Livros: nunca estiveram tão acessíveis; e nunca tão em perigo

Conversei há algum tempo com uma repórter que teve a paciência de ouvir minha fala um tanto desencontrada – acho que sou melhor escrevendo que falando – e ela perguntou-me o que eu achava que o governo deveria fazer, na internet, para melhorar o acesso à leitura.

Na internet, muito pouco pode ser feito pelo governo além de tornar a leitura disponível. Mas isso já acontece naturalmente. Basta, portanto, que não se atrapalhe o processo.

Os brasileiros que já têm acesso à internet – poucos -, automaticamente têm acesso a livros gratuitos. Na pior das hipóteses, a textos de melhor ou pior qualidade.

E além do Domínio Público, que é do governo, existem centenas de sites de onde se pode baixar obras gratuitamente. Disponibilidade é uma palavra chave da rede. É o tipo de coisa que acontece naturalmente, como a fermentação.

E aqueles que possuem um computador conectado em casa, suponho, têm um certo grau de escolaridade. Portanto, para ler esses livros de graça bastava que quisessem .

Assim, a questão do livro passa inevitavelmente pela educação, cujo aspecto fundamental está longe dos terminais de computador. Mesmo porque hoje em dia, sem um leitor digital decente, poucos se dispõem a ler na tela, mesmo os fãs de literatura.

A verdade é que as informações – sejam as obras completas de Machado de Assis, seja a coleção definitiva dos jogos Atari – estão de fato acessíveis.

É só saber procurar no Google. Hoje qualquer criança já nasce sabendo.

Oscar Wilde escreveu que as coisas realmente importantes não podem ser ensinadas. Aí é que está. A educação é a única forma de criar a necessidade de buscar algo que já está totalmente disponível.

O problema começa em casa, já que os pais supõem que os professores darão conta de uma tarefa que já deveria ter começado antes de o moleque botar os pés na escola. Não espere que a criança sinta a necessidade de livros se ele nunca abriu um antes ou se nunca contaram uma história para ele.

Isso é terrível, pois se algo está disponível e não é buscado, é como se não existisse. Não faz diferença.

É como se tivesse sido atacado pelo Nada, terrível personagem do livro A História Sem Fim, de Michael Ende.

Em seguida, talvez a escola esteja errando na forma como aborda o livro. O livro não precisa de pessoas que o entendam. O livro precisa de pessoas que gostem dele, que gostem de ler. E não é preciso entender para gostar. O entendimento é posterior ao gosto como a digestão é posterior à degustação. No atual ensino, querem que a criança não só digira antes, como também entenda as reações químicas que se dão no processo. Até mesmo comer a mais deliciosa iguaria seria uma tarefa enfadonha.

O livro precisa de pessoas que busquem apaixonadamente por eles, estejam onde eles estiverem. Ainda que estejam indisponíveis. Inacessíveis.

Mas vá a uma sala de aula e pergunte quantas crianças realmente gostam de ler e quantas delas leram mais de um livro naquele ano. Só o do currículo, com grande desconforto, e olhe lá.

Quando Steve Jobs, da Apple, afirma que o Kindle, da Amazon, não tem chances de dar certo porque o conceito é equivocado, porque 40% dos americanos lêem menos de um livro por ano, ele não está sendo mau. Ele está sendo realista.

Um produto sem público não tem futuro.

Ainda assim acredito que a empresa lance algo do gênero em breve, mas que incorpore outras funções além de tão somente a possibilidade de ler um livro.

O que o governo deve fazer então?

Eu escrevi e reescrevi este parágrafo várias vezes antes de chegar a sua versão definitiva. Talvez a resposta seja essa. Voltar, apagar, começar tudo de novo. A educação, no que diz respeito ao relacionamento das pessoas com os livros, precisa não ser melhorada, mas mudada completamente. Isso é o que o governo deve fazer. Se é que é possível.

Mas pensar no que o governo deveria fazer é fácil. E difícil. Pois não se pode contar com o governo. Principalmente em algo tão gigantesco e relegado a segundo plano como a educação.

Prefiro pensar no que eu posso fazer.

Isso é difícil. Pois depende de minha iniciativa. Mas ao mesmo tempo é fácil. Afinal, eu sei que comigo eu posso contar.

Antes de salvar os livros, é preciso salvar os leitores.

E você? Você acha que consegue salvar um leitor?

Quem salva um leitor, salva centenas de livros. Milhares, talvez.

Postado em Hedonismos.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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