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Mais sobre o ódio à literatura

1 de julho de 2008 | Publicado na Categoria Livros são divertidos | 6 Comentários »

Eu lamento muito que meu artigo sobre o Ódio à Literatura tenha sido, em algum momento, mal compreendido quanto ao conceito de liberdade.

Embora eu tenha enfatizado os pontos que considero essenciais, esforçando-me para que equívocos não acontecessem, penso ser importante uma revisão para que a idéia fique bem clara.

Eu escrevi que as pessoas têm a liberdade de odiar o que bem entenderem. Literatura ou beterrabas.

Porém, não escrevi que considerava isso – o ódio – bom em si.

Temos a seguinte estrutura:

  • liberdade -> escolhas -> conseqüências -> responsabilidade

Quanto mais consciente um individuo é do alcance de suas ações – no tempo e no encadeamento da rede humana da qual ele é um nó -, mais livre e mais responsável ele se torna.

Só para citar um exemplo dado por Fernando Savater, podemos dizer que uma formiga não tem escolha – é determinada a lutar contra o besouro que invadiu o formigueiro – e Heitor, sim, pois poderia ter fugido quando viu Aquiles se aproximar dos portões de Tróia. Heitor é um ser ético – humano portanto – pois teve a liberdade de escolher e a usou.

Assim, se não há liberdade, não há escolhas. As conseqüências não têm ligações com minhas escolhas – pois não as fiz. E, portanto, não há responsabilidade. Nessa hipótese, eu abri mão – ou alguém me fez abrir mão -, de minha liberdade. Eu tenho uma menor responsabilidade sobre aquilo que me torno e sobre aquilo que aqueles a minha volta se tornam. A responsabilidade é do governo, nas ditaduras ou mesmo nas democracias, do rei, nas monarquias, ou de Deus, na teocracia.

Caim teve liberdade – individualmente – de matar Abel? Teve. Tanto teve que a tomou. Porém, sofreu as conseqüências tão conhecidas daqueles familiarizados com a mitologia bíblica.

Do mesmo modo, a certeza da não atribuição de responsabilidade – digamos, impunidade – permite que haja tanta corrupção nos meios políticos.

Se falta uma das variáveis da equação, não teremos Ética como resultado.

Eu tenho liberdade de odiar a literatura – e não entrarei no mérito se eu já a conheço ou não, seja lá o que cabe nessa vasta palavra. Mas odiá-la têm conseqüências? Certamente.

Ignorância é uma delas. Individualmente, ela é a mãe de uma vida nas trevas. Coletivamente, a mãe do terror. E ignorância é apenas uma das conseqüências possíveis. Não me alongarei a enumerá-las.

Então, mais uma vez, as pessoas são livres para odiar a literatura. Sim. Mas isso não quer dizer que tantos abraçarem essa possibilidade não seja preocupante e danoso.

Finalmente, mais para o fim do texto anterior, eu chamei a atenção para alguns dos paradoxos que encontrei no fato de existir uma comunidade como aquela no Orkut.

  • Toda literatura fala de liberdade e de seus dilemas éticos
  • De certo modo, a comunidade Eu Odeio Literatura é literatura, por expressar – assim como qualquer obra literária – algum tipo de anseio humano diante de uma escolha
  • Sem a literatura, a comunidade que a odeia não seria possível
  • A sua existência expressa, em si, a liberdade de ela existir. Mas, ao existir, renega essa liberdade
  • A existência da possibilidade de se odiar a literatura torna ética a escolha de amá-la. Pense: e se fosse obrigatório amar a literatura? Você é a formiga ou Heitor?

Porém o mais marcante paradoxo é o seguinte: quanto mais ignorante um homem é, menos capaz de fazer escolhas e ser livre ele é. Considerando que a literatura é um dos melhores caminhos para se conhecer o outro, para se conhecer o mundo e até a si mesmo, quem a odeia se torna menos capaz de fazer escolhas, menos capaz de ser responsável – logo, mais inclinado a ser um simples marionete – e infinitamente menos capaz de um comportamento ético.

Quem odeia a literatura é muito mais suscetível a que forças exteriores lhe escolham aquilo mais que deve odiar.

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6 Comentários para “Mais sobre o ódio à literatura”

  1. ana cláudia bessa - 1 7 2008 às 10:32

    Alessandro, adorei a conclusão do seu texto. Não poderia ser melhor, ou pior, se considerarmos suas consequências.

    Aproveito para divulgar uma idéia que tive ao rever os livros que temos em casa e nunca mais leremos.

    Se gostar da idéia, nos ajude a divulgar.

    Abraços, Ana Cláudia.

    Campanha Troca-Livros – Quer Participar???????

    http://ofuturodopresente.blogspot.com/2008/07/campanha-troca-livros.html

    O Futuro do Presente
    Mães por um mundo melhor! Um blog dedicado ao futuro que vamos deixar para nossos filhos. A qualidade da educação que daremos e a que receberão na escola para serem pessoas do bem e para o bem; a qualidade do ar,da água e dos alimentos; a preservação do meio ambiente e dos bens não-renováveis; o combate à violência e à impunidade; a atuação política daqueles que elegemos; a reciclagem do lixo. Por um futuro melhor para nosso presente. Pois lá estarão nossos filhos!

  2. Evandro Cesar - 1 7 2008 às 13:06

    Resumindo de forma bem irônica: é muito mais fácil conduzir um país de formigas :)

  3. Sofia - 1 7 2008 às 16:31

    Muito boa a conclusão do texto. É lógico que a pessoa tem a liberdade de odiar literatura, mas essa liberdade será tanto menor quanto maior for sua ignorância. Um círculo vicioso.

  4. Marco Carvalho - 2 7 2008 às 10:31

    Hahaha
    Nossa que quiprocó… A verdade é que muito incomoda a quem está preso a liberdade do outro.

    Não acho nada d+ do dentista não saber de João Ubaldo Ribeiro, me parece que a Suzana no outro post vê como “obrigação” gostar de pelo menos UM tipo de literatura.

    Ué! + isso gostam mesmo, até mesmo os da comunidade “Odeiam Literatura”. Afinal, como o Ale disse, orkut também é uma forma de literatura.

    O q talvez aconteça é a idolatria a livros, pq vc “TEM” que gostar de livros… e talvez isso é que forçe a barra… pq todos já fomos jovens e todos renegamos vários procedimentos adotados por nossos pais pela velha e sabida intransigência juvenil… e daí? deixem os moleques lerem na internet, desgastarem a língua, renovarem a literatura… afinal, arte sem contestação de costumes vigentes não é arte… e sem arte, bye bye literatura.

    OBS: na medida do possível usei o internetês só para gerar mais um furduncio! hahahaha

  5. Michelle Müller - 3 7 2008 às 10:34

    E eu só posso assinar embaixo! Adorei a conclusão do texto!

    estrelinhas coloridas pra ti…

  6. Fernando - 31 1 2010 às 11:25

    Devemos respeitar o direito de quem não quer conhecer um mundo fascinante apenas para continuar vivendo nas trevas da ignorância!

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