Impulsionados por toda a onda de discussão sobre as cotas nas Universidades públicas, publicamos um post na semana passada de Professores de Universidades Federais contra e a favor do tema. Ficou evidente que independentemente da nossa opinião em relação às cotas, todos devemos exigir uma melhor educação pública, e que as cotas não mascarem esta obrigação de investimento no ensino médio.

Outra questão não menos importante é a representação racial nas Universidade, bem como em todos os setores da sociedade.  A causa principal apontada é a desigualdade das oportunidades. Se houvesse uma melhoria radical do ensino público, a representação racial nas Universidades seria uma consequência natural dessa igualdade de oportunidades.

Sabemos que o único parâmetro válido para a definição das raças é a auto-identificação. A existência do conceito de raça na sociedade  é uma realidade sócio-cultural. E como já disse Jay Kaufman, epidemiologista americano:

“As raças não existem em nossa mente porque são reais, mas são reais porque existem em nossa mente.”

cotas universidades

Sim, porque para a Biologia, as raças de humanos formam um conceito que caiu em desuso. Afinal, já foi provado que existe mais diferença genética entre indivíduos da mesma população que entre indivíduos de populações diferentes. Essas conclusões corroboram o estudo clássico de1972 do Prof. Richard Lewontin  “The apportionment of human diversity”. Mais atualmente, o Prof. Sergio Pena, da UFMG propõe que a espécie humana não seja dividida em raças ou populações, mas sim em indivíduos com graus maiores ou menores de parentescos de linhagens genealógicas. Seus estudos sugerem que as heterogeneidades genéticas não se adequam na representação de categorias arbritárias de raça ou cor.

Irmãos gêmeos: James (esquerda) e Daniel Kelly. Fotografia: “The Guardian” – 2011

Mas como foi possível agrupar os seres humanos em diferentes raças em algum momento da história?

O conceito de raças humanas na biologia foi sugerido em 1767 pelo sueco Carl Linnaeus, professor de Botânica. Ele agrupou em classes, ordens, gêneros, espécies e subdivisões, estabelecendo a classificação taxionômica de animais e vegetais, com nomenclatura binomial única para cada espécie. No entanto, suas subdivisões para os seres humanos só foram possíveis porque se basearam em um dado biológico arbitrário (a cor da pele) e estereótipos culturais.

Com o respaldo da Ciência, o conceito de raças foi usado para justificar a dominação de alguns grupos sobre outros, classificando os mesmos com valores de superioridade. As consequências já sabemos que foram e ainda são horríveis.

Posto que as teorias científicas são sempre provisórias, construções que avançam a partir da edição das teorias anteriores, é um erro enorme aceitar argumentos mesmo que respaldados pela Ciência para justificar o injustificável.

Sobre o autor: Praciência

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