Flecha

Deixe-me então paralisar essa cena em que a poucos centímetros da pele do pescoço a flecha, lançada a menos de um segundo, está prestes a perfurar tecidos e órgãos. A ponta de metal, sem consciência, desconhece as minúcias da vida. Ela apenas obedece as leis da física, sem que para isso as precise entender. Pudesse, continuaria sua trajetória retilínea indefinidamente, interrompida somente pela resistência do ar e da gravidade terrestre ou por algum obstáculo que se ponha a sua frente.

No caso, um pescoço. Um pescoço de mulher.

No mesmo instante, por essa tubulação feita de carne e cartilagens passa um certa quantidade de ar em direção aos pulmões. Não desce rápido, como o alento ofegante dos fugitivos. Não desce em grande volume, como o inspirar e o expirar dos que se preparam para descontrair o corpo. Digamos que é um volume médio, dos que andam distraídos pelas ruas a olhar a vitrine sem grandes preocupações.

Mas que a flecha se aproxime mais. Que fique a um centímetro do seu alvo, supondo-se que seja um alvo e não seja por acaso que essa estrutura ora íntegra esteja no caminho do projétil. Ora íntegra, talvez pela exceção de uma mordida. Uma demonstração dolorida de carinho de autoria de outro que não o dono do arco de que partiu a flecha.

Sim. Se há uma flecha que vôa, há um arco. Se há um arco, existe quem o enverga. E, na força do braço que o vergou, as mil razões que o fizeram voltar a ponta para determinada direção. E, no entanto, basta uma única para que os dedos se abram, como uma flor de carne e ossos, e os ouvidos ouçam a corda vibrar em uma nota seca, dura, enquanto as
mil, e uma, razões partem dali como se pudessem ser entendidas em um instante infinitamente pequeno.

Esse instante infinitamente pequeno seria exatamente esse. Em que há essa distância, um centímetro, talvez menos entre a epiderme e o aço. Nada mais pode ser feito e é certo que a seta atravessará de lado a lado a sua meta. Em muito menos de um milésimo de segundo haverá um corpo inerte na calçada. E esse mesmo volume de ar, a meio caminho dos pulmões, sairá como entrou, indiferente às paixões humanas. Pois, oxigênio, nitrogênio e outros gases, assim como o metal pontiagudo, as desconhece.

Voltará para a atmosfera e possivelmente esse alento irá para o peito o primeiro pedestre que encarar a cena bizarra de uma mulher com o pescoço transpassado em frente a uma vitrine de roupas. As trocas gasosas vão se dar normalmente e, é possível, que aquelas partículas ainda estejam em alguma célula sua, junto à glicose e a outros componentes, quando ele se chegue à mulher e conte, ainda em choque:

- Você não vai acreditar… eu estava andando pela rua. Sabe? Aquela rua em que você gosta de olhar as vitrines, onde tem aquela loja onde comprou o vestido verde que sempre usa nas festas… eu estava na calçada pronto para atravessar a rua e, de repente, a mulher que estava do meu lado caiu… achei que tivesse desmaiado… mas logo vi que saía muito sangue de seu pescoço… Ela estava atravessada, bem aqui… acho que era uma flecha ou coisa assim. Estava viva, de pé, e, de repente, estava morta com aquele negócio atravessado. Segurei sua mão, mas já estava morta… chamei ajuda e logo chegou um monte de pessoas… sempre faz uma rodinha de gente querendo saber o que está acontecendo… ela estava morta… foi flechada…

A mulher escuta atenta e espantada. A violência na cidade está horrível. Tudo pode acontecer. Olha para aquele homem, agora um tanto assustado. Traz-lhe uma sopa. Ela mesma está cansada pois também trabalhou o dia todo. Pensa que a flecha deve ter passado muito perto dele e que ele também correu um sério risco. Tudo pode acontecer. Liga a tevê. Vão ver tevê enquanto comem.

No noticiário, a história toda.

Homem ciumento mata namorada com flecha no centro de Curitiba. Arma usada, arco e flecha, determina que o crime foi premeditado. Criminoso achou o melhor lugar para tocaia e postou-se enquanto aguardava pacientemente a vítima.

A notícia é seguida de uma reportagem sobre crimes passionais no Brasil.

Mas deixe que eu volte a colocar a flecha a um centímetro do pescoço da tal mulher. Sim, mas observe que, desta vez, ela está um tanto para o lado e simplesmente passará de raspão. Fará, se tanto, uma cócega que ela pensará ser um mosquito e até usará a mão para espantá-lo. Ao mesmo tempo em que ouve o barulho de vidro a se quebrar e, imediatamente, após o susto, verá uma flecha no meio do peito de um dos manequins. E a mesma mão que seria usada para espantar o provável mosquito vai agora em direção ao peito, como se ela mesma tivesse sido ali atingida.

Ela olha para os lados. Sabe quem usa aquelas flechas, sabe quem pratica esse esporte e sabe que ele não erraria.

E o vê, antes que ele saia correndo. As mil, e uma, razões, no peito de um manequim frio. E uma outra, ainda em suas mãos, que fez seus braços virarem milímetros para esquerda e evitarem a morte desta a quem supostamente amava.

O homem olha a cena – a mulher assustada, o manequim atravessado, não vê o arqueiro -, sai dali rapidamente a fim de evitar confusões e vai para casa sem entender a cena. Conta para mulher o que aconteceu ou o que acha que aconteceu.

Os dois, cansados, tomam sopa e, desta vez, o noticiário não toca no assunto.

Assim, os materiais envolvidos na receita desse acontecimento ficam desconhecidos do grande público, a não ser para aqueles que leram esse texto: uma flecha. O plástico que compõe o corpo do manequim. O oxigênio que participa das trocas gasosas no corpo de quem é de direito.

Nenhum destes itens entende as paixões humanas. Apenas sofrem sem reclamar, deformando-se ou movendo-se, de acordo com as ações sobre eles exercidas e com as forças naturais da física. Mais ou menos como os próprios personagens deste texto. Sopa?

Postado em Outros.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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