Graciliano Ramos também viajou às custas do governo para escrever um grande livro

Está muito em voga falar sobre viagens de escritores e sobre se deslocar até determinado local para melhor captar uma atmosfera a fim de escrever sobre ela.

Eis o que encontrei em minha atual leitura:

(…) os célebres mocambos que José Lins havia descrito em Moleque Ricardo. Conheceria José Lins aquela vida? Provavelmente não conhecia. Acusavam-no de ser apenas um memorialista, de não possuir imaginação, e o romance mostrava exatamente o contrário. Que entendia ele de meninos nascidos e criados na lama e na miséria, ele, filho de proprietários? Contudo a narração tinha verossimilhança. Eu seria incapaz de semelhante proeza: só me abalanço a expor a coisa observada e sentida. Tornaria esse amigo a compor outra história assim, desigual, desleixada, mas onde existem passagens admiráveis, duas pelo menos a atingir o ponto culminante da literatura brasileira? Quem sabia lá? Agora morava no Rio, talvez entrasse na ordem, esquecesse a bagaceira e a senzala, forjasse novelas convenientes para um público besta, rico e vazio.

Eis que Graciliano Ramos, em seu Memórias do Cárcere, não aprova nem desaprova a narrativa experenciada de fato. Apenas observa essa diferença entre ele e José Lins do Rego. Para sua prática, no entanto, o que melhor aceita é a experiência. Seus livros teriam muito de suas próprias memórias, mesmo os notadamente ficcionais, como Angústia.

Veja Memórias do Cárcere, por exemplo. Ele conseguiu, durante o regime Vargas, uma passagem para a Colônia Correcional de Ilha Grande, onde também permaneceu às custas do dinheiro público por quase um ano.

De lá para cá muita coisa aconteceu. A literatura mudou – se para melhor ou para pior depois me digam – e o destino geográfico dos escritores também. Agora eles preferem Paris, Tóquio, Nova York e por aí vai.

Não digo que absolutamente todos os autores devessem ir presos a lugares parecidos com a Ilha Grande a fim de produzir obras de qualidade. Apenas quis dizer que, a julgar pelo custo ao Tesouro Nacional, Graciliano não foi nada mal.

Na verdade, é muito triste que um grande artista como ele tenha passado quase um ano na cadeia conhecendo a verdadeira miséria humana. E ainda bem que, hoje em dia, nossos garbosos escritores podem escolher outros portos mais aprazíveis.

Postado em Livros e Afins.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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