Olympus-Pen EE-2

Não sou do tipo saudosista como Gil Pender, protagonista de “Meia noite em Paris”, que desejava ter nascido em outra época. Eu não. Gosto de muitas coisas de eras passadas como a música, os objetos, o capricho, o asseio em se vestir e a educação das pessoas (esta em extinção nos dias de hoje), mas não digo que “aquele tempo que era bom”, não. Eu pertenço ao presente. Não gostaria de ter vivido na época em que a sangria era a solução para todos os males ou que bacana era ter uma cuspideira na sala.

O que não podemos negar é que antigamente os objetos, mesmo os industrializados, eram de um capricho muito grande. Tudo era bonito, cheio de detalhes, robusto e bem concebido. Ao contrário de hoje, que as coisas são feitas para quebrar e você ter que comprar outro iPhone porque arrumar a tela quebrada fica o preço de um novo. Tudo muito descartável, plástico, frágil e volátil. O que você comprou há dois anos é quase um sarcófago ambulante.

Eu, como fotografo amador, geralmente uso câmera digital, e lembro muito bem da resistência de alguns fotógrafos renomados a aderir ao “novo” formato em detrimento do romântico filme. A discussão foi longa, mas existem tecnologias que vem pra ficar, não adianta espernear. Sebastião Salgado, após muito relutar, acabou aderindo e hoje obtém resultados melhores que os um dia conseguidos na boa e velha (sim, é boa) película fotográfica – só seus fotografados que continuam na miséria, mas este é assunto pra outra hora.

Apesar disso, defendo que para se entender uma arte, há que estuda-la e muito. Mais que isso, há que vivenciá-la. Não acredito que um fotógrafo pode se intitular fotógrafo porque comprou uma câmera de cinco mil Reais e fez um cursinho de fotografia em uma das mil escolas de arte. Tem que entender uma câmera, fotografar com filme, revelá-lo, testar, errar, errar, errar e errar até acertar. Fotografia é olhar e técnica. O olhar é da sensibilidade do fotógrafo, já a técnica requer muito estudo e muito treino.

Eu, mesmo tendo em mãos a digital, sempre gostei de colocar um filme preto e branco na Pentax K-1000 da faculdade – obrigado, Professor Nelson, pelas câmeras emprestadas à surdina – e sair fotografando, testando, inventando e ter aquela surpresa nem sempre agradável na revelação, mas que me fizeram aprender muito. Fotografar com a digital se torna uma experiência completamente diferente quando você já esqueceu de mudar o ISO da câmera ao colocar um filme novo com velocidade diferente do anterior, já ficou durante um bom tempo estudando a foto que queria fazer e segurou a ansiedade até pegar aquele filme vencido que você mandou revelar em São Paulo.

O prazer em fotografar com filme me levou a comprar do mesmo professor, uma Nikon FM-10 com uma lente que é meu xodó. Uma Nikkor 24mm f/2.8 do início da década de 70. Além disso, acabo de ganhar de um amigo uma camerazinha compacta da Olympus (foto no início do artigo). Ela foi encontrada dentro de uma mala de roupas no brechó de sua mulher, que ia jogá-la fora. Ele, sabendo do meu gosto pela coisa, evitou o sacrilégio e me deu de presente. Uma Olympus-Pen EE-2 fabricada entre 1968 e 1977 no boom das câmeras half frame (que usam metade de um quadro normal de filme 35mm), que será tema nos próximos artigos aqui no blog.

Com essa introdução, dou início à uma série de artigos sobre fotografia, abordando câmeras, técnicas, futuro, dicas e claro, minhas opiniões e experiências. Espero encorajar quem gosta de fotografia e tem vontade de fotografar ou quem já faz suas artes com câmeras digitais e celulares a voltar no tempo, conseguir uma camerazinha bacana (a Pentax K-1000 é fantástica pra quem quer aprender) e sair clicando por aí sem medo de queimar o filme, neste caso, literalmente.

Quem quiser espiar minhas fotos, eis meu Flickr: http://flickr.com/brunonox

Um abraço e até o próximo artigo.

Sobre o autor: Bruno Pereira da Silva

Um seminerd publicitário, fotógrafo e empresário da Santa Querupita, escritor do Lado B do Cassete, apaixonado por cultura pop dos anos 80 e 90, que sabe de tudo um pouco e muito de nada.