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Cisne Negro foi campeão de críticas positivas no começo deste ano, além de consagrar Natalie Portman como melhor atriz de 2011 e ainda marcar mais um drama psicológico assinado por Darren Aronofsky. O filme aborda a fragilidade da mente humana e a perturbadora ambição que a move em busca de um sonho.
Todas as pessoas que conhecem, mesmo que minimamente balé, já ouviram falar da clássica peça O Lago dos Cisnes, de Ilitch Tchaikovsky, àqueles que não conhecem, basicamente: trata-se de uma bela princesa que é transformada em cisne e ela se retransforma em humana por um período do dia apenas. Neste período ela precisa encontrar o amor verdadeiro e fazer com que eles se apaixone por ela, quebrando assim, o encanto.
Só que, no meio do caminho descobre-se que a Cisne Branca tem uma irmã gêmea maligna, que também busca a libertação e ela quer ser libertada pelo mesmo príncipe que sua irmã branca. Completamente atormentada pela confusão do seu amado, Odette (cisne branco) entrega-se a morte ao perceber que seu futuro está traçado, ela será cisne para sempre!
Explorando a ideia da obra de Tchaikovsky, o filme com a Natalie Portman busca questionar a existência complexa dos dois lados da moeda, de modo que dialoga com a existência de uma Odette (cisne branco) e de Odille (cisne negro) em todas as pessoas, inclusive em Nina.
A expectativa que se instaurou ao redor de Cisne Negro foi muito mais intensificada pelo nome do diretor. Aronofsky assinou outros dramas psicológicos como Pi, Réquiem para um sonho, O lutador e A fonte da vida. Em todos os seus filmes, o que mais se nota é um tema em questão: a obsessão.
Obsessão capaz de levar ao mais são dos espectadores a questionar o quanto ele sabe, o quanto ele se mantem lúcido à frente de abusos e principalmente, o quão próximo de seus limites uma pessoa pode viver. O tema é recorrente, no entanto Aronofsky consegue revisitá-lo em todos as suas obras.
Vamos ao filme: ele conta a história de Nina, uma bailarina do New York Academy of ballet, que percebe uma reviravolta em sua vida, quando tem a oportunidade de interpretar a Rainha dos Cisnes. Para ela, interpretar Odette não tem mistério, ela possui as características virginais e ingênuas da personagem, mas Odille é um verdadeiro tormento para ela, uma vez que seu foco sempre foi a perfeição e não a sensualidade.
Nina é conduzida de tal forma pelo papel que interpreta que não consegue perceber os limites entre sonho e realidade, limites estes que começam a definir sua vida. Aos poucos, seu destino se sobrepõe ao enredo de O Lago Dos Cisnes. Seu lado negro, exemplificado pela essência de sua feminilidade, aflora e toma conta de sua personalidade sem que ela consiga controlá-lo. Dá-se inicio a uma metamorfose – física, mental, imaginativa, real, ou todas ao mesmo tempo, que conduzirá a protagonista a conflitos que levarão, personagens e plateia, a um destino perturbador.
Identificar-se com a personagem não é tão difícil quanto parece, Natalie consegue nos arrebatar para Nina de uma maneira quase surreal. Ela emagreceu, fez aulas de dança para adquirir a postura e o desenho esguio de uma bailarina e ainda por cima, nos encanta e perturba ao mesmo tempo.
Surpreende-nos um jogo mental em que cada personagem é uma faceta psicológica de Nina, sua mãe, superprotetora é a sua faceta frágil e em busca constante da perfeição; Beth (ex bailarina que interpretava a Rainha dos Cisnes antes de Nina) é a representação ácida e cruel do seu futuro e de seus medos, por fim temos Lily (Mila Kunis) que é a representação do selvagem de Nina, o seu Cisne Negro.
E, mais ainda, existe a força que nos impulsiona a não tirar os olhos da tela. Aquela força que só os filmes com roteiros intensos o suficiente e cenas de forte impacto conseguem nos movimentar. Sentimos todos os arranhões, os machucados, os prazeres, as quedas de Nina. Confundi-nos os passos, e as reviravoltas apavorantes que o filme toma. Pegamos sustos e nos encontramos completamente extasiados com a mistura de arte e pavor.
Aronofsky foi muito elogiado por ainda manter suas raízes de cinema independente, conseguindo trazer elementos dele para a telona. Ele utiliza muitos takes com uma câmera na mão, faz cenas circulares sem suporte e ainda utiliza-se sabiamente do macro, aproximando o espectador dos detalhes do filme e do sofrimento de Nina.
Ao final, apenas nos perguntamos até que ponto Nina é doente e até que ponto uma doença se instala nela. Questionando, também se de fato é tão distante de nós esta luta pela Odette, de maneira que deixamos de lado a nossa Odille. O filme acaba sendo um misto de sonho e realidade que surpreende, assusta e seduz; nos fazendo querer saber, afinal de contas, quem é o cisne negro, o branco ou cinza.









