Homenagem aos mestres

Sei que muitos professores leem este blog e sei que alguns podem se sentir até tocados pessoalmente pela maneira como, em alguns artigos, abordo a questão da Educação.

Há muito, porém, a agradecer a esses profissionais sobrecarregados por vezes por uma carga que em boa parte deveria ser dos pais.

Na ocasião de uma formatura, fui encarregado de escrever e ler o discurso de Homenagem ao Mestre. Desde então, embora ele seja especificamente dedicado, alguns professores vem me pedindo esse texto.

Assim, compartilho-o aqui:

O mestre é o cara que encontrou, no escuro, um caminho.

Mestre também é aquele que, ao chegar onde quer que o caminho leve, dissipa essa escuridão.

Se você vê uma luz no fim do túnel, é esse cara. Segurando um lume.

Lá na frente. Não é ele que deve vir a você, mas você a ele – a ele que já fez o caminho.

Ainda assim, se você insistir em olhar para as paredes do túnel, para o labirinto de escuridão, seja com medo – que paralisa – seja com a intenção de se envolver por elas, as trevas, o mestre, ainda por cima, vai chamar. Lá de longe.

Ele não pode puxá-lo, não pode laçá-lo, não pode prendê-lo. Como um mestre poderia ensinar a liberdade com tais recursos? Que tipo de aprendizado é aprendizado sem ser libertador e sem conter a liberdade em seus métodos?

O mestre não pode vender certezas. Pode tão somente, com a mão em concha, ofertar uma possibilidade. A primeira coisa que ele ensina, com isso, é a liberdade de aceitar ou não essa possibilidade. E o aluno, ainda que não a aceite, já terá aprendido algo. A liberdade de aceitar ou não.

O mestre, em relação aos seus alunos, pode apenas lançar mão do mesmo encanto que o encantou e que o fez chegar onde chegou. Não mais. O aluno escolhe o mestre. Não o contrário.

A dádiva de educar, assim, pode ser acompanhada da frustração de não ser ouvido. O mestre aprende a superar essa dor. Pois às vezes se está muito longe: o verdadeiro educador é vanguarda, ainda que ensine a sabedoria do passado remoto.

O educador está na frente da batalha: seu conhecimento é como a mochila de um guerreiro, o equipamento de um soldado. E poucos, como ele o fez ou faz, gostariam de se oferecer às pedras da ignorância na linha de frente.

Então, o verdadeiro mestre – não importa de que área do conhecimento – faz seu chamado. Alguns o ouvirão. Outros não. Certas sementes não germinam em alguns solos e, para cada solo, mesmo os pedregosos, há uma semente apropriada.

Alguns chegarão onde o mestre chegou. Poucos, muitos, não importa. Sentados em torno da fogueira, todos juntos, olharão para o caminho que trilharam. Verão que o mestre mostrou a trilha, mas cada um teve de deixar suas próprias pegadas nela.

E então chega a vez de os alunos irem além. A hora de uma verdade que alguns – mais emotivos – acharão melancólica: os mestres também são necessários porque nós humanos somos finitos, não temos como perpetuar sozinhos, na linha do tempo, um conhecimento. Nosso prazo é muito limitado. A arte é grande, a vida pequena: projetamos nas gerações seguintes os novos caminhos a serem trilhados e a sabedoria que deve ser preservada intacta como um diamante.

É nesse momento que o mestre irá lhe passar às mãos o lume com que, durante tanto tempo ele iluminou o túnel que você percorreu. E você entenderá, então, que, antes dele, um outro mestre fez esse mesmo gesto. E, antes desse, outro. E antes, ainda, outro, até onde alcança a limitada compreensão humana acerca do passado.

E, finalmente, o mestre lhe apontará para onde acredita ser o caminho que faria. E, novamente, com a liberdade que você aprendeu desde o início desta jornada, você fará uma nova escolha.

E, sem medo, dará um novo passo. A jornada do conhecimento deve continuar.

(fonte)

Postado em Educação.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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