Fila de cem metros aqui perto de casa logo cedo. Em pé, diversas pessoas ainda se espreguiçavam.

Centenas se aglomeravam na porta do Siemerc (Sindicato dos Empregados em Supermercados de Curitiba).

Enquanto eu me dirigia à padaria Pote de Mel, um rapaz pediu-me uma caneta emprestada. Perguntei-lhe do que se tratava a fila.

Não sabia. Perguntou ao colega, que disse, hesitando, ter algo a ver com um desconto no salário.

Fiz algumas fotos, descobrindo como é difícil retratar a real magnitude de uma fila.

Perguntei a uma garota. Não sabia por que estava ali.

Ao rapaz à frente dela:

– Ah, não sei. A firma disse pra gente vir.

– Quer dizer que você está nessa fila e nem sabe por quê?

Não respondeu.

– Alguém sabe por que está nessa fila?

Um rapaz, mais à frente, disse-me que tinha algo a ver com reversão salarial e evitar o desconto de 7,5% do salário. Mas a julgar pelo quanto demorou a responder, não tinha muita certeza.

A maioria não sabia por que estava ali, por quanto estava ali e só estava ali por que disseram para estar.

Tenho certeza absoluta de que todos eram alfabetizados. Afinal, um deles até me pediu uma caneta emprestada. Não era para desenhar, mas para preencher um formulário ou coisa assim.

O problema da educação atualmente não está em juntar as letrinhas.

O problema da educação é ensinar por que se deve ou não entrar em filas.

(publicado originalmente em 28 de maio de 2008)

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!