Jorge Luis Borges gostaria do Kindle?
20 de fevereiro de 2009 | Publicado na Categoria Escritores | 9 Comentários »Estamos na era da digitalização. O livro, um pouco por uma certa dificuldade em ser digitalizado, um pouco por só agora aparecerem telas realmente confortáveis e versáteis, tem sido uma das últimas mídias a resistir.
De fato, o livro como o conhecemos hoje – capa, páginas, contra-capa – existe desde antes da invenção da imprensa, talvez desde antes da época em que era reproduzido lentamente pelo monges copistas beneditinos, ornado por iluminuras.
No entanto, há por parte de muitos uma certa resistência quanto aos livros eletrônicos. Acho esse debate infértil. Afinal, há espaço para tudo.
Veja: ainda existe lugar até mesmo para os LPs neste momento em que surgem as primeiras gerações que se perguntam o que são aquelas bolachas pretas com um furo no meio que o titio guarda no armário.
Em breve, até os CDs pareceram peças de museu, se é que já não parecem.
Esses pensamentos me surgiram quando, procurando por outro trecho referente aos livros em um volume que transcreve algumas palestras de Jorge Luis Borges, encontrei um trecho em que o escritor argentino fala do livro enquanto objeto físico e que pode dar uma pista quanto a como ele se comportaria diante de um Kindle ou outro leitor digital.
Pensei, uma vez, em escrever uma história do livro. Não do ponto de vista físico. Não me interessam os livros fisicamente (sobretudo os livros dos bibliófilos, que costumam ser desmedidos), mas sim as diversas valorizações de que o livro tem sido objeto. (…)
Os antigos não professavam o nosso culto do livro – coisa que me surpreende; viam no livro um sucedâneo da palavra oral. Aquela frase que sempre se cita: Scripta manet verba volat, não significa que a palavra oral seja efêmera, mas que a palavra escrita é algo de duradouro e de morto.
Realmente, Borges costumava dizer que o escritor (ele, entre outros) só publica para se ver livre de refazer a todo instante a sua obra. Como que para paralizá-la no tempo. De certo modo, fazê-la durar, mas morrer. Sabe-se que ele, depois de cego, só ditava seus escritos depois de tê-los elaborado até a mínima vírgula mentalmente.
No entanto, mais à frente, diz Borges:
Continuo a fazer de contas que não sou cego, continuo a comprar livros, continuo a encher a minha casa de livros. Há dias ofereceram-me uma edição de 1966 da Enciclopédia Brockhaus. Senti a presença desse livro na minha casa, senti-a como uma espécie de felicidade. Ali estavam os vinte e tal volumes, escritos numa letra gótica que sou incapaz de ler, com mapas e gravuras que não posso ver; e, todavia, o livro estava ali. Senti como que a gravitação amistosa do livro. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade concedida aos homens.
Sobre o desaparecimento do livro, finalmente (devo lembrar que essa palestra foi proferida na década de 1970):
Fala-se do desaparecimento do livro; creio que é impossível. Dir-se-á que diferença pode haver entre um livro e eum jornal ou um disco. A diferença está em que um jornal lê-se para esquecer, um disco também se ouve para depois esquecer, é uma coisa mecânica e, portanto, fútil. Um livro lê-se para se reter na memória.
Mas, naturalmente, ele não estava falando nesse caso do livro físico – em contraposição a um livro digital que, na época, nem poderia adivinhar -, mas do espírito do livro.
Emerson afirma que uma biblioteca é uma câmara mágica. Nesse gabinete estão sob o efeito de um encantamento os melhores espíritos da humanidade, que esperam a nossa palavra para sair da sua mudez. Temos que abrir o livro, e eles então despertam. Diz que podemos contar com a companhia dos melhores homens que a humanidade produziu (…)
O que Borges diria se soubesse que, agora, a voz desses homens e mulheres todos cabe em um aparelho tão pequeno quando um leitor digital?

Gostaria de saber se você lê livros digitais, acho que sim, né?
Eu já não acho tão delicioso quanto ler um livro, toca-lo, cheira-lo que é um hábito que tenho… Eu não trocaria livros físicos por livros digitais, é uma honra ler, ver a ilustração da capa, a textura das folhas, leva-lo onde quiser, amassa-lo, suja-lo…
Não se substitui o livro, o papel, o lápis, a caneta…
Nada contra os livros digitais, mas também não os leio. Para vc ter idéia eu baixei super rápido e fácil o exemplar de Antoni Burges, laranja mecânica, faz uns dois meses e ainda não li, detalhe é um livro que quero muito ler… (tolice talvez, não preconceito, mas é diferente).
Alessandro, meu caro, de qual livro estás tirando tais citações, por favor?
Fiquei encantada com elas e gostaria de também ter o prazer de descobri-las duranta a leitura de nosso tao estimado Borges.
Um grande abraço
Maga,
o nome do livro é Borges Oral.
http://migre.me/2mM
Abraços!
Alessandro, concordo que “há espaço para tudo”. Foi o que eu sugeri naquela crônica publicada no Portal Literal. Deixo o link aqui para quem mais tiver interesse no debate:
http://portalliteral.terra.com.br/artigos/para-a-gente-na-amazon
Um abraço.
Oi Alessandro, também tenho falado do Kindle e do Stanza no Orelha do Livro (aliás, digitalmente os livros perdem suas orelhas, já pensou?). Gosto da análise de Borges, de fato o livro é a perpetuação mas também a morte de uma obra, no sentido dela terminar quando é publicada em livro. Ainda sou muito romântica pra aceitar essa substituição tão radical do objeto livro para o suporte digital, mas se pensarmos bem uma biblioteca eletrônica é como o Aleph borgiano, que reúne presente, passado e futuro em um mesmo ponto do universo – o leitor digital. Borges teria um Kindle, com toda certeza – até porque ele vem com software de leitura em voz alta, pra facilitar seu uso :D
Abraços!
Fico ainda um tanto em dúvida se o livro físico conviveria normalmente com a versão digital, cada um mantendo uma parte de mercado, ou se, por outro lado, tornaria-se um objeto de valor de culto, como aconteceu com os LPs. Ou, ainda, talvez as duas coisas misturadas…
Em relação a Borges, recomendo o livro “Esse ofício do verso”. É, da mesma forma que o “Borges Oral”, transcrições de palestras.
Eu escrevi um pouco sobre ele neste post: http://www.viscerasliterarias.com/2009/01/final-feliz-artificialidade-clich.html
Abraços!
Cara, eu não troco um livro de papel por quase nada no mundo…
Parece-me que livro de areia de Borges é exatamente o livro em telas [de vidro, logo de areia] que pode não ter início, nem fim. O que abre a perspectiva para imaginarmos o livro não mais como produto, mas como um serviço customizável, personalizável, de acordo com o desejo do cliente-leitor. Um livro on-line poderia ser associado a diversos recursos extras, aos moldes dos DVDs. O livro [Borges e outros autores percebem] não tem fim na cabeça do escritor. Publica-se para livrar-se desse eterno reescrever. Outro dia, por exemplo, vi uma quarta edição do Memórias Póstumas de Brás Cubas em que Machado de Assis ainda retirava ou alterava alguns parágrafos. Com os livros on-line, o autor, como em um blog, altera e corrige a hora que quiser. Penso que mais à frente teremos os livros lançados em diversas versões [e cobrado de acordo com essas diferenças]. Tenho certeza de que nossa necessidade de ver o livro “materializado” [isso é menos visível entre os mais jovens] será de alguma forma atendido pelas editoras.