Gente de teatro sofre

Leio, no momento, Em Casa – Uma Breve História da Vida Doméstica, de Bill Bryson, um livro excelente que nos faz ver com outra ótica os mínimos objetos de nossos lares e os hábitos que costumamos perceber como se estivessem desde sempre em nossas vidas.

O vidro, por exemplo. Você já parou para pensar que nem sempre esse foi um material comum? Na Inglaterra de meados de 1800, por exemplo, havia um imposto sobre janelas e um imposto sobre artigos de luxo (o que incluía as vidraças).

As janelas eram, então, vedadas com tijolos, madeira ou o que fosse e essa vedação era ornamentadas com a pintura de uma… janela.

Nas janelas que ficavam abertas, colocava vidraças quem podia arcar com seu preço e com o imposto sobre artigos de luxo. Essas taxas eram chamadas pela população inconformada de “imposto sobre o ar e a luz”.

Nos testamentos, era comum se deixar a casa para um parente e as janelas para outro. É engraçado, considerando que janelas são basicamente buracos retangulares nas paredes externas de uma edificação.

Alguns dos trechos mais interessantes do livro, no entanto, dizem respeito às análises sobre nossos hábitos alimentares.

O jantar, por exemplo, nem sempre foi uma refeição noturna. Houve períodos que, inclusive, o jantar acontecia na hora em que hoje se sedimentou o almoço (!!!!).

De fato, o almoço só foi surgir mais tarde, por necessidade, visto que o intervalo entre o quebra-jejum matutino e o jantar, agora noturno, se tornara tão grande que era, assim, necessária uma refeição ali no meio.

Num parágrafo, no entanto, vemos como o deslocamento dessa atividade ao longo do dia influenciou o relacionamento que temos, ou não, com as artes cênicas e, por outro lado, se deixou influenciar por ela.

Outro fator que influenciava muito a hora de jantar era o teatro. No tempo de Shakespeare os espetáculos começavam por volta das duas horas, ou seja, não atrapalhavam as refeições; mas isso se devia sobretudo, à necessidade de luz natural em palcos a céu aberto como o Globe shakespeariano. Quando os espetáculos passaram para salas cobertas, o horário de início foi ficando para cada vez mais tarde e os espectadores tiveram que adaptar sua hora de jantar – mesmo com relutância, e até ressentimento. Por fim, sem conseguir ou sem desejar modificar ainda mais seus hábitos pessoais, o beau monde parou de tentar chegar ao teatro no primeiro ato e adotou o costume de enviar um criado para segurar seus lugares até que eles acabassem de jantar. Em geral apareciam – barulhentos, bêbados e sem vontade de se concentrar – para ver os últimos atos. Durante toda uma geração, foi normal que uma companhia teatral apresentasse a primeira metade da peça para um auditório cheio de criados cochilando, que não tinham nenhum apreço por aquilo tudo, e a segunda metade para um público inebriado e mal-educado, que nem fazia ideia do que estava acontecendo no palco.

Diante disso, um celular tocando na plateia de vez em quando, por grave que seja, nem parece tão ruim.

Postado em Artes e design , Minhas leituras.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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