Jaime Ovalle é dessas figuras não-tão-conhecidas-que-você-gostaria-de-ter-conhecido da história da música brasileira.
Enquanto leio Gente, de Fernando Sabino – coleção de perfis escritos entre 1973 e 1974 para o Jornal do Brasil -, encontro algumas histórias desse personagem um tanto mitológico:
Um dia lhe mostrei qualquer coisa que havia escrito, e ele me chamou a atenção para um trecho que, na sua opinião, deveria ser cortado:
- Você colaborou. Um escritor de verdade não colabora.
E como eu protestasse, defendendo o que havia escrito:
- Você está errado. Quer que eu chore, para provar?
Tirou o monóculo e começou a chorar, um choro de criança, lágrimas grossas escorrendo dos olhos claros e tombando no prato. Estávamos num restaurante e os outros fregueses olhavam estupefatos, aquele senhor de cabelos grisalhos em pranto diante de mim. Veio o garçom, veio o próprio gerente para saber o que havia, e ele sempre a chorar, gaguejando entre soluços:
- Está convencido agora? Tenho ou não tenho razão?
Das histórias de Jaime Ovalle, fico com a impressão de que ele é aquele amigo de que Drummond fala em seu poema A Bruxa, leitor de Horácio e que, mesmo silenciosamente influencia.
Era capaz de reencontrar a inocência onde ela estivesse, com sua incrível capacidade de ver as coisas como se fosse a primeira vez. Um dia estávamos no Central Park, em Nova York, olhando as focas que brincavam no meio de um tanque. Muito sério, de luvas, chapéu e sobretudo, ele olhava para a frente naquele seu jeito meio duramente interrogativo de franzir uma das sobrancelhas em torno do monóculo.
- As focas são inocentes – falou, sério. – Não se incomodam de serem vistas assim, completamente nuas.
Naquele instante se aproximou de nós uma velha amiga e bateu-lhe cordialmente nas costas, de surpresa. Com o gesto inesperado, o monóculo se desprendeu do sobrolho (dizia que dava à língua portuguesa a última oportunidade de ainda usar esta palavra), tombou ao chão e se espatifou. Imperturbável, levou a mão ao bolsinho do colete, retirou outra lente, encaixou-a diante do olho e só então como se nada houvesse acontecido é que se voltou para cumprimentar a autora do gesto desastrado.
Aqui, neste vídeo, vemos Vinicius de Moraes falando da Nova Gnomonia de Jayme Ovalle, um jeito diferente de classificar as pessoas em diferentes categorias:
Para Ovalle, as pessoas são divididas basicamente em Dantas, Parás, Mozarlescos, Onésimos e Kernianos.
Basicamente (fonte):
- DANTAS - São bons, puros, nobres, desprendidos, indiferentes ao sucesso na vida.
- KERNIANOS – Impulsivos, são capazes de barbaridades, mesmo quando têm bom coração.
- MOZARLESCOS - Sentimentais e chorões, creem no esperanto e no sufrágio universal.
- ONÉSIMOS - Até que não são más pessoas. Mas inibem, esfriam o ambiente e dão azar.
- PARÁS - Para eles, o que mais conta é o dinheiro, a glória nas artes, o poder político.
Encontrei uma crônica de Manuel Bandeira que explica mais detalhadamente a Nova Gnomonia de Jayme Ovalle.
E você? O Que é? Danta, Pará, Kerniano, Mozarlesco ou Onésimo?
Acho que eu, assim como Vinicius no vídeo acima, sou Mozarlesco…









