bandalheira. É Lascívia. Ela sobe por um escrutínio, pequena escada estreita, e desaparece por uma porciúncula. Lipídio a segue. Vê-se num longo conluio que leva a uma prótese entreaberta. Ele entra. Lascívia está sentada num trunfo em frente ao seu pinochet, penteando-se. Lipídio, que sempre carrega consigo um fanfarrão (instrumento primitivo de sete cordas), começa a cantar uma balada. Lascívia bate palmas e chama:

- Cisterna! Vanglória!

São suas escravas que vêm prepará-la para os ritos do amor. Lipídio desfaz-se de suas roupas – o sátrapa, o lumpen, os dois fátuos – até ficar só de reles. Dirige-se para a cama cantando uma antiga minarete. Lascívia diz:

- Cala-te, sândalo. Quero sentir o seu vespúcio junto ao meu passe-partout.

Atrás de uma cortina, Muxoxo, o algoz, prepara seu longo cadastro para cortar a cabeça do trovador.

A história só não acaba mal porque o cavalo de Lipídio, Escarcéu, espia pela janela na hora em que Muxoxo vai decapitar seu dono, no momento entregue ao sassafrás, e dá o alarme. Lipídio pula da cama, veste seu reles rapidamente e sai pela janela, onde Escarcéu o espera.

Lascívia manda levantarem a Ponte de Safena, mas tarde demais. Lipídio já galopam por motins e valiums, longe da vingança de Lascívia.

Há duas mandrágoras – antiga medida de tempo – que eu procurava este texto. Como diziam, é um trabalho para se imprimir e guardar na bujarrona a sete chaves. Se quiser, mande para seu ciclorama de amigos ou esconda nas coxias mais escondidas de seu bolso.

E você? Conhece alguma palavra que sugere outro siginificado que não o verdadeiro? Estou certo que é possível fazer uma lista que ocuparia pantagruéis e pantagruéis de papel. Fique à vontade para defenestrar seu comentário na caixinha abaixo. Eu ficarei lourival da vida.

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10 Comentários para “Como as palavras soam e o que elas são de verdade, por Luís Fernando Verísimo”

  1. JB - 7 8 2008 às 11:49

    Batráquio!
    Sempre achei que fosse um xingamento. Depois que descobri o que é, esqueci e agora sempre que ouço lembro das guelras do peixe.
    Ex.: “Seu Batráquio!” ou “A baleia não tem batráquios pois é um mamífero”
    Guelras mesmo já é um palavrório. Parece uma pessoa excêntrica.
    Ex.: “Ele é um belo de um guelras, isso sim!”

  2. Anna C. - 7 8 2008 às 12:39

    E “defenestrar”? Pra mim, soa como uma super-ultra-puxa faxina, daquelas de tirar encardido até da alma. Eu sei que significa “atirar algo/alguém da janela”. Mas caramba, soa tão bem pra uma faxina elefantina!

  3. Tina Lopes - 7 8 2008 às 14:16

    Cabotino. Toda vez que penso nessa palavra , tenho que consultar o dicionário. Não é nem que pareça significar algo: pra mim, não quer dizer nada.

  4. Caminhante - 7 8 2008 às 23:13

    Tem um remédio homeopático chamado Pulsatilla que eu falava intencionalmente como se fosse Putzlatila.

  5. Alessandro Martins - 9 8 2008 às 11:58

    Caminhante.

    Só tenho uma palavra quanto a isso:

    putz.

    Beijos do Ale…

  6. Alessandro Martins - 9 8 2008 às 12:00

    Tina,

    cabotino é uma espécie de balde de madeira usado nos poços no interior. Mas a maior parte das propriedades já adota baldes de plástico ou de alumínio. Os cabotinos já estão nos museus e acho que no bosque João Paulo II você encontra um bom exemplar, numa daquelas casas antigas.

    Abraços!

  7. Alessandro Martins - 9 8 2008 às 12:01

    Anna,

    seu comentário é a defenestração-mor.

    Beijos do Ale.

  8. Alessandro Martins - 9 8 2008 às 12:02

    JB,

    batráquio é o nome daquele vidrinho verde dos niveladores de pedreiro. À bolha que fica dentro dele chamamos de tonsura. Se a parede não se encontra nivelada ele precisa usar uma ferramenta chamada serifa.

    Abraços do Alessandro!

  9. JB - 12 8 2008 às 10:05

    http://www.dicionarioinformal.com.br/buscar.php?palavra=batr%E1quio

    Segundo o link acima é um tipo de sapo. Tá, que é um dicionário informal, mas se olhar aqui: http://images.google.com/images?q=batr%C3%A1quios&hl=en&sourceid=mozilla-search&start=0 você verá que só retorna sapos.

    E ainda no significado, o significado da gíria até que tem a ver com meu conceito imaginado…

  10. Alessandro Martins - 16 8 2008 às 9:52

    JB,

    é sapo mesmo.

    Abraços do Ale.

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