Estamos na era da digitalização. O livro, um pouco por uma certa dificuldade em ser digitalizado, um pouco por só agora aparecerem telas realmente confortáveis e versáteis, tem sido uma das últimas mídias a resistir.
De fato, o livro como o conhecemos hoje – capa, páginas, contra-capa – existe desde antes da invenção da imprensa, talvez desde antes da época em que era reproduzido lentamente pelo monges copistas beneditinos, ornado por iluminuras.
No entanto, há por parte de muitos uma certa resistência quanto aos livros eletrônicos. Acho esse debate infértil. Afinal, há espaço para tudo.
Veja: ainda existe lugar até mesmo para os LPs neste momento em que surgem as primeiras gerações que se perguntam o que são aquelas bolachas pretas com um furo no meio que o titio guarda no armário.
Em breve, até os CDs pareceram peças de museu, se é que já não parecem.
Esses pensamentos me surgiram quando, procurando por outro trecho referente aos livros em um volume que transcreve algumas palestras de Jorge Luis Borges, encontrei um trecho em que o escritor argentino fala do livro enquanto objeto físico e que pode dar uma pista quanto a como ele se comportaria diante de um Kindle ou outro leitor digital.
Pensei, uma vez, em escrever uma história do livro. Não do ponto de vista físico. Não me interessam os livros fisicamente (sobretudo os livros dos bibliófilos, que costumam ser desmedidos), mas sim as diversas valorizações de que o livro tem sido objeto. (…)
Os antigos não professavam o nosso culto do livro – coisa que me surpreende; viam no livro um sucedâneo da palavra oral. Aquela frase que sempre se cita: Scripta manet verba volat, não significa que a palavra oral seja efêmera, mas que a palavra escrita é algo de duradouro e de morto.
Realmente, Borges costumava dizer que o escritor (ele, entre outros) só publica para se ver livre de refazer a todo instante a sua obra. Como que para paralizá-la no tempo. De certo modo, fazê-la durar, mas morrer. Sabe-se que ele, depois de cego, só ditava seus escritos depois de tê-los elaborado até a mínima vírgula mentalmente.
No entanto, mais à frente, diz Borges:
Continuo a fazer de contas que não sou cego, continuo a comprar livros, continuo a encher a minha casa de livros. Há dias ofereceram-me uma edição de 1966 da Enciclopédia Brockhaus. Senti a presença desse livro na minha casa, senti-a como uma espécie de felicidade. Ali estavam os vinte e tal volumes, escritos numa letra gótica que sou incapaz de ler, com mapas e gravuras que não posso ver; e, todavia, o livro estava ali. Senti como que a gravitação amistosa do livro. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade concedida aos homens.
Sobre o desaparecimento do livro, finalmente (devo lembrar que essa palestra foi proferida na década de 1970):
Fala-se do desaparecimento do livro; creio que é impossível. Dir-se-á que diferença pode haver entre um livro e eum jornal ou um disco. A diferença está em que um jornal lê-se para esquecer, um disco também se ouve para depois esquecer, é uma coisa mecânica e, portanto, fútil. Um livro lê-se para se reter na memória.
Mas, naturalmente, ele não estava falando nesse caso do livro físico – em contraposição a um livro digital que, na época, nem poderia adivinhar -, mas do espírito do livro.
Emerson afirma que uma biblioteca é uma câmara mágica. Nesse gabinete estão sob o efeito de um encantamento os melhores espíritos da humanidade, que esperam a nossa palavra para sair da sua mudez. Temos que abrir o livro, e eles então despertam. Diz que podemos contar com a companhia dos melhores homens que a humanidade produziu (…)
O que Borges diria se soubesse que, agora, a voz desses homens e mulheres todos cabe em um aparelho tão pequeno quando um leitor digital?










