O Livro dos Seres Imaginários, de Jorge Luis Borges, tem a particularidade de estar armazenado na seção de Ciências Sociais da Biblioteca Pública do Paraná. Bem, não sei onde ele está na biblioteca de sua cidade, mas até a última vez que eu fui na da minha, ele estava ali.
É um livro fabuloso em que o argentino lista e descreve animais e outros personagens imaginários de mitologias de diversas culturas.
Uma de minhas passagens preferidas é aquele em que ele descreve dois animais metafísicos. O meu amigo Marco Carvalho, estudioso do Sámkhya, um dos dárshanas (pontos de vista) do hinduísmo muito possivelmente também venha a gostar:
Descartes professou a doutrina das idéias inatas; Etienne Bonnot de Condillac, para refutá-lo, imaginou uma estátua de mármore, organizada e conformada como o corpo de um homem, e residência de uma alma que nunca teria percebido ou pensado. Condillac começa por atribuir um só sentido à estátua: o olfativo, talvez o menos complexo de todos. Um cheiro de jasmim é o princípio da biografia da estátua; por um instante, haverá unicamente esse cheiro no universo, melhor dizendo, esse cheiro será o universo, que um instante depois, será cheiro de rosa, e depois de cravo. Que na consciência da estátua haja um cheiro único, e já teremos a atenção; que perdure um cheiro quando o estímulo tiver cessado e teremos a memória; que uma impressão atual e outra do passado ocupem a atenção da estátua e teremos a comparação; que a estátua perceba analogias e diferenças, e teremos o juízo; que a comparação e o juízo ocorram novamente, e teremos a reflexão; que uma lembrança agradável seja mais vívida que uma impressão desagradável, e teremos a imaginação. Engendradas as faculdades do entendimento, as da vontade surgirão depois: amor e ódio (atração e aversão), esperança e medo. A consciência de ter passado por diversos estados dará à noção abstrata de número; a de ser cheiro de cravo e e ter sido cheiro de jasmim, a noção do eu.
Em seguida o autor atribuirá a seu homem hipotético a audição, o paladar, a visão e por fim o tato. Este último sentido lhe revelará que existe o espaço, e que no espaço ele estará num corpo; os sons, os cheiros e as cores, antes dessa etapa, haviam lhe parecido simples variações ou modificações de sua consciência.
Li rapidamente este livro enquanto esperava uma amiga aparecer em um lançamento de uma revista de literatura aqui em Curitiba. Como, por fim, ela não apareceu, tive a oportunidade de lê-lo até o fim e selecionar alguns dos trechos mais interessantes para mostrar para você.









