Joguei RPG (Role-playing Game) por umas três ou quatro semanas em algum ano da década de 90.
Percebi que, quando alguém não se torna fanático pela coisa a ponto de andar com dados no bolso para tomar decisões ou para dar uma jogadinha rápida, pode-se dizer que trata-se de uma brincadeira que estimula a imaginação, o poder narrativo e o trabalho em grupo.
Soube que, em 2005, o município de Guarapari, no Espírito Santo, proibiu a venda de de livros de RPG em
Caso tenha dificuldade em abrir o arquivo TIF, disponibilizado no site da Câmara Municipal de Guarapari, veja o fac-símile da primeira página da lei abaixo:

Parece que aconteceu um terrível crime nessa cidade que teria sido motivado pelo que seria um jogo de RPG em 2005. A lei está em vigor até hoje.
Naturalmente, nem sempre os legisladores e governantes que escolhemos durante as eleições são dotados de cultura suficiente. Isso seria esperar demais.
É o tipo de gente capaz de proibir enxadas e música sertaneja porque um crime aconteceu em circunstâncias que envolvem esses dois elementos em princípio inofensivos.
Não o fariam, porém, pois – assim como eu e assim como você, meu caro leitor – conhecem bem enxadas e músicas sertaneja.
O mesmo não se dá com o RPG, um tanto desconhecido e misterioso.
Naturalmente, a Bíblia e o Corão foram a causa de muito mais chacinas e crimes que qualquer livro de RPG, mas não passa nem pela minha nem pela sua cabeça proibi-los.
O problema não está na Bíblia ou no Corão, mas em uns poucos desmiolados dentre os que seguem o que está escrito nesses livros. Digo, Salomão ameaçou cortar uma criança no meio, mas alguns de nós levariam a coisa até o fim com grande entusiasmo e júbilo só porque leram essa lenda em um livro considerado sagrado.
O álcool – embora não seja um livro (qualquer estudante de segundo ano da faculdade de Química sabe disso) – também motivou muito mais crimes.
Nem por isso está proibido. Em Guarapari ou em qualquer cidade do Brasil.
Pois o problema não está no álcool, mas nas pessoas que bebem. Algumas delas o fazem, inclusive, enquanto leem a Bíblia e pensam se devem ou não cortar bebês no meio.
Mas nem é por essas coisas que escrevi este artigo.
Não acho que o RPG e os seus livros precisem de minha defesa ou de quem quer que seja em terras civilizadas ou não. E nem eu seria a pessoa mais indicada a defendê-lo, pois não chego a ser um entusiasta.
A grande questão é: o vereador que criou essa lei e as pessoas que fiscalizam seu cumprimento sabem a diferença entre Role-playing Game e RPG (Reeducação Postural Global)?
Algum fisioterapeuta ou assemelhado de Guarapari pode estar sentindo-se prejudicado em ter de viajar até a cidade vizinha para comprar sua bibliografia obrigatória.






