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Governo de Santa Catarina pensa mais em sexo que em literatura

4 de junho de 2009 | Publicado na Categoria Escritores | 9 Comentários »

O escritor Oscar Wilde disse certa vez que não existem livros morais ou imorais: existem sim livro bem escritos e livros mal escritos.

Ele está certo, mas no que diz respeito à literatura para escolas, é claro, é necessário tomar cuidado, afinal há crenças, pudores e a puericultura em jogo.

Ao adotar um livro para o ensino público, um governo precisa avaliar com precisão o material a fim de que não tenha de retirar de sua listinha de compras – que inclui elásticos para dinheiro, clipes, papel higiênico e, possivelmente, cotonetes – 130 mil exemplares de determinada obra sob os holofotes espalhafatosos de um espetáculo ridículo.

Veja: a avaliação tem de ser anterior, visto que a suposta formação moral dos jovens deveria estar no mesmo patamar que a formação literária e artística dos mancebos e donzelas. De maneira que a suposta formação moral não prejudique a artística e a artística não prejudique a moral.

O escritor Cristóvão Tezza foi vítima recentemente da inversão dessa ordem.

É legítimo que um sistema de ensino adote para si os valores morais que melhor lhe convierem, visto que trata-se de um sistema de ensino e visto que conveniência e moral costumam andar saltitantes e de mãos dadas pelas calçadas da História.

Mas, por favor, façam a coisa direito. Não tal e qual patetas.

O governo de Santa Catarina comprou 130 mil exemplares do livro Aventuras Provisórias, de Cristóvão Tezza, para que seus estudantes o lessem e fizessem provinhas de interpretação de texto. Lá pelas tantas alguém descobre três ou quatro linhas que descrevem sexo (não encontrei um plugin de WordPress que fizesse aparecer as chamas do inferno em torno da palavra sexo).

E, finalmente, por conta disso a compra é cancelada. Os livros são jogados na fogueira e o escritor também, com prejuízos morais que ele descreve em um excelente texto.

A impressão que se tem depois desse episódio é que alguém do governo leu a orelha do livro, a biografia do autor (viu que se trata de um catarinense) e disse: “Ei, Johnny! Acho uma boa idéia adotarmos esse livro para nossos alunos fazerem provinhas de interpretação de texto, parceiro!”.

Sem mais.

Ou seja, o governo compra 130 mil exemplares – enfileirados são uns 30 quilômetros de livros (sim, eu calculei) – sem uma avaliação profunda da obra sob o microscópio dos padrões morais socialmente e governamentalmente hoje convenientes. Afinal é só um livro.

Isso demonstra o valor que o governo dá à literatura e ao que os seus alunos leem.

E quando alguém descobre, por acaso, que há um parágrafo de sexo (fogo, fogo do inferno!) lá no meio de uma das páginas, as luzes se acendem e as engrenagens da inquisição começam a rodar. Afinal é SEXO!!!!! (achei a cor vermelha, aleluia!)

Isso demonstra o valor que o governo dá ao sexo e ao que seus alunos pensam a respeito dele.

Não entrarei nos significados que tudo isso tem, pois confio no poder de seu discernimento, caro leitor, cara leitora.

Não entrarei nos méritos morais do Governo do Estado de Santa Catarina, mas esse é um caso clássico em que, para preservar-se os valores morais, feriram-se profundamente os valores éticos.

E mostrou-se como esses dois conceitos podem andar separados.

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9 Comentários para “Governo de Santa Catarina pensa mais em sexo que em literatura”

  1. Sergio Grigoletto - 4 6 2009 às 12:34

    Alê!

    Tenha fé, amigo. Isso, são as dores do crescimento, inerentes a todo processo.
    Veja, acredito que o acontecido em SC seja reflexo direto do acontecido em SP, quando o próprio governador teve que comparecer ao jornal matinal da Globo para redimir-se de ação da Secretaria da Educação pela compra de livros não apropriados.
    E cá no caso, eram mesmo!
    A repercussão, recebe a dimensão proporcional ao da fonte geradora, sabemos. E exacerbam, quase sempre.
    (Um beijo selinho da Madonna fez com que a mulherada botassem línguas a brigar, mundo afora)
    Impor hábitos de leitura sob o ponto de vista cultural nas escolas é conquista nossa, da sociedade. E os governos sempre esteve aquém em qualificação bastante de seu pessoal, para atender esses avanços conquistados. No governo, não estão os capazes.
    Estamos conquistando algo que se fez forte, acho até que antes do que deveria ter vindo primeiro: educação sexual.
    Prova disso, é o fato. A simples inscrição da palavra sexo basta para desnortear o próprio educador.
    Sexo é Vida e excluir isso da Literatura, é manietá-la.
    Há o prejudicado, o escritor, claro, se o deixarem no prejuizo, se não permitirem que adeque sua obra para os parâmetros a que precisa se sujeitar (se o quiser) para faturar no Estado.
    Mas não há retrocesso, não mesmo. Incrementar o hábito da leitura, formar leitores, mediadores de leitura, NÃO TEM VOLTA.
    Mais e mais discutimos EDUCAÇÃO e mais e mais, incluimos nessa discussão o hábito da leitura.
    Ao Cristovão Tezza, minha solidariedade.

    Abs!

    (Só não entendi uma coisa… esse “queimados” para os livros é literal?)

  2. Alessandro Martins - 4 6 2009 às 13:12

    Metafórico, Sérgio. O “livros queimados” é metafórico :-)

    Abraços!

  3. Pri - 4 6 2009 às 15:39

    só sei que esse furdunço todo me deixou curiosa, queria ler o tal livro e principalmente a descrição pecaminosa rs

  4. Simone - 4 6 2009 às 18:37

    “O cortiço” foi leitura obrigatória no 2o ano do meu Ensino Médio. Os professores até ficam felizes, porque sabem que os alunos finalmente vão ler o livro todo, afinal, ele é coalhado de sacanagens… você vê os meninos se cutucando e perguntando se os outros já chegaram na cena lésbica. É raro ver tanto entusiasmo pela literatura.
    Quanto a mim, fiquei meio chocada, mas entendi a função das cenas no romance, especialmente com a explicação do professor sobre o naturalismo e os nomes das personagens.
    Na mesma época (aliás, durante essa aula), eu li “Lolita” — e achei bem melhor que “O cortiço”, porque se preocupava menos em chocar do que mostrar a complexidade da situação de Humbert.
    A educação sexual costuma ser ministrada na 6a série; no Ensino Médio, certamente alguma aluna já deve ter aparecido grávida; o Tezza escreve bem; então por que a hipocrisia?
    Proíbam os livros mesmo, digam que é “perigoso”, que aí todo mundo vai correndo ler. É melhor acreditar que tudo isso se trata de uma estratégia inteligente pra estimular a leitura no Brasil…

  5. jaque - 5 6 2009 às 10:45

    Fico extremamente envergonhada pelas atitudes do meu estado, se realmente prevalecer a censura sobre livros onde aparecem alguns trechos assim, as bibliotecas escolares fecharam as portas.

  6. Gilson - 5 6 2009 às 14:09

    Sendo que num pais.onde os programas insentiva a literatura e esse gov pensa só em sexo, dai que vem sua adminstração ou seja não por menos que estamos se f.sempre.

  7. Barbara Brosch - 5 6 2009 às 21:56

    Eu li “O Cortiço” e vi o filme, e dai…? E li tb. “Mar Morto” e me chocou muito mais, e dai…? Li Lolita, e detestei e dai…? Li quase todos de Nabokov, Anais N. e Henry Miller e daÍ…? E Marquês de Sade, e todo o arsenal do ultra romantismo…. e daí? Digo q. não gostei… e daí? Hj. prefiro romances e poesias doces e piegas, e daí? AH…. SEXO e mais SEXO!!! Uau! Q. emoção…q. t… Para poder comentar é preciso ter conhecimento de causa, teórico e prático q. c/ certeza eu tenho… e daí?! E aí…? Gostei? Gostei, como disse o Sérgio Grigoletto, sexo faz parte da vida, e como! Não dá p/ eliminá-lo da vida ordinária e da literatura e, não é caso de por na ‘fogueira literal ou metafórica’ tudo q. a ele se relaciona explícita ou implicitamente, mas…………concordo q. deve haver uma pesquisa, um estudo… tudo têm seu tempo e sua HORA de ser apresentado a um SER HUMANO. Se não fosse assim a pedofilia teria de ser encarada como fato NORMAL e não é… não é verdade?
    Acho q. sim, todos os governos têm q. fiscalizar o q. se põe nas mãos dos pimpolhos e dos não tão pimpolhos, não só o de Sta. Catarina e de SP. Mas se o caso gira em torno de 1 parágrafo, em meio a + de 200 pgs. escritas… então é caso de exagero, talvez… Digo talvez…pq. na época em q. li Mar Morto e tinha 12 anos e não sabia nada de SEXO, óóóhhhh!!!! Algo parecido me marcou p/ sempre e foi apenas uma frase, não um parágrafo, só e apenas uma frase: “…e no convés ficaram algumas gotas de sangue…” se referindo a mais uma garota q. tinha sido desvirginada pelo personagem.
    Então…? Não é caso de se analisar bem este parágrafo? Em todo caso, vou ler de novo esta obra, pq. sinceramente, me passou desapercebido este trecho, acho q., não…! tenho certeza q. é pq. já sou bem grandinha agora e preciso de um livro inteiro cheio de SEXO p/ me escandalizar ou p/ me impressionar. Mas reafirmo, ainda assim prefiro romances e livros de aventura. SEXO é legal, é o máximo…é muuuita ‘coisa’, na realidade , apenas faz parte, uma GRANDE parte, SEXO é , faz Parte, é uma faceta, umlado da nossa humanidade, portanto não é tudo, TUDO q. SIGNIFICA “SER HOMEM e SER MULHER”. Bjos.

  8. _Maga - 7 6 2009 às 15:06

    “O paraíso neste mundo se encontra no dorso dos alazães, nas páginas de alguns livros e entre os seios de uma mulher.” p. 70, Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum.

    Novela das oitos então, nem pensar, né? (Alguém lembra os professores que essas crianças cantam funk aos berros?) MInha sorte foi ter nascido no Paraná (Pato Branco, daí) e morado em uma cidade minuscula de 7 mil hab – e com crescimento vegetativo negativo – quase sem professores, mas em que a educação sexual começava na terceira série do primário – série em que praticamente todos os alunos tinham 8 anos. Minha outra sorte era que minha escola tinha uma biblioteca.

    Um abraço

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