Certo dia, eu conversava com um amigo sobre uma propaganda de uma empresa de cosméticos que gerou grande polêmica. Eu li a propaganda como uma inovação de um homem mal cuidado para um homem bem cuidado. E, com esse contexto, eu me reportei ao tal amigo, que negro, alertou-me: você não entende, o black power é um símbolo! E entendi que não entendia nada. Que julgava a questão do racismo por outras quaisquer conveniências do cotidiano, eu sendo filha de negra, negra portanto, sem me situar nesse espaço.

É fato sabido por todos que, em nome de supremacia racial, muita tragédia histórica já aconteceu e acontece, ainda hoje, pungentemetne ou camuflada sob muitas fórmulas mercadológicamente mais palatáveis.

Mas, por que falar em racismo? Ou preconceito?

Aconteceu, por pelo menos três ocasiões, abaixo citadas, de se trocar ou tentar trocar o texto de um escritor, supostamente ou efetivamente racista, em função da substituição dessas colocações por outras politicamente corretas.

As palavras politicamente correto e bom senso me dão calafrios. São tão perigosas quanto qualquer conteúdo racista, porque fora de contexto, como qualquer coisa na vida, tornam-se em absurdos catastróficos.

Monteiro Lobato

O parecer Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão colegiado independente ligado ao Ministério da Educação (MEC), a respeito do livro “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato gerou uma grande controvérsia. Ele queria, a pretexto de corrigir expressões racistas, mudar o texto.

Mark Twain

Tintin au Congo

No cômputo geral, não há de se discutir apenas racismo e literatura, mas contexto, pano de fundo histórico, atrelar a realidade em que vivemos à realidade do momento histórico do texto em si, do autor, sua escrita e sua intenção (que, aliás, jamais será sabida), mas também, demagogia e visão crítica à luz das informações recebidas e censura.

Ainda me lembro, da minha professora da segunda série, utilizando o gibi do Chico Bento para nos ensinar a escrever corretamente. Nem o Chico Bento foi subvertido, nem nós aprendemos errado, nem tivemos uma aula maçante sobre questões gramaticais.

Vai ver, em era de analfabetismo funcional, falta, além do feijão com arroz (decodificar as letras), ler também as entrelinhas.

E nas entrelinhas está o respeito ao ser humano, que é premissa de qualquer pensamento, diante de quaisquer textos lidos, com conteúdo racista ou não.

Como um paralelo, outros escritos trabalharam na contramão do racismo, também chamados  poetas condoreiros, da geração romântica, como Castro Alves, que, aliás, lutava contra o escravismo.

*Obrigada Carlos Eduardo Bezerra por me lembrar dos poetas condoreiros.

Sobre o autor: Roberta Fraga

Crio seres imaginários, escrevo contos, costuro histórias.