Não sou muito de efemérides. Também não acredito muito em que ter um dia ou um mês do livro seja coisa suficiente para estimular a leitura.

Mas se é para marcar a data, quero celebrar não a coisa – o livro -, mas as pessoas para as quais o livro – a coisa – é mera ferramenta de ligação: o autor e o leitor.

O livro – assim como os blogs -, meu amigo, minha amiga, são meros instrumentos que interligam duas humanidades, duas individualidades. São assim, a possibilidade de conhecer o outro e – através do outro – conhecer a si.

Sem instrumentos como os livros, a vida seria muito solitária e muito miserável. Existem outros instrumentos que proporcionam tal milagre – o da aproximação entre o eu e o você - , mas não me ocorre outro, no momento, que tenha transportado tal número de informações, emoções, sabedoria ao longo de tamanho tempo, tamanho espaço. Esse ainda está por vir e, se já veio, ainda terá de passar pelo teste dos milênios.

Para quantos não foi um consolo saber da existência de um Raskólnikov ou de um Quixote, ainda que na imaginação de um russo ou de um espanhol, ambos distantes nos séculos e nos quilômetros?

No entanto, o livro, antes objeto de prazer ou mesmo de conforto, vem sendo usado como instrumento de tortura. Se antes, seus autores eram atirados à fogueira junto com suas obras – por serem reveladoras -, agora as páginas são colocadas no fogo brando do esquecimento, associadas a momentos desprazerosos, às duras cadeiras da escola, às tantas coisas que aprendemos e que não usaremos.

Encontrei no blog Aprendiz de Escritor um decálogo muito interessante feito pelo escritor Daniel Pennac. Os direitos do leitor:

  1. O direito de não ler.
  2. O direito de pular páginas.
  3. O direito de não ler um livro inteiro, até o final, de capa a capa.
  4. O direito de reler, quantas vezes quiser.
  5. O direito de ler qualquer coisa, não importa o quê.
  6. O direito de acreditar nos livros.
  7. O direito de ler em qualquer lugar, não importa onde.
  8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali, pulando de livro em livro.
  9. O direito de ler em voz alta e de contar histórias.
  10. O direito de não falar do que leu

Eu gostaria que alguém, um dia, me mostrasse algo que é feito por obrigação, sem um pingo de entrega espontânea, e com prazer ao mesmo tempo. Meu caro: isso não existe.

Não é à toa que o direito de não ler está em primeiro no decálogo: afinal, como uma atividade que deveria ser a expressão da liberdade poderia ser essa expressão se em sua essência existisse uma obrigatoriedade escravizante? Não há, não deve haver, tal obrigatoriedade.

E o decálogo se encerra com o fantástico direito de não se falar do que se leu: às vezes o livro afirma coisas tão pessoais e intransferíveis que se, por um lado, dizer o que os outros esperam que se diga a seu respeito seria trair as próprias convicções – leia-se: mentir -, por outro, dizer o que realmente se pensou e se sentiu durante a leitura seria se submeter à violação dos segredos mais íntimos. Estamos aqui entre a mentira e a violência. Alguns chamam de interpretação de texto.

Certas leituras são de lenta assimilação. Sou testemunha de que certas leituras levam anos e de que certos livros lêem você e não o contrário, como um espelho do avesso.

Finalmente, o nosso amigo fecha com outra citação de Pennac, que busca explicar a razão dos livros. Muito, muito, muito bonito:

O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vive em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só. Esta leitura é para ele uma companhia que não ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. Ela não lhe oferece qualquer explicação definitiva sobre seu destino, mas tece uma trama cerrada de conivência entre a vida e ele. Ínfimas e secretas conivências que falam da paradoxal felicidade de viver, enquanto elas mesmas deixam claro o trágico absurdo da vida. De tal forma que nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver. E a ninguém é dado o poder para pedir contas dessa intimidade.

Como é bom encontrar, no infinito do tempo e do espaço, alguém que pensa tão parecido com a gente. É o milagre, a ilusão, a verdade, a doçura que, até hoje, tem sido proporcionada pelos livros.

E, se outro instrumento proporcionar tal possibilidade, que venha. Será bem-vindo.

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