Uma vez li o depoimento de uma indiana, que contava que no lugar onde ela vivia a única fonte de leitura era uma espécie de biblioteca itinerante. Os livros chegavam e ela lia o que aparecia pela frente. Não havia qualquer tipo de classificação, não dizia que tipo de livro era, muito menos qual a idade indicada. Por causa disso ela aprendeu a ler qualquer coisa que aparecia pela frente, sem qualquer preconceito.

Quando eu era adolescente, uma vez apareceu no meu colégio uma feira de livros. O único estande que realmente ficou cheio foi o que vendia a Coleção Vagalume. Porque nós éramos adolescentes e a Coleção Vagalume se destinava à nossa faixa etária. Eu já era uma leitora viciada, e tentei convencer meus colegas que outros livros eram bons, mesmo sem serem destinados a nós. Mas ninguém quis ler, era como se as pessoas tivessem medo de ler os livros errados.

Do ponto de vista didático, entendemos que certas faixas de idade têm temas específicos e maturidade pra entender algumas coisas. Daí a importância de um livro certo para a idade certa. Por outro, levar certos critérios à sério demais pode ser uma prisão. Concordo que certas coisas só são entendidas na sua plenitude quando temos mais maturidade. Mas quando penso em qualquer tipo de vivência estética – viagens, ouvir música, ver um quadro, ler um livro – me parece que todo tipo de compreensão melhora com a idade. Se formos levar essa história de só entender com a idade à sério demais, ninguém pode nada antes dos trinta!

Eu acho que o leitor está pronto para abandonar sua faixa etária literária quando quiser. Basta não ter medo dos livros – não ter medo das letras miúdas, das muitas páginas, da falta de figuras, dos nomes importantes. Se for algo muito profundo e que precisa de certa vivência, o leitor entenderá o que estiver ao seu alcance. E descobrirá o resto no futuro, quando reler, ou até mesmo quando pensar no assunto. Sejamos subversivos; pelo menos na leitura, que cada um procure o que melhor combina com o seu momento.

Sobre o autor: Caminhante Diurno

Caminhante tem casa, marido, cachorro, blogs (Caminhante Diurno e Caminhando por Fora), carteirinha da biblioteca. E não pode viver sem qualquer um deles.