Recebo dos mais diversos rincões da internet a notícia de que o Ministério da Educação planeja banir o livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato, por possuir conteúdo preconceituoso. Ao ler a notícia, na verdade, fiquei admirado por ele não estar sendo banido por tratar de caçadas ou outro motivo ecológico.

  • Sobre isso leia também: O Equivocado Ataque ao MEC por causa do veto à obra de Monteiro Lobato. Dica do leitor Marcos Faria. A interjeição do título, no entanto, permanece a mesma. E DAÍ? Considere-se que as ressalvas feitas pelo MEC são óbvias, o mínimo que se espera de um trabalho educacional sério: a contextualização da obra e sua efetiva leitura em consequência

Sinceramente, esse tipo de acontecimento nem me preocupa mais ou causa consternação.

As escolas e professores, com algumas exceções, abdicaram de influenciar o gosto e o hábito de leitura dos estudantes há muito tempo. Aliás, basta um livro estar na lista de leitura obrigatória para que caia em desgraça, no que diz respeito às preferências juvenis.

Quem sabe, sendo proibido, o livro volte a ser sucesso. Crianças adoram coisas proibidas.

O livro foi escrito no século passado e, segundo algumas interpretações, teria sentidos raciais negativos. Me admira se não tivesse. Nesse caso, essa obra tem sorte de seu autor não ter abordado temas que envolvessem sexualidade, por exemplo.

Supondo que ele não seja retirado da circulação das carteiras escolares, cabe à escola e ao professor a obrigação de contextualizar a leitura em um tempo e em uma situação social. Coisa que com essa medida, o Ministério da Educação admite que nem escola ou professores tenham. De fato, vê-se pelo número de analfabetos funcionais que saem das nossas numerosas mas incompetentes faculdades: os caras sabem juntar as letrinhas, mas isso é insuficiente para entender o sentido e o contexto de um livro. São incapazes de perceber que mesmo um excelente escritor é capaz de cometer erros – influenciado pela realidade em que se fez presente – e, assim, incapazes de entender que eles mesmos são limitados pelos paradigmas de seu próprio ambiente.

Por desatualização, já que esse é o caso, poderiam banir nossa Constituição e outros livros de leis que – a julgar como agem nossos burocratas e políticos – estão mais que desatualizados. Esqueçamos que houve um tempo e um contexto em que leis deveriam ser cumpridas.

Gosto de lembrar que a educação formal, atualmente, é notória por estar um ou dois passos para trás no que diz respeito às suas próprias obrigações quando lhe confiamos nossas crianças. Quando não, ela de fato e de propósito anda para trás, num sistema que poderíamos chamar de Educação Curupira.

Espero que algum ministério não queira fazer restrições a esse texto por referenciar uma das nossas muitas lendas portadoras de necessidades especiais (Curupira, Mula-Sem-Cabeça, Saci, etc).

Portanto, não importam os livros que alguma comissão maluca restringe às escolas: o hábito da leitura é passado aos filhos pelos pais e por mais ninguém. Muitos pais já vem fazendo um bom trabalho em contagiar suas crianças com esse prazer. Mas, suponho, um número muito maior vem fazendo um trabalho melhor ainda em afastá-los. Agora nossas escolas, cada vez mais, assumem seu papel nessa tarefa.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!