Estou lendo um livro chamado Freakonomics, de Steven D. Levitt (você também não odeia quando eles colocam apenas a inicial do nome do meio?).

Nele, o autor usa a Economia para apontar relações de causa e efeito menos evidentes do cotidiano. Com isso, ele mostra como o preconceito se revela num show televisivo ou como foi possível provar que professores de todo os Estados Unidos foram capazes de roubar a favor de seus alunos em um teste padrão.

Uma das histórias do livro fala de um outro economista que largou um emprego de que não gostava para se dedicar ao negócio de broas.

Ele entregava broas em diversas repartições da cidade, as pessoas as levavam e deixavam o dinheiro em um copo plástico. Ao final do dia, ele recolhia as broas que sobravam e o dinheiro no copinho: ou seja, a coisa se baseava em honestidade.

Quando criei a Biblioteca Pote de Mel considerei que havia a possibilidade de, em breve, todo o acervo acabar. Afinal, as pessoas levam o livro, devolvem quando querem e não há o compromisso formal de que a devolução aconteça. A não ser o compromisso que a pessoa assume consigo mesma.

De fato, alguns livros não voltam.

Mesmo assim, a biblioteca continua lentamente a crescer. Isso me fez chegar a algumas conclusões.

  • Geralmente quem costuma ficar com um livro está sendo mesquinho. A ponto de não ser capaz de se apropriar indevidamente de muitos livros de uma vez. Mas de apenas um. É até meio ridículo.
  • Quem doa, costuma doar muitos livros. Dez, em média. Não é uma regra, mas é o que eu tenho observado.
  • Boa parte das pessoas que empresta os livros, devolve.

Assim, embora a mesquinhez seja um tanto disseminada – e todo mundo é um pouco mesquinho de vez em quando -, o altruísmo age mais espaçadamente, mas com volume.

A mesquinhez é no varejo.

A generosidade, no atacado.

Assim, creio, essas duas forças no mundo – e em nós – acabam se equilibrando. E a julgar pelo crescimento lento e orgânico da Pote, os generosos estão com alguma vantagem.

Mas eu estava falando sobre o economista que virou vendedor de broas. Claro que, no seu sistema, algumas pessoas pegavam broas e não pagavam. Assim como no caso dos livros, no caso das broas trata-se de um delito em que não há testemunha. E, por outro lado, a chance de se poder fazer algo certo sem que haja uma lei ou alguém ou um deus obrigando.

Levitt cita o primeiro livro de Adam Smith (quem diria), A Teoria dos Sentimentos Morais, sobre a honestidade inata do ser humano:

Por mais que se considere egoísta um indivíduo, existem evidentemente alguns princípios em sua natureza que o fazem interessar-se pela sorte dos outros, tornando necessária para ele a felicidade desses outros, embora daí não lhe advenha coisa alguma além do prazer de testemunhá-la.

As pessoas em geral são boas mesmo sem correr o risco de punição se não o forem.

Eu, por meu lado, costumo dizer que só é verdadeiramente livre o homem que faz o que julga certo sem que, para isso, seja necessária uma lei, de qualquer natureza, que o obrigue a isso.

Não poucas vezes, aliás, as leis impelem os homens a fazer o errado.

Glauco, aluno de Platão em A República, conta a história de Gyges que encontra um anel que o torna invisível (acho que você já viu isso em outro livro, certo?). Com esse poder, sem ninguém para observá-lo, começa a praticar más ações. A questão dessa história: se seus atos não fossem testemunhados, algum homem resistiria a tentação do mal?

A experiência do economista do livro de Levitt, o das broas, diz que em 87% das vezes sim.

A experiência com a Biblioteca Pote de Mel diz que essas vezes são suficientes para que algo bom permaneça, cresça e multiplique.

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