Livros de auto-ajuda são bons; saiba por que nunca funcionarão
7 de agosto de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins | 41 Comentários »Nada de errado com os livros de auto-ajuda. Eles são bons.
Claro, não entro aqui no mérito das qualidades literárias de seus autores. Não espero encontrar entre eles nenhum Jorge Luis Borges.
Também não quero despencar no lugar-comum dos que dizem que os livros de auto-ajuda são feitos para auto-ajudar somente o próprio escritor.
O que quero dizer é que a maioria dos livros de auto-ajuda cumpre o que promete. Quer dizer: entregam o produto.
Se você abrir um, por curiosidade, vai observar que ele estará recheado com conselhos bem práticos sobre como tomar as rédeas de algum aspecto da própria vida.
A idéia é boa. Afinal, as pessoas sempre terão problemas em um ou outro campo de sua vida.
E ninguém melhor para ajudar você que você mesmo. O autor provavelmente passou por coisas semelhantes e, no livro, conta como procedeu para atingir seus objetivos de superação.
Se o leitor aplicar aquelas técnicas, poderá de fato melhorar financeira, economica ou amorosamente, dependendo da abordagem do livro.
Até aí, então, estamos no que compete ao autor e ao texto. Estou supondo que por trás dessas duas palavras há uma pessoa bem intencionada, que não pretende mentir ou enganar.
Agora vamos à venda. E à compra.
A venda de um livro desses é feita como a de um elixir para todos os males. E o pobre público desse tipo de obra o compra como se a simples leitura fosse transformar a sua vida.
E aí mora todo o problema desse segmento.
Simplesmente não faz sentido.
Mas antes de falar sobre isso, queria falar sobre os livros que ensinam artes marciais.
Antigamente havia dúzias e dúzias deles, vendidos pelo correio ou nas bancas de jornal, que supostamente ensinariam artes marciais. Essas lutas ainda eram um tanto misteriosas por aqui no Brasil, cheias da mística de Bruce Lee e daqueles filmes mal dublados.
Cheguei a folhear alguns deles quando era criança. As fotos eram mais ou menos detalhadas, mas era difícil entender como se passava de uma posição para a outra. Era tudo estanque e nem as legendas facilitavam.
Um sujeito aparecia com uma faca e o outro, em uma seqüência aparentemente desconexa, o desarmava, derrubava e lhe quebrava o braço.
Os livros de auto-ajuda são mais ou menos isso. Se você aplicar aquela técnica você vai mesmo desarmar, derrubar e quebrar o braço de seu problema.
Mas só olhando para as fotos você não sabe como passar de um passo para o outro. Terá sorte se no meio do caminho não quebrar o próprio braço.
Em Sidarta, de Herman Hesse, quando o personagem central encontra o Buda, diz a ele que não o seguirá. Pois cada pessoa encontra o seu caminho seguindo o próprio caminho. É um truísmo, mas só eu, e mais ninguém, posso encontrar os meios de quebrar o braço de meus problemas. Buda concordou. Pelo menos no livro.
Se nem mesmo um mestre pode ensinar verdadeiramente um caminho, que dirá um livro.
Mas não é preciso ir tão longe nas filosofias de boteco.
De nada adianta o conselho ser dado – um bom conselho – e eu como leitor não executá-lo. Ou praticá-lo poucas vezes durante apenas uma semana depois de ter acabado a leitura.
Talvez o autor tenha esquecido de dizer que, para produzir algum efeito, o que ele ensina precisa ser aplicado com disciplina e constância ao longo dos dias, das semanas, meses e anos.
Disciplina e constância ao longo de um grande período.
Duas coisas que alguém que compra um livro – vendido como um elixir de resultado imediato – terá uma tendência a não ter. Mesmo coisas aparentemente simples – como pensamento positivo, leis de atração e afins – exigem essas duas qualidades.
E normalmente pessoas que já as têm por natureza, não precisam de livros de auto-ajuda.
O público dos livros de auto-ajuda costuma ser aquele que não conseguirá executar com efetividade as técnicas neles ensinadas.
Por isso, esses livros só atingirão o objetivo da venda. Não o de sua função verdadeira, que seria ajudar pessoas a se auto-ajudar.
