Livros holandeses reaproveitados para leitores brasileiros

Juliette Fernandes vive há quase quatro anos em uma pequena e linda cidade da Holanda que se chama Zundert, cidade inspiradora local de nascimento do brilhante pintor – e pai do expressionismo – Vincent Van Gogh. Os livros sempre fizeram parte de sua vida.

Atualmente Juliette trabalha na Biblioteca Central de Breda, uma cidade com 170 mil habitantes e 10 bibliotecas públicas. A Biblioteca Central de Breda é a biblioteca matriz, onde se concentram os serviços de administração das outras bibliotecas. Na Biblioteca Central funcionam as seções responsáveis pelo setor financeiro, pela compra dos livros, pela distribuição deles para as demais bibliotecas, a inserção dos livros no sistema e outros serviços relativos ao funcionamento das bibliotecas. Desde o início de seu trabalho, Juliette impressionou-se com a quantidade de livros novos que chegam todas as semanas, sem interrupção, para serem inseridos no acervo das 10 bibliotecas. Esses livros chegam todos com capas duras para terem uma vida longa.

Como uma boa apreciadora de livros, e até mesmo pelo grande contato que tem com eles por conta das atividades que exerce na Biblioteca Central de Breda, Juliette gosta de apreciar as capas, admirar cada um dos livros e ler. Segundo ela os livros mais antigos e em perfeito estado de conservação são colocados à venda na própria biblioteca por um preço simbólico de 1,00 € (um euro) os romances e livros técnicos, e 0,50 € (cinquenta centavos) os infantis.

A primeira vez que Juliette viu um carrinho abarrotado de livros infantis que seriam destinados à venda, a brasileira encantou-se e desejou ter uma varinha de condão e num toque de mágica traduzir todos aqueles livros do holandês para o português para enviá-los ao Brasil. Os livros estavam em perfeito estado de conservação eram bonitos, atrativos aos olhos, e também tinham capa dura, o que a fez imaginar que ainda durariam muitos anos nas bibliotecas comunitárias brasileiras, destino que ela gostaria de dar a eles.

Aí veio a grande ideia, aquela ideia que fará toda a diferença. Juliette concluiu que os livros infantis sem texto, aqueles que só têm as ilustrações para fomentar a imaginação das crianças poderiam ser levados para o Brasil e compreendidos por quem tivesse acesso a eles. E os livros com pequenos textos, para crianças até 6 anos de idade, ela poderia traduzir, imprimir as frases em português e colar por cima das frase em holandês, fazendo um trabalho de reaproveitamento, e assim transformaria livros que ainda poderiam ser utilizados por incontáveis crianças em sua terra natal.

Iluminada por aquela ideia, Juliette conversou com sua chefe sobre a possibilidade de enviar esses livros ao Brasil. Contou sobre a realidade vivida na Holanda ser muito diferente do nosso país. Explicou sobre as muitas bibliotecas comunitárias e orfanatos em comunidades carentes, que vivem de doações e com certeza iriam adorar receber estes livros. Obtida a autorização, Juliette dedicou-se com esforço em não perder esses livros por conta do idioma tão diferente do português.  Por iniciativa própria passou a traduzir vários livros infantis, dedicando-se a um num trabalho artesanal, de colagem e habilidade manual, feito com muito amor, e grande disposição. Nesse processo de tradução e colagens, conseguiu traduzir do holandês para o português 60 livros.

Como Juliette lia sempre o Blog da Companhia das Letras, lá encontrou o Livros e Afins e através dele chegou ao blog da Biblioteca Comunitária do Sitio Vanessa e à Freguesia do Livro (projeto de Josiane Bibas e Angela Duarte), e após ler sobre os projetos que estão iniciando separadamente, mas na mesma cidade, Juliette chegou à conclusão que os livrinhos estariam em boas mãos e cumpririam o seu papel que é o de desenvolver o “vírus” da leitura nas crianças, e enviou uma caixa de livros traduzidos do holandês para o português para Curitiba.

A criadora dessa obra de reaproveitamento de livros holandeses para serem utilizados no Brasil acredita que com as devidas orientações às crianças mais curiosas que por acaso queiram puxar o adesivo com as “legendas” dos livros, tem a certeza que se bem cuidados vão durar mais uma década, inclusive aqueles livros com mais de 10, 15, 20 e até 25 anos em perfeito estado.

A ideia da transformação, o conceito do “reduza, recicle, reutilize” alcançou outro nível nas mãos dessa brasileira, funcionária de biblioteca e grande apaixonada por leitura. Inspirada pelo amor aos livros, e pela abundância deles em sua rotina, ela resolveu quebrar a barreira do idioma e nos mostrar que é possível sim, fazer uma boa ideia acontecer na prática, com simplicidade e esforço, beneficiando pessoas que estão muitos quilômetros distantes. Isso é interdependência.

“Todo mundo tem um talento que pode dividir com outras pessoas e somar na construção de um mundo melhor, e se elas soubessem como isso deixaria o mundo delas mais legal começariam hoje mesmo. Por acreditar com toda a forca da minha alma que o hábito da leitura pode transformar cabeças e vidas e que este hábito, quando adquirido na infância, faz toda a diferença na vida de uma pessoa é que faço a minha parte e sinto um imenso prazer nisso”, finaliza Juliette.

O “antes” e “depois” com o trabalho de reaproveitamento dos livros, as colagens feitas por Juliette Fernandes com a tradução do holandês para o português podem ser vistas aqui nesse Flickr.

Postado em Bibliotecas , Livros e Afins.

Sobre o autor

Daniele Carneiro

Idealizadora e coordenadora da Biblioteca Comunitária Sítio Vanessa.

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