Histórias infantis não tão infantis assim

Há algum tempo conversei com um amigo a respeito de uma inquietação que eu tinha com um texto. A minha preocupação era se eu estava ou não sendo clara, em respeito à mensagem que eu gostaria de passar.

Às vezes o que nos é óbvio, é um profundo mistério para o outro. E me empreendi nessa preocupação.

O meu amigo, sábio, falou que interpretar  próprio texto o faz perder o encanto.

E mais, adiante, em uma das entrevistas do Carpinejar, eu o vi falar que (em paráfrase livre) “o texto, depois de escrito, pertence ao leitor (…) é por isso que quando um livro vira filme ele normalmente decepciona”.

Relaxei…

Mas algo cutucou a minha memória quando li a matéria Pinóquio nunca foi santo.

Desta vez me inquietei novamente não mais como escritora desta vez, mas como leitora.

A primeira má impressão, se é que se pode dizer assim, eu tive com os tradicionais contos infantis foi na aula de Francês.

A missão era ler o Contes de Perrault, uma colêtância de histórias infantis mais tradicionais: Chapeuzinho Vermelho, Barba Azul, Cinderela, etc

E lá eu descobri uma parte da perda do encanto.

Cuidado: os trechos abaixo contém revelações sobre a trama e informações para maiores de 18 anos:

O Lobo Mau se deita com a Chapeuzinho e a come, sem dó nem piedade e fim.

E, assim, fui atrás, pesquisei e encontrei referências de pedagogos e autores de livros que dão conta que muitos dessas histórias infantis dessa época são não apenas ilustrações do cotidiano, mas também, além daquelas que tentam embutir lições de virtudes nas crianças, pequenas histórias de iniciação sexual.

A Bela Adormecida, por exemplo, dorme menina, com um beijo, acorda mulher;

A Bela e a Fera – há quem diga que retrata a síndrome de estolcomo, mas pode retratar um casamento arranjado com um marido que inicialmente parece hostil.

A Branca de Neve – menina perdida e ameaçada reencontra felicidade após o casamento;

Cinderela – perdeu, naturalmente, mais que o sapatinho de cristal para virar a amada do príncipe…

E por aí, vai, não falei dos milhões de sapos que viraram príncipes (ou não).

É, claro, que essas histórias e anedotas infantis davam conta de como a sociedade em que surgiram se via, como era o seu humor, as suas pretensões e prioridades. Mas, vocês, nunca se perguntaram o porquê das adaptações ao longos dos anos?

Estou me perguntando e isso é assunto para outra postagem…

Conte  a sua história infantil, leia tudo, misture tudo, afinal, a história é de quem lê e as crianças são ouvidoras mais que habilidosas e aproveitam da história o que elas querem no momento, sem indagações desnecessárias.

(Imagens via)

Postado em Livros e Afins.

Sobre o autor

Roberta Fraga

Crio seres imaginários, escrevo contos, costuro histórias.

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