Kennings, as metáforas dos poetas germânicos

Continuo a ler o Curso de Literatura Inglesa, de Jorge Luis Borges. Antes das palestras em que ele fala sobre o poema épico Beowulf, ele precisa fazer uma contextualização da obra.

Entre outras coisas ele explica o que são as kennings, metáforas cristalizadas e descritivas usadas pelos poetas germânicos da época, antes do ano 700.

Aqui é importante dizer que os poetas germânicos não usavam o recurso da rima em seus versos. Descobriu-se que em cada verso há três palavras cuja primeira sílaba é tônica, e que eram aliteradas.

Porque, como os poetas falavam sempre das mesmas coisas, tocavam sempre os mesmos temas – isto é: a lança, o rei, a espada, a terra, o sol -, e essas palavras não começavam com a mesma letra tiveram de procurar um recurso.

Quer dizer, eles precisaram encontrar meios de dizer as mesmas coisas, mas garantindo que elas começassem com a mesma letra, para assim ter uma aliteração, a repetição do som na sílaba tônica.

Assim, na poesia, que era somente épica, para nomear aas coisas cujos nomes não começavam com a mesma letra, formaram-se palavras compostas. Formações desse tipo são absolutamente possíveis e usuais nas línguas germânicas. Depois eles se deram conta de que essas palavras compostas podiam perfeitamente ser utilizadas como metáforas. Foi assim que começaram a chamar o mar de “caminho da baleia”, “caminho das velas” ou “banho do peixe”; chamavam a nau de “potro do mar”, ou “cervo do mar”, ou “javali das ondas”, sempre usando nomes de animais; (…). Essas metáforas, algumas das quais são lindas, foram utilizadas como lugares-comuns. Todos as usavam e todos as entendiam.

Na Inglaterra, por fim, as kennings caíram em desuso com o passar dos anos.

Mas, em compensação, na Escandinávia, foram levadas ao último grau de desenvolvimento: fizeram-se metáforas das metáforas, mediante combinações sucessivas. Assim, se nau era “cavalo do mar” e mar era “campo da gaivota”, então nau seria “o cavalo do campo da gaivota”. Essa era uma metáfora, por assim dizer, de primeiro grau.

Lembre-se: pense nisso como uma única palavra.

Como o escudo era a “a lua dos piratas” – os escudos eram redondos, feitos de madeira – e a lança era a “serpente do escudo”, já que os destruía, então a lança seria a “serpente da lua dos piratas”.

Evoluindo assim, chegou-se a uma poesia complicadíssima, obscura. (…) tanto que é necessário fazer uma verdadeira adivinha para reconhecê-las em seu sentido real. Mas o mesmo não ocorreu na Inglaterra. As metáforas se mantiveram em primeiro grau, sem ir mais adiante.

Uma das coisas interessantes é que o livro Curso de Literatura Inglesa é tão somente a transcrição das falas de Borges. Foram 25 aulas gravadas, em 1966, na Universidade de Buenos Aires. As fitas foram perdidas. Provavelmente foram usadas para gravar outro curso.

Postado em Minhas leituras.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

Deixe seu comentário