“Que há em um simples nome? O que chamamos de rosa sobre outra designação teria igual perfume.” Shakespeare, da peça Romeu e Julieta.

Lavoura Arcaica é o romance mais conhecido de Raduan Nassar, lançado em 1975. Ele conta a história do jovem André que foge de casa com o intuito de libertar-se dos grilhões da sua família e tentar descobrir seu próprio caminho. O livro é dividido em duas partes: A partida e O retorno. O livro narra as sutis mudanças pelas quais o personagem passa antes, durante e depois da fuga, e como a sua saída de casa inicia um processo de mudança na estrutura de sua família. A narrativa é feita em fluxo de consciência onde os capítulos são intercalados, um tratando do passado e outro que tratando do presente.

Ao ler este livro, o leitor tem a sensação de não estar lendo um livro fácil, entretanto, ao mesmo tempo, a angustia que ele provoca é o que o torna tão bom, revelador, instigante e inadiável. O livro não é fácil como os pensamentos e desejos humanos não o são. A adolescência também não é fácil, com suas relações conturbadas com a família, com os pares, com a sexualidade, a perda da infância e a necessidade de firmação, tudo isso embalado por uma sensibilidade aguçada e pelos hormônios que estão passando o corpo a limpo. É ainda na adolescência que os primeiro vislumbres da morte aceleram a busca do seu espaço no mundo, a busca de uma identidade e a vontade de deixar uma marca, além dos conflitos com a religiosidade.

O presente texto faz uma análise do livro a partir do seu titulo. Este é composto por duas palavras que faz parte do vocabulário do brasileiro médio, contudo são pouco utilizadas no cotidiano. Elas nunca são utilizadas juntas, apesar disso quando lemos o título uma parece a complementação perfeita da outra e isso garante o efeito poético do título. Contudo, o titulo do livro merece atenção não apenas pela sua poeticidade, mas, também, por estar intimamente ligado a trama e poder ser analisado a partir de diversos pontos desta.

A palavra “lavoura” vem do latim, laboria, e significa “preparação do terreno para a sementeira; agricultura; amanho e cultivo da terra; lavra”. Já a palavra “arcaica” vem do grego do archaikós “obsoleto; antiquado; anacrônico, desusado; que pertenceu à alta Antiguidade; tempos geológicos anteriores à era primária ou paleozoica; referente a esse período.”

É importante ressaltar que o livro não possui referencias a tempo e a espaço, pode ter acontecido na Grécia há três mil anos, há 300 anos na Itália ou ontem aqui no Brasil.

O primeiro ponto pelo qual o titulo se explica é também o mais óbvio: a história de André se passa no campo, em um local onde a divisão do trabalho é familiar, as mulheres ficam com as atividades relacionadas com a rotina da casa e os homens saem para as atividades do campo. As poucas referências à forma com que o trabalho é realizado indicam a necessidade de grande uso da força bruta, de um trabalho feito antes da mecanização da lavoura, que é, portanto, trabalhada pelo uso de métodos arcaicos. Isso pode ser inferido desta descrição que André faz do trabalho no livro:

“(…) vou madrugar como nossos irmãos, seguir o pai para o trabalho, arar a terra e semear, acompanhar a brotação e o crescimento, participar das apreensões da nossa lavoura, vou pedir a chuva e o sol quando escassear a água ou a luz sobre as plantações, contemplar os cachos que amadurecem, estando presente com justiça na hora da colheita, trazendo para casa os frutos, provando com tudo isso que eu também posso ser útil; tenho mãos abençoadas para plantar, querida irmã, não descuido o rebento de cada semente, e nem o viço em cada transplante, sei ouvir os apelos da terra em cada momento, sei apaziguá-los quando possível, sei como dar a ela o vigor para qualquer cultura, e embora respeitando o seu descanso, vou fazer como diz o pai que cada palmo de chão aqui produza; sei muito sobre a cultura nos campos, e serei também exemplar no trato dos nossos animais, eu sei me aproximar deles, conquistar-lhes a confiança e a doçura do olhar, nutri-los como se deve, preparando o farelo segundo meu apetite, ministrando no cocho os sais que forjam a força dos músculos, arrancando a erva daninha que emagrece nossos pastos, ceifando o capim na boa altura, virando o ao calor e à umidade da atmosfera, fenando-o em feixes ou em fardos quando preciso, eu que sou destro no manejo da foice e do forcado; sei ordenar vacas, sendo extremoso com os bezerros e muito gentil com suas mães quando os separo, limpando o melado dos ubres sem que o leite precoce vaze entre meus dedos, ficando atento para que na limpeza não se elimine deles o cheiro gordo dos estábulos e dos currais (…)” (p. 120 – 122).

Lavoura Arcaica também pode ser uma referência a forma como se constroem as relações familiares. O livro retrata uma família tradicional, com uma hierarquia bem definida, na qual cada um representa um papel pré-destinado. A estrutura familiar possui muitas regras explicitas e implícitas que são passadas de geração a geração pela narração de parábolas; os rituais familiares são muitos e importantes sustentáculos desta estrutura. A família, seu amor e sua honra, são vistos como o bem maior e seu equilíbrio deve ser preservado a todo custo.

“O amor, a união e o trabalho de todos nós junto ao pai era uma mensagem de pureza austera guardada em nossos santuários, comungada solenemente em cada dia, fazendo nosso desjejum matinal e o nosso livro crepuscular (…), mas que era importante não esquecer também as peculiaridades afetivas e espirituais que nos uniam, não nos deixando sucumbir ás tentações, pondo-nos de guarda contra a queda (não importava de que natureza), era este cuidado, era esta pelo menos a parte que cabia a cada membro, o quinhão a que cada um estava obrigado, pois bastava que um de nós pisasse em falso para que toda a família caísse atrás (…) e que para manter a casa erguida er preciso fortalecer o sentimento do dever, venerando os nossos laços de sangue, não nos afastando da nossa porta (…)” (p. 22-23)

Lavoura Arcaica do ponto de vista de um adolescente que, na busca pelo novo, pelo diferente, tudo já vivido ou que constitua limitação do seu desejo é visto como velho, ultrapassado e obsoleto – ou seja, arcaico. Isso fica explicito na conversa que André tem com Lula, quando Lula diz o seguinte:

“Não aguento mais esta prisão, não aguento mais os sermões do pai, nem o trabalho que me dão, e nem a vigilância o Pedro em cima do que faço, quero ser dono dos meus próprios passos; não nasci para viver aqui, sinto nojo dos nossos rebanhos, não gosto de trabalhar na terra, nem nos dias de sol, menos ainda nos dias de chuva, não agüento mais a vida parada desta fazenda imunda…” (p. 179 – 180)

Lavoura Arcaica também no sentido de o livro enfocar no drama psicológico: ele é atemporal por tratar de um drama humano onde o menos importante é quando ou onde a história acontece, mas como ela afeta os personagens – que tipo de sentimentos desperta, quais dilemas são as bases do conflito, etc. Arcaico aqui pode ser lido como ancestral.

Além disso, trata de histórias e tabus que parecem fazer parte do “inconsciente coletivo” da cultura ocidental – nada mais arcaico. Tal efeito é provocado pelo grande numero de referencias a bíblia, inclusive algumas citações literais desta, como aponta Carvalho (2004):

“Através da religião se atinge toda a sociedade, e a pedra basilar da religião é a Bíblia. Autores que fazem paródias da Bíblia – concordem ou não com a visão da religião oficial – sempre estão, através destas paródias, envolvendo-se num projeto social maior” (p. 12).

Lavoura Arcaica porque o próprio livro é uma parábola para o mundo moderno.

Uma das marcas do romance moderno é os personagens que são identificados por nome e sobrenome. Lavoura Arcaica, o arcaico mais uma vez aparece pelo fato de a família não possuir um sobrenome, todos os personagens são apenas identificados pelo primeiro nome.

Lavoura Arcaica remete ao tabu primordial de toda a sociedade ocidental: o incesto, e todas as fantasias que este envolve. Isso pode ser observado logo no inicio do livro André relata como a mãe vinha acordá-lo pela manhã, para que ele fosse a missa, fazendo afagos e dizendo frases doces e ele fingia ainda estar dormindo para prolongar aquele momento de ternura. Depois ela ainda conta a sua crença de que foi a mãe com seu carinho e amor que acabou provocando desejos nos filhos que eram incompatíveis com a vida que a família levava. Enquanto isso, o pai é descrito como o que impõe limites. O pai é a lei. Na teoria Freudiana o mito original, arcaico, é o que ele relata em Totem e Tabu temática que permeia toda a trama do livro.

Observamos que a palavra Arcaico provavelmente possui uma origem etimológica comum com Arcádia. O que nos remete a Pã, que segundo o site O Mundo dos Filósofos, é uma antiquíssima divindade da Arcádia, que é o guarda dos rebanhos que ele tem por missão fazer multiplicar. É o deus dos bosques e dos pastos e protetor dos pastores. Seu culto é extremamente antigo, e provavelmente remonta as mais antigas civilizações. Os pastores sempre que precisavam multiplicar o seu rebanho, faziam cultos a Pã. Pã provoca o pânico, uma crise de terror aparentemente sem sentido. Uma das marcas deste deus é a sua flauta, com a qual consegue encantar a todos. Em Lavoura Arcaica a flauta está presente em todas as comemorações familiares, em especial as que se referem aos ritos de fertilidade como o tempo da semeadura e da colheita, e tem a o poder de encantar, hipnotizar e, até mesmo, possuir demonicamente todos. (2007)

Como pode-se observar, o titulo do livro é muito feliz, representando bem a obra e sendo um elemento a mais na compreensão desta. A começar pelo titulo, o livro todo é coisa de gênio.

Referências

CARVALHO, Maria Tereza. Literatura e Religião: três momentos de aproveitamento. São Paulo: Terceira Margem, 2004.

NASSAR, Raduan. Lavoura Arcaica. São Paulo: Companhia das Letras, 3ª ed., 1999.
______. http://www.mundodosfilosofos.com.br/pa.htm data da consulta: 01 de dezembro de 2007.

Fotos do Filme Lavoura Arcaica dirigido Luiz Fernando Carvalho.

Sobre o autor: Marcela Ortolan

Andarilha convicta, leitora apaixonada, behaviorista radical. Acredita que o mundo é grande demais para que apenas uma arte tenha o seu monopólio.