Festival de Curitiba: peça de cabra-macho; um comentário de Fernando Klug
22 de março de 2008 | Publicado na Categoria Teatro | Sem Comentários »O Fernado Klug foi ver a peça Virgolino Ferreira e Maria de Déa, sobre a última noite de Lampião e Maria Bonita, e escreveu um texto sobre ela:
O que teriam feito Virgolino e Maria – as pessoas, não os mitos – na madrugada de 28 de julho, antes do massacre? A resposta, enterrada para sempre em Angicos, é o ponto de partida para Marcos Barbosa explorar a intimidade do casal cangaceiro. E, pelo foco dessa intimidade, expor detalhes como aspirações de vida, religiosidade, preconceitos…
E a conhecida vaidade de Virgolino. Além das relações entre o Capitão e seus cabras. O texto retira do casal toda a mitificação: há um homem e uma mulher; um líder campesino e sua esposa. Apesar das pistas deixadas à guisa de manter o mistério, não é o que ocasionou o massacre de Angicos o foco da trama.
A direção de Amir Haddad é econômica. Segue a receita do texto, sustentada pelo mistério em saber “como as coisas aconteceram” – uma vez que o final jaz no saguão do teatro: os corpos decapitados dos dois cangaceiros. São bonecos, claro. Pergunto-me que impacto teria na peça se fossem as fotos dos corpos reais. Mas Haddad preferiu bonecos.
A direção é corajosa. Hora e meia de peça, em ritmo ondulatório e lento, sem fazer concessões e usando da soma de elementos sutis. A bela iluminação alternada apenas em intensidade; o som sugerindo ambientação e clima. Poucas surpresas, como o aviso sonoro dado pelo cangaceiro-vigia em resposta a Lampião: ora de trás da platéia, ora de uma das laterais do teatro (atestando seu deslocamento). E a confiança nos atores Marcos Palmeira e Adriana Esteves. Que, se não interpretam magistralmente, dão conta do recado. Apenas o ritmo – a peça teve quase 10 minutos além do prometido no programa – precisa melhorar. Ouso dizer que a cena poderia ter acabado no primeiro tiro, no primeiro metralhar, em black out súbito da vida. O início do espetáculo – no qual os contra-regras abrem a lona que envolve o cenário (algo como abrir o mistério enterrado), e o final, onde fecham-na de novo, parece dizer que o segredo real daquela madrugada permanece lá. A aparição final do casal, num foco, feito figurinhas de barro, repetindo alguns trechos da peça, não era necessária.
Curso do Fernando Klug
O Fernando tem cursos muito legais para quem quer se preparar para alguma banca, para algum vestibular de conhecimento específico ou simplesmente se quer conhecer melhor as artes dramáticas.
Eis as informações de contato:

