Assisti ontem a Inimigos Públicos, com direção de Michael Mann, e pensei que há uma razão para criminosos como John Dillinger terem sido tão idolatrados naquela época após a crise da Bolsa de Nova York, durante a Depressão Econômica nos Estados Unidos. Certamente o filme exagera isso: mas o exagero também tem suas razões.
Durante todo o filme, o personagem vivido por Johnny Depp, faz questão de ressaltar: roubava bancos. Em certos momentos fazia questão também de devolver o dinheiro de clientes e seguranças para enfatizar a quem estava verdadeiramente lesando.
No fundo, havia o sentimento de que aquela crise era causada pelos bancos e pelos grandes investidores. Hoje, ainda que a crise não tenha sido tão terrível como a de 1930 sob muitos aspectos, essa noção de sobre quem pesa a maior parte das responsabilidades é ainda mais forte.
E, diante das ajudas dadas pelo governo às instituições financeiras (que supostamente causaram todo o problema, na década de 30 e agora), é muito mais fácil identificar-se com o indivíduo que se revolta – de alguma forma – contra isso: para a massa, qualquer atrocidade que ele tenha cometido por essa causa – ainda que seja uma causa egoísta – se apaga.
A questão é que o sangue que Dillinger e outros tenham derramado é visível. Forma uma trilha suja e gritante. Já o sangue derramado pelas instituições financeiras não é visível. Os afluentes que ligam esse rio vermelho aos números da bolsa são límpidos, lógicos, discretos. Tudo dentro da lei, com aprovação do governo.
Ironia: antes do filme há o comercial de um banco que se ufana por apoiar iniciativas culturais e esportivas. Certamente, uma instituição mais boazinha que John Dillinger.









