Como você se relaciona com o livro?
24/07/2009Hoje um leitor da Jacquelline Lafloufa, chamado Camilo Zahar (aparentemente nenhuma ligação com a editora), fez um comentário bastante pertinente, no blog Pensamenteando, do qual extraio o trecho que mais me interessa:
O Brasil ainda é um país sub-desenvolvido. Em minha área de trabalho (urbanismo) e outras, temos provas mais que concretas que vivemos em atrasos claros. Um deles é o problema da leitura. Não me surpreende que temos destaque em acessos à internet, mundialmente. De alguma maneira teríamos que extravasar nossa fome de conhecer e trocar. Um professor quando dá um livro para ler, tem o constrangimento de saber que os alunos terão que comprá-los. Nossas bibliotecas precisam ser revitalizadas, muita gente guarda livros em casa e não empresta ou doa. Dificilmente lemos o mesmo livro duas vezes. Muitas ações podem ser tomadas para estimular a leitura. (Leia o comentário completo)
Assim como meu amigo Paulo Polzonoff Jr., sou partidário da liberdade. A ética só é possível a partir do momento em que as pessoas podem fazer as coisas. Se fazemos o certo porque o errado nos é proibido, não há nenhum valor nisso.
O sujeito pode inclusive guardar livros que nunca mais abrirão ou que nem chegarão a ler. Isso perto de outras coisas que um ser humano é livre para fazer – ser excessivamente estúpido por exemplo – não é nada.
Mas ainda assim, me pergunto se não seria muito mais nobre se desapegar de livros nas seguintes condições:
- livros que não são edições raras
- livros que não tem nenhum apelo afetivo (por exemplo, com uma dedicatória de um amigo ou dado por uma pessoa especial em uma ocasião especial)
- livros facilmente encontráveis em sebos, bibliotecas, livrarias (na internet ou não)
- livros de que você não gostou: pode ser que alguém goste
- livros de que você gostou e que gostaria que outros lessem
Dê uma olhada na sua prateleira. Estou certo de que há livros assim por ali. A biblioteca de sua vizinhança ou um amigo pode precisar deles mais do que a sua estante.
Pessoalmente, desconfio de uma pessoa que se gaba do número de livros que tem guardados. É o primeiro sinal de que talvez ela não tenha entendido nada do que leu. Talvez nem tenha lido.





9 comentários
Exatamente. Existem alguns livros que não há razão para serem mantidos em uma estante, juntando poeira e amarelando as páginas. Seria muito mais útil se fosse passado para outra pessoa.
Ultimamente estou terminando de ler um livro muito interessante. Não é um livro de cabeçeira, mas um do tipo inspirador. Para se ler uma vez e ficar empolgado para lançar seu próprio negócio. O que devo fazer após terminar? Passar o livro adiante! Contaminar (no bom sentido) outras pessoas com as idéias lançadas. Vale a pena.
Eu não sei se ainda existe, mas tempo atras tinha visto uma rede social especifica para troca de livro pelos correios. Uma boa idéia para quem quiser colocar em pratica a sugestão deste post.
Eu concordo com tudo o que está sendo dito por aqui, sim. Mas fico pensando, que talvez algumas pessoas gostem de ter uma biblioteca pessoal, de saber que seus livros queridos estão por ali, tê-los à mão para a releitura ou não, apenas para folhear de tempos em tempos, quiça deixar para os filhos, netos… Também há os que têm apego aos livros: não são esses os chamados bibliófilos?
Então, sou da seguinte opinião: quem quiser doar seus livros (sobretudo os que espelham as condições enumeradas) e fomentar a leitura mundo afora, por iniciativa própria, ótimo, excelente, mas quem quiser ser egoísta com seus livros, idem.
O que, de verdade, fomenta a leitura é quando a criança vê um adulto lendo. Comigo foi assim, eu sempre via os adultos da minha casa lendo e a minha criança também quis conhecer e experimentar essa atividade solitária e preciosa: e nunca mais parou. ;-D
Ah, o verdadeiro leitor, ele acha os livros estejam onde estiverem…
Cada um faz o que quiser com seus livros. Doar ou não, isso não muda a falta do hábito de leitura. Acho que foi aqui no blog que li que em Buenos Aires existem mais livrarias do que no Brasil inteiro. Isso aqui é mesmo um país subdesenvolvido.
Esse texto me levou a refletir sobre minha relação com meus livros.
Acho absolutamente correta a abordagem feita no escrito. Certamente seria muito mais nobre e importante passarmos nossos livros para frente com o fim de que outras pessoas também pudessem beber na mesma fonte de conhecimento que nós.
O problema é que tenho uma relação diferente com meus volumes. Não consigo me despreender deles. Tenho ciúmes, não gosto de emprestar, tenho cuidado enorme, fico revoltado quando alguma folha amassa e procuro, com frequencia, arrumá-los na estante.
Talvez eu seja um bibliógrafo. O fato é que não me sinto a vontade para me desfazer das minhas obras.
Por muitas vezes penso que meus futuros filhos, ao crescerem rodeados por livros, podem passar a ter, também, paixão pela leitura. Ao menos assim espero.
Incentivo a todos a passarem seus livros adiante. Parece-me uma atitude nobre. Mas, confesso, ter uma biblioteca pessoal me deixa em paz comigo e me faz bem. Meus livros são parte de mim. Não consigo deles me desfazer.
Abraços.
Minha esposa vive pegando no meu pé para que eu dê destino algumas dezenas de livros e centenas de quadrinhos que guardo em casa. Tenho uma relação passional com eles, mesmo que nunca mais tenha lido a maioria, mesmo com aqueles quadrinhos cujas histórias são péssimas mas eu gosto do desenho…
Gosto do cheiro do papel, do farfalhar das páginas, de pegar aleatoriamente um exemplar, abrir em uma página qualquer e ler trechos.
Mas confesso que minha casa já está sem espaço e continuo comprando livros e quadrinhos, embora em menor quantidade (traduzindo: tô ganhando pouco).
Acho que tá na hora de fazer isso que você sugeriu, Alexandre: doar, compartilhar, permitir que outra pessoas tenham acesso à leitura. Tirando aqueles dentro dos critérios óbvios que vc listou (+ os técnicos), acho que uma biblioteca municipal que fica pertinho da minha casa vai ficar feliz daqui a algumas semanas.
Grande abraço.
O hábito de guardar livros, no meu caso, ocorre porque sempre penso que vou precisar consultá-los depois. Acho que com a maioria das pessoas é assim.
Eu me desfaço dos livros que não gostei e dos que tenho certeza que não vou mais ler. Os que gostei, fico para mim, mas tenho um grupo de pessoas do meu trabalho que os empresto, são pessoas que confio, cuidadosas e que se não devolverem poderei pedir de volta. Não consigo imaginar meus livros lá na estante, abandonados por anos e anos, eles têm que circular, mas isso não significa que vou me desfazer deles. Tenho ciúmes dos meus livros sim, mas isso não significa que não posso ficar por um tempo longe deles, enquanto estão sendo lido por pessoas que também gostam de livros.
Tbm sou da opinião de Thássius, Ana Lucia e Fabrícia. No entanto, se realmente não gosto de um livro, eu doou, como já fiz com vários livros que comprei achando que valia a pena, e acabei me decepcionando.
Um dia desses, troquei, com uma leitora do Rio Grande do Sul, o exemplar do livro “Persuasão”, de Jane Austen, por ser um livro que não é fácil encontrar em qualquer biblioteca, até para achá-lo em alguma livraria é complicado. Estava tão empolgada por esse livro, que quando li, me decepcionei, achei o pior livro dela. Então, o coloquei no site “Trocando livros”, e em dois dias essa leitora o quis.
Esse não é o único caso, há livros lá em casa que quero trocar, pq nem sempre vale a pena levar para as bibliotecas. Em 2005, houve uma grande polêmica aqui em Pernambuco, na única Biblioteca Pública do Estado, em que vários livros estavam sendo descartados (na época, eu era estagiária de lá e sei muito bem do que vi lá, mas não vem ao caso comentar, pq nem sempre as pessoas querem ouvir ou vão acreditar na minha visão). Até hoje, fico na dúvida se vale a pena levar um livro para lá, sabendo que um dia ele poderá ser descartado na categoria “livros que possuem muitos exemplares repetidos”. Tento trocar com amigos (que não é fácil) ou sites (que agora está se tornando mais difícil ainda). Sebos, várias vezes, se recusam!!! Já tentei trocar dois livros da série “Plenos Pecados” em um sebo e para minha grande decepção, o dono disse que não precisava. Os levei para a Biblioteca dos Trilhos, na estação do Metrô Recife, e a atendente só faltou me abraçar e se questionava pq eu estava doando esses livros se são tão raros de se encontrar!!! Eu disse simplesmente que não gostei e que não estava a fim de tê-los ocupando espaço na minha estante. Comprei querendo fazer a série, mas esses dois volumes, fora o da “Preguiça”, são os piores, na minha opinião.
Eu penso assim, se não gosta, doa, troca, vende, dê uma finalidade útil para este livro. Talvez vc encontre alguém que tenha a opinião diferente da sua e se apaixone pelo livro.
Se gosta, mesmo que só vá ler uma vez (o que não é o meu caso…), deixe-os lá, ou então, vc pode até mesmo fazer uma biblioteca comunitária com eles, emprestando entre seus amigos e conhecidos de confiança (que vão devolvê-los), como eu faço.
Alessandro Martins,
Quando escrevi o comentário no Blog da Jacquelline estava mais focado no estímulo à leitura que poderíamos ter no Brasil, estou longe de ser um desapegado de livros. Concordo com os comentaristas e com seu post, quem gosta de guardar tal livro tem o direito de fazê-lo. Cresci numa família em que todos tinham uma estante de livros na sala de estar de suas casas.
Num curso que dou eu estimulo os alunos a trocarem os livros que eles já leram, criando numa biblioteca circulante – funciona parcialmente, pois nem todos gostam de ler livros usados. Existe ainda o bom hábito de se rabiscar a borda do livro com algum comentário ou grifar uma ou outra frase (conversando com o livro).
Eu mesmo doei vários livros meus para esta “biblioteca” dos alunos, menos aqueles que eu não dôo nem a pau, rs. Eu acho que faço isso por causa da velha mania de que um dia o livro vai deixar de ser editado, como de fato era normal. Quando gosto do livro, para mim ele passa a ter um grande valor, como uma parte do corpo. Desapegar-se é uma coisa que dá trabalho.
Minha mãe morreu rescentemente e meu pai desovou os livros dela para doação. Fiquei com alguns para ler, neste final de semana comecei um. Minhas irmãs também pegaram outros e o restante foi para a aliança francesa. No final, a gente tem que também buscar coisas novas para ir envelhecendo entre uma página e outra.
Abs