Harry Potter e as Relíquias da Morte: o filme deve ser fiel ao livro?

O filme Harry Potter e as Relíquias da Morte (parte 1) – correspondente a algo como a primeira metade do sétimo e último volume da série sobre o bruxo, que assisti nesta quinta-feira – levanta novamente a questão.

Um filme deve ser absolutamente fiel ao livro? (Coisa, admitamos, impossível.)

Algumas das melhores adaptações para cinema são bastante diferentes em relação ao livro em que foram inspiradas.

Cito algumas: O Iluminado, 2001 Uma Odisséia no Espaço e Laranja Mecânica. Coincidência ou não, todos esses filmes são de Stanley Kubrick, baseados respectivamente em livros de Stephen King, Arthur C. Clarke e Anthony Burgess.

Confesso não ser um fã da série de J. K. Rowling, embora entenda os motivos que há para existirem tantos. Assim, devo dizer que assisti apenas o primeiro filme, um outro baseado em um dos livros do meio da série (não lembro qual) e, finalmente, este.

Porém não foi difícil estar atualizado quanto à narrativa e entendê-la, pois para saber o que acontece em Hogwarts atualmente basta estar vivo e com algumas das funções mentais em dia. As informações chegam até você como se fosse, digamos assim, magia.

O diretor do filme, David Yates, bem como o roteirista, Steven Kloves, optaram por fazer uma espécie de resumo do último fascículo da obra, como se ela fosse cair no vestibular ou coisa assim.

Obviamente, isso não traz muito mérito ao filme. Os acontecimentos primários estavam todos ali, ou quase todos, mas numa mera sucessão de fatos. Se você gosta de cinema, talvez não fique satisfeito: verá tão somente Harry Potter e seus amiguinhos indo para lá e para cá em sua fuga, com uma ou outra parada mais ou menos dramática. De fato, se eu nunca tivesse ouvido falar de Harry Potter, fosse ao cinema por acaso e me perguntassem sobre o filme, eu diria que é sobre três garotos que vão para lá e para cá e que, às vezes, enfrentam uns seres aparentemente malignos.

Além de tudo, na tarefa insana de resumir metade de uma obra de 800 páginas, diretor e roteirista deixaram os fatos um tanto descosturados, coisa que no livro provavelmente não acontece. Se a plateia faz a concesão de aceitar que entre uma coisa e outra há algum elo omitido, ou porque leu o livro ou porque sabe fazer contas, os realizadores poderiam ter aproveitado essa conveniência para se dedicar à narrativa de formas mais cinematográficas e até menos lineares e rasas.

Talvez tivessem sido mais felizes se explorassem a história de Alvo Dumbledore com mais riqueza e tivessem dado mais chances às aparições de Voldemort.

Estou certo de que qualquer fã de Harry Potter gostaria muito de um livro chamado A História Sem Fim, de Michael Ende. Sugiro que o leiam e, depois, assistam ao filme de Wolfgang Petersen, de 1984, que o adaptou para as telas. Dê um desconto para os efeitos visuais da época e você entenderá do que estou falando. Trata-se de uma adaptação pouco fiel ao que diz respeito à narrativa – afinal, nem tudo pode estar lá -, mas o espírito do livro está.

Outra boa lembrança, mais recente e sugerida pela Júlia Rodrigues, é a adaptação de Tim Burton, diretor que preferiu contar outra história, totalmente nova, a simplesmente resumir Alice no País das Maravilhas e Alice Através do Espelho. O cineasta optou por enfocar mais os personagens que a própria história.

Outro bom exemplo, também lembrado pela Júlia: O Senhor dos Anéis. Trechos importantes foram simplesmente suprimidos para que se pudesse valorizar outros, justamente aqueles com melhores possibilidades cinematográficas.

Porém, sinto que no caso de Harry Potter há um clamor por parte dos fãs no sentido de que as páginas de cada um dos livros sejam traduzidas ipsis literis para a tela. Coisa que tem grande chance de empobrecer as possibilidades cinematográficas de qualquer livro por melhor ou pior que ele seja.

Postado em Artes e design.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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