Eu sei que, do jeito que as coisas estão, seria demais esperar que os carros parassem só porque eu coloco o pé na faixa de pedestre. Mas, enquanto não concluí a travessia, acho justo querer que não avancem para cima de mim só porque o semáforo abriu.
Recuso-me a correr.
Motorista, você prefere obedecer a um conjunto de três luzes coloridas ou à ética que rege o respeito entre humanos?
Sinceramente, acho que o povo de uma cidade mostra o verdadeiro grau de sua civilidade no trânsito: momento de convívio intenso e obrigatório entre as pessoas. Afinal, quase todo mundo precisa fazer deslocamentos urbanos.
Curitiba tem fama de cidade com ares europeus – culta, crítica e civilizada. Só se for na hora de ver a novela e o Big Brother Brasil. Eis o que vejo pelas ruas em que ando:
- motoristas que avançam sobre os pedestres apenas porque o semáforo abriu
- pedestres que não atravessam nos lugares a eles destinados
- desconhecimento de que bicicletas também são veículos e que devem ser respeitados
- raramente se vê alguém usando o pisca-pisca para mudar de pista; às vezes nem para fazer conversão à esquerda ou à direita
- quase nunca se dá a vez para mudar de pista ou para sair do acostamento, mesmo quando se usa o pisca-pisca; isso é tão raro que, quando acontece, dá vontade de dedicar um poema ao sujeito
Eu ia colocar aqui uma cena do filme Trafic, de Jacques Tati, mas não encontrei nenhuma que fosse adequada.
O humorista Tati criou um personagem marcante, o Senhor Hulot – sobretudo, chapéu, cachimbo, calça meia-canela, guarda-chuva – e nesse filme tem grandes sacadas sobre o relacionamento entre os homens e os carros.
Deixo com vocês porém, alguns trechos de seu filme mais famoso, Meu Tio, de 1958. Nele ele traz a leveza que havia – ainda há aqui e ali – nas relações entre as pessoas e entre as coisas e que, já naquela época, começava a se perder.
O que dizer do momento em que a velhinha compra verduras à distância ou do momento em que Monsieur Hulot deixa sua casa (“escondendo” a chave no umbral), num verdadeiro labirinto de puxadinhos, portas e construções ajambradas? Ou quando ele usa o reflexo da janela para fazer o passarinho cantar? E quando ele tira uma pedra do lugar e coloca de volta? Isso sem falar nos vira-latas observados através de uma janela, candidamente filmados por uma cortina de tule transparente.
E, sim – se você for até o final -, há uma cena de desrespeito de um motorista a um pedestre.
Doce e engraçadíssima, como só um bom humorista saberia fazer. Não esse meu rame-rame com o qual ora vos importuno.
Fico pensando se, depois de tentar atropelar um semelhante que simplesmente quer chegar do outro lado da rua tranqüilamente e sem correria para iniciar o dia, ainda somos capazes de perceber o humor poético e sutil que há por trás dessas coisas tão simples.
Não sou um nostálgico. Não é preciso que voltemos ao tempo em que mal havia carros na rua para que voltemos a nos respeitar.
Basta olhar através do seu pára-brisa e ver uma pessoa.











